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Onda de arrombamentos em alguns bairros de Unaí-MG; entrevista com o comandante da PM

O ID traz entrevista com o comandante do 28º Batalhão da PM em Unaí-MG, falando sobre a incidência crescente de arrombamentos em alguns bairros da cidade. Segundo ele, o maior impasse é que os furtos, em sua maioria, são cometidos por menores que não podem ser apreendidos por muito tempo. Confira na íntegra a entrevista!
Esta é a terceira matéria do ID relacionada ao número crescente de arrombamentos em Unaí-MG, em especial em alguns bairros, como Bela Vista, Divineia, Jardim e Vila São Sebastião. Depois de observar, conseguir relatos de moradores e entrar em contato com fontes da Polícia Militar, o ID conseguiu reunir vários argumentos que incidem sobre os crimes praticados nessa área da cidade. Por último, o comandante do 28º Batalhão de Polícia Militar em Unaí, Major José Reinaldo Parreira, esclarece ao leitor o que está acontecendo e quais as ações da Polícia Militar frente à essa situação cada vez mais preocupante para os moradores.
Recebido prontamente pela Assessoria de Comunicação Organizacional, o IDrealizou entrevista exclusiva na manhã desta quarta-feira (30) com o comandante do 28º BPM de Unaí-MG. Confira a entrevista com o Major Reinaldo:
ID: Quais as principais ações para coibir a movimentação cada vez mais intensa dos usuários de drogas e dos traficantes? Quais as dificuldades?
Major Reinaldo: A Polícia Militar diariamente ela tenta o combate sistemático na questão do tráfico de drogas. Nós realizamos, quase diariamente, duas ou três prisões e apreensões de pessoas relacionadas principalmente ao tráfico de drogas. O grande entrave que nós temos hoje está na legislação penal, nós tivemos uma grande reforma no Código de Processo Penal que nos impossibilita, muitas vezes, que as pessoas que estão envolvidas com o tráfico, principalmente se elas forem menores de idade que elas permaneçam apreendidas; hoje, se o menor cometer um crime, seja um homicídio, o crime que consideramos ser mais grave por tirar a vida de uma pessoa, ou se ela tiver praticando o tráfico de drogas, e ela for apreendida em Unaí-MG ela só pode ficar, no máximo até 5 dias recolhida no estabelecimento adequado. Está prevista para o final de fevereiro e início de março a inauguração do Centro de Ressocialização de Menores no bairro Mamoeiro e de acordo com a Secretaria de Estado de Segurança Social, este centro socioeducativo será destinado a acolher os menores infratores da região noroeste que têm envolvimento com as mais diversas modalidades criminosas. Voltando na ação do tráfico, eu disse que nós fazemos duas ou três apreensões por dia, mas o grande problema é que nós fazemos a apreensão, conduzimos esses menores, mas eles não permanecem presos, eles voltam pra rua, voltam a praticar atos infracionais e voltam à incomodar a população de uma forma geral. Especialmente em relação àquela questão do bairro Divineia, nós temos conhecimento de um local onde mora determinado menor, esse menor tem envolvimento com o tráfico, inclusive ele foi apreendido ontem [30] com 15 pedras de crack e uma certa quantidade em dinheiro. E o problema é que ele vai voltar, o trabalho da Polícia Militar é como se fosse enxugar gelo, corremos atrás, fazemos a apreensão, mas infelizmente esses menores voltam ao meio social e precisam de tratamento.
ID: Desde quando iniciou essa onda de arrombamentos, o ID saiu às ruas no período da noite e madrugada e sempre percebeu que a Polícia Militar está fazendo um trabalho prevencionista. No entanto, mesmo com esse trabalho, a Polícia Militar não tem conseguido coibir essas ações do tráfico e o problema, como foi falado, o problema é a legislação penal. Todavia, no ato da ocorrência policial, muitos moradores relataram ao ID que a polícia não teve interesse de procurar os bandidos, sendo assim e já abordando a questão legal, qual a explicação para a população dessas ações que a PM tem que tomar frente a situações como estas?
