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CARTA ABERTA AOS MANIFESTANTES DO DIA 15 DE MARÇO

Hoje, 14 de março de 2015, o Brasil irá dormir com a sensação de que amanhã poderá ser um dia totalmente diferente em sua história. Há quatro vertentes neste exato momento. É preciso entender quem são os manifestantes de amanhã para observarmos o que ocorrerá.

A primeira vertente é a que está indignada com o ajuste fiscal promovido pelo governo Dilma Rousseff nesses três meses de 2015, com a alta do combustível e com as medidas recentemente anunciadas para o Fies, ProUni e para as pensões e seguros trabalhistas. Essa vertente, que aloca boa parte de trabalhadores, está indignada legitimamente e vê os casos de corrupção como provocadores de todos esses ajustes. É aquela história de “colocou no bolso, agora precisa tirar do trabalhador”. Essa vertente vai para as ruas amanhã, mas não em sua totalidade, porque muitos não têm disposição nem mesmo coragem para enfrentar o que vier pela frente. A sua maioria são trabalhadores, que só têm o domingo para descansar, e portanto, o reservarão. A sua maioria não quer nem saber de partido, só quer que os governantes os representem. Mas, muitos milhares irão para as ruas, defender aquilo que lhes é direito; alguns irão pedir o impeachment, mas não querem a intervenção militar.

A segunda vertente é a que ignora totalmente qualquer manifestação contra o governo. Nessa vertente, estão pessoas que, por força de seu conforto, não irão às ruas, xingarão os manifestantes e irão engolir goela abaixo as medidas do governo atual, sem dizer nenhum ‘a’. Pessoas ideologicamente pró-governo, qualquer que seja. Essas pessoas não irão às ruas amanhã, pelo contrário, farão muito feio xingando os manifestantes legítimos que protestarão contra as medidas e em busca de punições para os escândalos de corrupção. A sua maioria são anarquistas, que querem que tudo seja iniciado do zero, são extremistas, assim como a quarta vertente.

A terceira vertente é a que reúne pessoas de esquerda, centro-esquerda, anti-liberais e pró-sociais. Alguns mais extremos, outros mais centristas e equilibrados. São pessoas que sabem que as medidas governamentais são necessárias para o bom andamento da economia do país, mas não deixaram de sair às ruas no dia 13 (ontem, um dia útil) para defender a democracia, a Petrobras, a punição dos envolvidos na corrupção, a reforma política e a manutenção do governo Dilma por ter sido eleita soberanamente. Essas pessoas já foram às ruas e não querem ser confundidos com a próxima vertente, embora lutam pelos direitos dos trabalhadores incluídos na primeira vertente. Essas pessoas não querem o impeachment por entender que este não tem base legal.

A quarta vertente é composta de pessoas de todos os níveis sociais [embora eu não goste de ficar estratificando as pessoas] que sugerem uma intervenção militar para “salvar o Brasil”. Geralmente, estas pessoas têm orientação partidária pró-direita ou de centro-direita ou foram cativados pela desinformação provocada pela ‘Central de Boatarias’ (videhttps://www.facebook.com/brunocidadao/posts/328777497317628). Essas pessoas estão imbuídas num propósito único: tirar o Partido dos Trabalhadores do governo, seja por um processo de impeachment ou à força militar. Muitas destas pessoas não querem que o governo melhore a vida dos brasileiros, anulando as medidas e controlando a economia, pelo contrário, querem um terceiro turno para assim eleger o candidato Aécio Neves. Aliás, é neste grupo que estão alguns do manifestantes mais extremistas, que xingam todos os que votaram em Dilma, repudiam – e falam em matar – os homossexuais, bandidos e petistas. Parte dos organizadores do protesto de amanhã (isto porque foram vários movimentos independentes e sob a liderança de várias pessoas em vários pontos do Brasil) são essas pessoas. Amanhã, essas pessoas estarão nas ruas imitando uma “Marcha da Família Com Deus”, que deu o aval para o golpe militar em 1964.

