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Deputados relacionam o alto número de pessoas com câncer e aplicação de agrotóxicos em Unaí-MG depois de vídeo publicado na web

Há muito tempo, Unaí lidera a produção de grãos no estado de Minas Gerais e tem números expressivos na soma de produção do país. Somente em 2011, o município de Unaí produziu 798,5 mil toneladas de grãos e quando se observa a produção do noroeste do estado, esse número sobe para 2,7 milhões de toneladas, abastecendo mais de um quarto da produção estadual.
Depois da disponibilização de um vídeo no Youtube com denúncias à marca de feijão Unaí, que é administrada pela empresa Torrefação e Moagem Unaí, por parte do frei Gilvander Luís Moreira, de Belo Horizonte, em janeiro deste ano, vieram os questionamentos e várias decisões judiciais. O vídeo mostra, numa gravação feita no celular do frei, uma mulher identificada como Edivânia, funcionária de uma escola municipal do município de Arinos, cidade vizinha de Unaí, afirmando que o feijão da marca está com evidentes concentrações de agrotóxicos. Ela afirma no vídeo que “[…] quando a gente foi olhar, era o cheiro do veneno, tivemos que jogar mais de 30Kg fora porque não tinha condições de ser consumido”.
O frei ainda pondera sobre a construção do Hospital do Câncer em Unaí “numa cidade de 80 mil habitantes […] Onde já se viu isso? Isso é muito grave […]”.O Hospital do Câncer do Noroeste Mineiro tem previsão para o início das obras em pouco menos de um ano, caso haja a arrecadação necessária feita através de doações em diversos meios e também através da promoção de eventos beneficentes por entidades como Rotary e APAE.
O Hospital do Câncer será construído pela Associação do Noroeste Mineiro de Estudos e Combate ao Câncer (ANMECC) em parceria com governos e também com empresas do setor privado que desejarem fazer suas doações para a obra de construção. O projeto do hospital irá atender a toda a região noroeste, evitando assim o desgaste com a viagem de mais de quase dois mil quilômetros de ida e volta à Barretos, tornando-se hospital referência dentro da região e aliviando os custos da Prefeitura Municipal com o transporte.
Um relatório da Câmara dos Deputados, feito com base num estudo realizado pela Subcomissão Especial Sobre o Uso de Agrotóxicos e Suas Consequências a Saúde, com vistorias in loco, concluiu que, com base na Ausculta Pública realizada no município “já estão ocorrendo cerca de 1.260 casos/ano” a cada 100.000 habitantes e “a média mundial não ultrapassa 400 casos/ano/100.000 pessoas”.
O relatório recomenda “que a União promova um estudo específico, por intermédio principalmente dos órgãos do Ministério da Saúde, sobre o uso dos agrotóxicos e suas consequências à saúde da população, principalmente na região de Unaí-MG, devido a constatação de um alto índice de casos de câncer nesta região e ser uma região onde ocorre também um intenso consumo de agrotóxicos”.
Entenda o caso
No último mês, o juiz da comarca de Unaí, Raphael Moreira, decidiu a retirada do vídeo da internet acatando o pedido da marca de feijão por difamação, e ainda ressaltou em liminar que “o direito de liberdade de imprensa não pode ser exercido ilimitadamente”, e ainda, proibiu que frei Gilvander disponibilizasse o vídeo em qualquer outro site. Numa audiência de conciliação, o Google defendeu a permanência do vídeo, já que este não apresentava nada ilícito, entretanto, o juiz impetrou decisão de retirada do vídeo em até 24h sob pena de multa diária de R$5 mil reais, o que não ocorreu.
Com nova decisão, Raphael Moreira estipulou cinco dias para a retirada do vídeo ou prisão ao término do prazo, no entanto, o prazo dado para a prisão terminou ontem às 18h, mas o advogado do frei Gilvander já entrou com pedido de habeas corpus preventivo para tentar evitar a prisão. Desde quinta-feira (22), vem sendo divulgado nas redes sociais o vídeo e ganhando vários defensores do manifesto que já teve assinaturas importantes como da Comissão de Direitos Humanos da OAB, do deputado federal Padre João Carlos (PT) e Patrus Ananias (PT), ex-ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome.
O advogado da marca do feijão, Luiz André Martins, afirmou que a decisão mais adequada do frei quando a entrevistada denuncia o mau cheiro do feijão deveria ser “chamar a vigilância sanitária, bem como a Polícia Militar para registrar a ocorrência do fato. No entanto, nada nesse sentido foi feito”.
Segundo uma das proprietárias da empresa Torrefação e Moagem Unaí, a empresária Eremita Martins, a empresa sempre fez a compra do feijão com análises laboratoriais em frequência, sem constatar “excesso de agrotóxico em relação ao limite da Anvisa”. Ainda segundo ela, a difamação da marca acabou por forçar a decisão de parar de vender o produto, já que os concorrentes aproveitaram da situação para mostrar aos compradores o vídeo publicado pelo frei.
Por enquanto, as duas partes envolvidas no vídeo travam decisões judiciais para a retirada ou permanência do vídeo na internet. Em entrevista ao G1, portal de notícias da Globo, o juiz Raphael Moreira afirmou que “qualquer juiz, de qualquer esfera, pode determinar que a polícia faça uma prisão flagrante. O réu não fica detido, assina um termo em que se compromete a comparecer em juízo e o delegado o libera na hora”.
Entenda a situação de outras cidades do noroeste mineiro
Há queixas de comunidades menores próximas a lavouras em municípios como Cabeceira Grande-MG e Uruana de Minas-MG em relação ao uso de agrotóxicos nas lavouras e a inalação pelas pessoas que vivem próximo a lavoura. Segundo moradores das duas cidade, quando os aviões passam batendo veneno, vem o cheiro forte de veneno e ninguém pode respirar.
O Idade Digital foi em busca de mais informações sobre as queixas dos moradores do município de Cabeceira Grande-MG e entrevistou o estudante do curso técnico de Meio Ambiente, Givaldo Oliveira. Veja:
ID: O que acontece quando os aviões batedores de defensivos passam?
Givaldo Oliveira: Eu vejo um avanço tecnológico, melhoria para a produção agrícola, mas também traz um grande prejuízo para o meio ambiente com a produção. E como traz danos ao meio ambiente, polui o ar, polui a região em volta da plantação, pode ocorrer a morte de alguns animais e traz doenças para as pessoas.
ID: Você já notou algum problema em sua saúde ou de sua família com relação à aplicação de defensivos em dimensões cada vez maiores e próximas a sua casa?
Givaldo Oliveira: Na minha [saúde] ainda não aconteceu nada, não vi nenhum prejuízo, mas já reparei danos na saúde da minha mãe, ela é muito alérgica e sempre quando eles pulverizam a plantação, ele sente dor de cabeça, tem vontade vomitar, tem dificuldade pra respirar por causa do mau cheiro.
É importante ressaltar que o uso excessivo e desnecessário de defensivos agrícolas surte efeitos a longo prazo, com grande possibilidade de desenvolvimento de câncer e outras doenças com complexidades menores em virtude da ingestão dos produtos advindos das lavouras pulverizadas, sendo assim, preocupação de saúde pública.
Bruno de Oliveira Rocha

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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