Major Reinaldo: Primeiramente a gente deve esclarecer que existe uma diferença terminológica, aqueles bairros lá de cima nós chamamos de ‘setor Divineia’, que compreende o bairro Divineia, o bairro Jardim, Vila São Sebastião, Santa Luzia e Capim Branco II, veja bem, em 2012 esse setor foi responsável por 30% dos nossos arrombamentos a residências e o que vem a ser um arrombamento? Arrombamento é o furto, ou seja, quando alguma coisa é extraída da residência sem ameaça psicológica ou sem uso de arma de fogo, já o assalto ou o que nós chamamos de roubo à mão armada é quando existe ameaça real, psicológica ou com relação à utilização de arma de fogo. Em relação ao assalto, especificamente, o setor Divineia está bem, não são muitos os casos, os nossos assaltos estão mais relacionados ao Centro, ao bairro Cachoeira e ao Novo Horizonte/Canaã. Bom, em relação às ações que estão sendo empenhadas pela PM, nós no Brasil não temos o que é chamado de “ciclo completo de polícia”, onde um órgão apenas faria a prevenção e a prisão e o mesmo faria a investigação e daria continuidade ao processo. A Polícia Militar é responsável pelo policiamento preventivo e ostensivo, ela é que faz o primeiro embate e é responsável por tentar prevenir ou evitar que os delitos aconteçam. A partir da ocorrência de um furto, cabe à PM fazer a prisão, se estiver em flagrante, e considera-se em flagrante a pessoa que está cometendo o delito, acaba de cometer ou é apanhado logo após com os instrumentos ou objetos que presumam ser ela a responsável pela prática do delito. Já a parte de investigação sai da esfera da PM e cai na esfera da Polícia Civil, depois de registrado o boletim de ocorrência, cabe à Polícia Civil buscar os dados e dar continuidade ao processo.
ID: Os crimes cometidos no setor Divineia têm grande ligação com menores, esses que deveriam estar estudando e sendo acompanhados pelos pais, o que muitas vezes não acontece e esses adolescentes têm notas baixas, problemas de relacionamento, entre outros. De que forma a Polícia Militar enxerga essa questão junto ao Conselho de Segurança Pública Escolar, ligado à PM, junto ao conselho tutelar e a participação da família na vida escolar desses menores?
Major Reinaldo: Olhe, certo amigo me disse uma vez que ninguém se torna um monstro da noite pro dia, o que acontece é uma série de atos e situações que vão levar o menor a entrar pra essa seara criminosa. Então, nós percebemos que necessita de um trabalho social, não é só um trabalho de repressão, nós temos que trabalhar a questão da família. […] Nós temos nesse campo social, trabalhado dentro das escolas com o PROERD, onde as pessoas recebem um devido curso de formação para cuidar dessa questão de tentar fomentar e criar no menor a responsabilidade, os riscos e as consequências que a droga, o cigarro e o álcool vão trazer pra vida dele. Nós temos também a Patrulha de Segurança da Família, estamos buscando uma parceria em conjunto com a Prefeitura Municipal e também com a Defensoria Pública pra que a Patrulha da Segurança da Família se torne uma “patrulha multidisciplinar”, mas o que é isto? Essa patrulha atual da Segurança da Família é composta por dois militares que fazem efetivamente a visita à residências de pessoas que têm envolvimento ou podem se envolver com os crimes. Nós já tivemos situações no ano passado de a patrulha chegar em determinada residência e ela notou foi uma completa ausência do estado e dos órgãos municipais, pois precisava de uma enfermeira, de um médico para tratar das pessoas, então nós estamos buscando. Tivemos uma reunião com o prefeito pra realmente buscar esse apoio da área de assistência social para que nós trabalhemos em conjunto e eu acredito que nós podemos evitar que essas crianças e esses jovens entrem nessa seara. O que nós percebemos é que normalmente não é que o criminoso é pobre, pois o crime não escolhe classe social, você tem criminosos pobres e tem criminosos ricos, mas normalmente o que se percebe é uma desestruturação familiar. Às vezes, o pai está envolvido com álcool, ou drogas, e ali a criança já não tem uma visão de futuro e isso leva ela a se envolver com os diversos crimes.
ID: Desde que iniciou a onda de arrombamentos nos bairros já citados, o ID começou a fazer rondas noturnas nos bairros afetados. Sempre foi observada a presença da Polícia Militar e da guarda privada feita pela empresa Guardian. Como o comandante enxerga a guarda noturna privada? Esse trabalho está de alguma forma auxiliando a Polícia Militar no policiamento noturno ou os vizinhos não estão tendo proteção maior mesmo pagando a ronda noturna?