Em nenhum momento, descrever quem são os componentes das quatro vertentes existentes, é ofensivo, porque é uma realidade. No entanto, amanhã não se sabe ao certo quem estará nas ruas. Logicamente, os organizadores (primeira e quarta vertente) estarão. Eu estimo que pelo menos dois milhões de pessoas devem participar ao longo do dia em protestos pelo Brasil.

Neste momento, dirijo minhas palavras para àqueles da primeira vertente. Vocês precisam ir mesmo para as ruas e levar cartazes, mas também precisam entender que este remédio amargo viria com ou sem Dilma. Quem votou na presidente Dilma e está encontrando um governo diferente do prometido tem que ir amanhã às ruas para manifestar, sem quebra-quebra, sem intervenção militar, sem ódio nem violência.

Agora, para a segunda vertente. Senhoras e senhores que estão do lado do governo a todo momento, é preciso mudar essa concepção. O governo sempre buscará medidas lógicas, o que impede muitas vezes de perceber o que afetará o trabalhador. Portanto, as manifestações garantidas por lei precisam ser exercidas sem violência, sem ódio e sem mentiras. Não deixe de cobrar quem você elegeu. O seu representante precisa de sua cobrança para abrir os olhos.

Já para a terceira vertente, os chamo de companheiros. Durante a campanha, como todos sabem, fui pró-Dilma e fiz campanha para tal com base no plano de governo, nas evidências históricas e ainda na falta de consistência dos adversários. Agora, estamos entendendo que as medidas são necessárias, mas não queríamos nem acreditávamos (videhttps://www.facebook.com/brunocidadao/posts/320883068107071). Por isso, precisamos cobrar, sim, de quem elegemos. Àqueles que são de centro-esquerda, como eu, saem de alma lavada neste dia 15, por já termos cobrado de Dilma e defendido a democracia.

Especialmente, para os concidadãos da quarta vertente, digo-lhes que é perigosa a postura adotada por vocês. Não porque defendem uma ideia, mas porque estão se baseando em economia, em um julgamento ainda não concluído e em boatos das redes sociais. Defender a intervenção militar não seria absurdo se, enquanto vivemos a Ditadura Militar, o Brasil estreitou os laços com a mordaça e os Atos Institucionais provam isso. Lamento que vocês estejam deixando de lado nossa Constituição de 1988, conquistada às pressas e com tanta dificuldade, para ver “o futuro repetindo o passado”, como dizia o saudoso Cazuza em “O tempo não para”.

Para todos os brasileiros, àqueles que estão próximos de mim, sobretudo. Espero que não repitamos o passado ao dar o aval para um governo militar em detrimento da democracia exercida através do voto.

Amanhã as pessoas vão para a rua e é preciso ouvi-las antes de criticá-las. É preciso observar o que está por trás de todas as manifestações e perceber a indignação das pessoas. Mas nada disso justifica acatar absurdos, inverdades, ódio e sobretudo, violência.

Acompanhei de perto o movimento Vem Pra Rua Brasil (vemprarua.net), o principal organizador dos protestos de amanhã desde o início de fevereiro. É possível constatar que há uma certa vontade política sobre a economia, mas não sobre outros assuntos e áreas estruturais do país.

A corrupção não vai embora, mas será mais difícil de ser praticada se fizermos a ‪#‎ReformaPolítica‬, causa pela qual eu milito há anos e agora neste momento de alta sensibilidade da democracia, volto a colocar em pauta.

Para quem vai protestar legitimamente, bom protesto.
Para quem vai protestar com base em inverdades e fatos apenas noticiados e não provados, espero que se conscientizem.

À Dilma, ela tem o aval de grande parte dos brasileiros para continuar governando, inclusive o meu.

Um abraço a todos.
Bom domingo.
E que segunda seja um novo dia!

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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