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O desafio de ser cidadã(o)

O desafio de ser cidadão: nas relações de negócio e poder!

Esta é a terceira postagem da série “O desafio de ser cidadão”, uma reflexão acerca do papel que nós, brasileiros e brasileiras, podemos e devemos desempenhar perante a sociedade em todas as nossas relações, bem como em todos os locais. Todas as próximas quartas-feiras do mês de agosto, às 17 horas, será possível conferir uma nova postagem, encerrando no dia 26 totalizando 5 postagens.

Existe um clamor em torno da extirpação da corrupção em nosso país e, não menos intenso, no resto do mundo. Acontece que acabar com a corrupção ou ao menos buscar vencê-la exige muito além de um clamor, exige atitude da parte dos outros, mas uma contrapartida de nossa parte: a honestidade.

E ser honesto(a) em tempos atuais é missão complicada, pois é quase certo que em algum momento nos tornaremos vítimas diretas da desonestidade de outrem. E quando isso acontece, parece que tudo que fizemos honestamente não valeu a pena, não é mesmo? Ainda bem que só parece, porque é muito valiosa a consciência tranquila.

Mas partindo do ponto que devemos ser honestos para em nada sermos injustos, é preciso entender a importância do bom procedimento nos negócios e relações de poder. Entenda-se negócios como toda e qualquer forma de acordo, independente da natureza (financeira, moral, trabalhista, etc.) e relações de poder como toda e qualquer forma de relacionamento onde envolva um dos sujeitos como sendo alguém com poder para realizar algo, seja na coisa pública ou no setor privado.

Para exemplificar, vamos usar duas situações, uma para cada tipo de interação.

Na primeira, o negócio é a venda de um carro, uma situação hipotética. Um senhor comprou o ágio (parte paga com parte ainda a pagar) de um veículo. O valor total (ágio mais valor a pagar) era de 14 mil reais, valor relativamente inferior ao valor de mercado do veículo, mas era o que havia sido acordado. Ao final de um ano, o senhor terminou de pagar o veículo e deu início à transferência. Pagas as devidas tarifas legais, o senhor dependeu da assinatura do ex-dono do veículo. O ex-dono, porém, recusou-se a assinar alegando que o carro valia mais e condicionou a assinatura do documento ao acréscimo de mais um valor em dinheiro. Sem saber o que fazer, o atual dono relutou, mas acabou pagando o valor e realizou a transferência.

Fez certo quem vendeu o carro cobrar um novo valor do comprador? É claro que não, pois havia um acordo feito anteriormente.
Fez certo o comprador ao pagar o valor? Ele fez o que era necessário para eliminar um problema, afinal, dinheiro existe para solucionar problemas, em sua essência.

Na segunda, uma relação de poder entre um vereador de um hipotético município e uma jovem inteligente em busca da sua primeira oportunidade de trabalho. O vereador era conhecido em toda a cidade por ser carismático e a jovem era filha de um amigo pessoal do vereador. Numa das visitas à casa do amigo, o pai desta jovem disse que a filha havia terminado a faculdade e estava buscando um emprego, mas estava difícil conseguir pelas oportunidades no ramo serem raras na região. O vereador logo disse que ia providenciar algo para ela. Alguns dias depois, um telefonema. Era o vereador afirmando que havia conseguido um emprego com média salarial alta para a profissão, porém dependia de algo: não podia ser formalizado. A princípio, isso não tinha problema algum, mas era estranho não poder ser formalizado o contrato de trabalho com a empresa.
A jovem aceitou e iniciou a trabalhar. Descobriu, alguns meses mais tarde, que nenhum dos funcionários, senão quatro, tinham carteira assinada ou recebiam pró-labore no caso do proprietário. E era uma empresa com mais de quinze trabalhadores, portanto, mais de dois terços sem formalização. A jovem, muito esperta, logo descobriu o porquê daquilo: era para escapar dos impostos e das responsabilidades com os trabalhadores. Receosa, ela pediu para conversar com o proprietário da empresa argumentando que não achava aquilo correto e que aquilo punha em risco os direitos dos trabalhadores. O resultado: passou a ser uma espécie de “ovelha negra” da empresa. Alguns meses mais tarde, uma outra colega de serviço foi demitida, sem justa causa, mas não recebeu seus direitos e garantias legais e nada podia fazer porque não estava registrada. Grávida, próxima de ser mãe, teve de arcar com o desemprego e com a criança em seus primeiros dias sem um tostão no bolso. A jovem, compadecendo-se dela, ajudou-a financeiramente, inconsolada com a falta de sensibilidade do empresário ao demiti-la sem causa aparente e sem os direitos garantidos pela Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT).
A jovem decidiu pedir contas do emprego e denunciou a situação de trabalho ao Ministério do Trabalho e Emprego. Dias depois da visita dos fiscais, a empresa foi lacrada e uma multa de milhares de reais foi expedida. A jovem sentiu-se triste por abalar as relações de emprego daquela empresa, mas ao mesmo tempo, estava consciente de que ser omissa quanto à situação da empresa era colocar vidas em risco e deixar de lado o coração em face do dinheiro, do desenvolvimento da empresa. Desempregada, a jovem procurou outro emprego e, desta vez, não contou com a recomendação de ninguém. Distribuiu currículos e iniciou novamente ganhando menos da metade que ganhava no outro emprego, mas desta vez, com todas as garantias legais e com uma empresa que respeitava os trabalhadores.

Estava certo o empregador ao não registrar seus funcionários? É claro que não. Nas relações de poder, o que manda é geralmente o dinheiro ou a influência.

Nas duas situações hipotéticas acima, vimos casos simples de como as relações de poder e os negócios abrigam tomadas de decisões que irão determinar a construção do “eu”. Em muitas coisas (ou em todas), quem “passa a perna” no negociante perde no futuro. Perde sono, dinheiro e dignidade moral.

E você, tem algum caso de honestidade para contar?

Os bons exemplos, apesar de pouco aparecerem, existem. E ser cidadão nessas relações de poder e nas negociações é possível a partir da honestidade, integridade e bom senso!

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