Major Reinaldo: Inicialmente, nós temos que esclarecer a questão de competência constitucional, a preservação e manutenção da segurança pública constitucionalmente é do Estado que a faz por meio da Polícia Militar, então algumas empresas privadas não podem realizar esse tipo de policiamento e nem sequer produzir resultados, é o que a gente percebe. Agora, uma coisa que também deve ser levada em consideração é que existe uma falsa sensação de aumento na criminalidade. Nós temos dados estatísticos em relação aos furtos e arrombamentos por ano registrados em Unaí nós já chegamos em 2009 a serem registrados 686 ocorrências relacionadas a furtos e arrombamentos. Nós chegamos ao final do ano passado com 327 registros, ou seja, houve uma redução da faixa de quase 112%, então, assim, é lógico que ainda existe incômodo, nenhuma pessoa quer ter a sua casa que é o seu local de descanso arrombado, não existe coisa pior. Mas nós temos diuturnamente tentado reduzir esses índices e pela estatística, comparando 2009 com 2012, estão reduzindo, lógico que ainda não estamos no patamar desejado, mas estamos tentando reduzir.
ID: Um pouco fora do assunto específico, mas dentro do mesmo tempo, essas campanhas governamentais como “Tire uma arma do futuro do Brasil”, “Conte até 10”, “Crack, é possível vencer”, todos esses programas em conjunto com as Polícias Militar e Civil de cada estado têm trago resultados positivos em nossa cidade?
Major Reinaldo: Sim, com certeza, todos os projetos relacionados à área de segurança ou à área social são válidos e têm os seus benefícios. O projeto relacionado à questão das armas de fogo, as pessoas pensam que quem está devolvendo a arma de fogo é o cidadão de bem, não é o criminoso. Eu concordo com isso, mas nós temos que verificar que muitas armas que são adquiridas por pessoas de bem elas acabam por cair em mãos erradas, em mãos de criminosos, porque a partir do momento que um criminoso entra em sua residência e furta uma arma você pode ter certeza que aquela arma que foi furtada ali vai ser usada na prática de um crime mais gravoso futuramente. Então, quanto mais nós tirarmos as armas do mercado, eu creio que a tendência é a redução criminal e o que nós percebemos em relação à questão da droga é que ela também afeta as diferentes classes sociais e que é preciso campanhas de conscientização da população para os riscos e as consequências das drogas porque o crack mata a pessoa em poucos meses e hoje o que nós percebemos no mercado é uma grande variedade de drogas que vão aparecendo. Se nós fizermos uma retrospectiva, há 10, 15 anos atrás, nós não ouvíamos falar em Unaí de crack, ouvíamos falar de merla e maconha, então, nós temos hoje uma série de drogas que realmente têm aumentado e se sustentado, atingindo todas as cidades. Todo programa nessa área são viáveis e apresentam resultados; não adianta querermos mudar o mundo de uma vez só, nós temos que começar passo a passo que a gente vai conseguindo uma conscientização maior das pessoas.
Infelizmente, a questão de crimes em todo o Brasil está atrelada à legislação penal incisiva no nosso país, no entanto, é necessário que haja um empenho da Polícia Militar, da comunidade e da Prefeitura Municipal em mobilizar ações para promover a segurança pública e devolver aos cidadãos de bem a paz que sempre reinou no setor Divineia. Em relação ao principal tema abordado na série “Drogas: a guerra está declarada!”, o comandante Major PM Reinaldo foi enfático ao afirmar que a Polícia Militar tem “conhecimento de um local onde mora determinado menor, esse menor tem envolvimento com o tráfico, inclusive ele foi apreendido ontem [30] com 15 pedras de crack e uma certa quantidade em dinheiro”. Ainda segundo o comandante, a Polícia Militar está fazendo um dossiê sobre cada menor envolvido diretamente com o tráfico e está buscando ações junto ao Ministério Público para trazer uma solução e evitar que mais vidas se percam nas drogas ou na criminalidade.
Morador, comerciante, visitante: não deixe de denunciar e de se mobilizar para que os verdadeiros criminosos sejam presos e que o tráfico não venha a conquistar alguém de sua família ou de seu vínculo social. Não deixe de compartilhar essa entrevista que, com muita objetividade, foi concedida ao Idade Digital.
Bruno de Oliveira Rocha 

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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