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Uma infância espetacular

Nascido em 12 de setembro de 1996, na Clínica Santa Clara da cidade de Águas Lindas de Goiás-GO (diga-se de passagem, uma das cidades mais violentas do Brasil entre 1994 e 2008), eu morei lá por pouco mais de dois anos, mas tempo suficiente para que os mais de cinco anos de estadia de meus pais lá arraigasse em mim grande parte da essência do goiano.

O início

Sob o objetivo de ganhar a vida, meu pai se mudou primeiro para o Distrito Federal, depois para o Goiás. Depois, minha mãe. Todos os dois jovens, na cara e na coragem, construíram o patrimônio necessário para terem uma boa vida na cidade que havia acabado de ser criada.

Um ano antes de eu nascer, meu pai havia sido demitido de uma grande empresa, havia recebido seus direitos trabalhistas e aproveitou para abrir um mercado de varejo à frente da meia-água em que moravam. Em pouco mais de seis meses, ele comprou o lote ao lado e começou a construir uma loja de dimensões significativas. Ali iniciava o Mercado Gaiotto. O porquê deste nome é desconhecido. Ele conta que surgiu do nada. Minha mãe conta que foi uma adaptação de uma marca de um produto que vendia muito. Fato é que foi criativo e até agora, nenhum mercado no Brasil registrou essa marca no INPI.

Nesse meio tempo do início da construção do novo mercado, surgiu a notícia: minha mãe estava grávida de mim! Começou ali a fase mais “barra” da vida deles. Sem planejamento, enquanto minha mãe tomava anticoncepcionais. Era projeto de Deus dar à luz ao louco aqui. (risos)

Nos nove meses que sucederam, foram muitas adversidades enfrentadas. Acidentes domésticos, assaltos no mercado, longas distâncias para ser assistida pelo pré-natal e, por fim, um local quase que inóspito (sem saneamento básico, asfalto ou linha telefônica). Afinal, uma cidade que iniciava decorrente da ocupação indiscriminada e desregrada por causa de uma barragem crescia sem controle.

O parto e a primeira infância

O parto estava previsto para o final de agosto. Minha mãe não gostava do mês de agosto. Ainda não estava na hora no dia 1º de setembro, nem no dia seguinte, nem uma semana depois. Na manhã de 12 de setembro de 1996, ela sentiu fortes dores, foi levada em condições precárias para a clínica longe dali. Chegando lá, foi submetida a alguns exames e os médicos diagnosticaram que eu havia “passado da hora” e a intervenção cirúrgica tinha de ser imediata. Submetida ao parto cesariano, deu luz à mim, com as unhas roxas e pele escura. Dias depois eu já estava bem e o parto não ofereceu problemas futuros.

Três meses depois, estava eu em um berço sendo cuidado pela zeladora de casa quando no mercado (uma parede na frente da minha casa) acontecia um assalto. Era um assalto aos entregadores da Coca-Cola. Meu pai foi obrigado a deitar-se no chão, mas não conseguiram encontrar quantia “satisfatória” no caixa nem mesmo com os entregadores do refrigerante. Um tiro foi disparado à queima-roupa contra meu pai. Não chegou a acertar, passou de raspão e furou a jaqueta que ele vestia.

Pouco tempo depois, minha mãe estava só no caixa do mercado. O segurança do mercado estava posicionado à porta quando dois homens encapuzados e armados invadiram o estabelecimento. O segurança tentou defender o caixa, mas acabou sendo detido por um dos bandidos. Minha mãe, agora só, ficou por muito tempo na mira de uma pistola 765 sendo tocada sua testa por um bandido nervoso. Não tinha muito dinheiro no caixa. Havia pouco mais de R$ 45,00, pois meu pai havia ido para Taguatinga realizar pagamentos e depósitos (não havia agência bancária na cidade). “Quero mais dinheiro, quero mais dinheiro, cadê?”, relembra ela repugnando aqueles momentos em que a arma era mais fortemente pressionada contra sua cabeça.

Passados esses dois assaltos mais significativos, outro ocorreram, mas em proporção menor e com menos terror. Do conjunto de 10 quadras próximas ao mercado de meus pais, apenas um (o nosso mercado) não fechou. Eram 9, mas os assaltos levaram terror e medo, por isso, fechar poderia ser a melhor opção. E a cidade tinha muita gente, mas muita mesmo, e isso favoreceu a criminalidade. A ação homicida da polícia ainda agravava mais a situação.

Dois anos depois de meu nascimento, minha mãe propôs a meu pai vir para Unaí-MG. Aqui, eles teriam um lote doado pelo meu avô materno e poderiam construir uma boa casa e, quem sabe, um mercado do mesmo nível que o montado em solo goiano.

E assim aconteceu. Eles saíram do Goiás deixando para trás uma loja e uma casa. Com o aumento da criminalidade, foram vendidos a preço de banana o que hoje seria avaliado em torno de 500 mil reais. O recomeço se deu em 1998.

Minha segunda infância

Abriram o Mercado Gaiotto no bairro Bela Vista, em Unaí-MG. Morávamos no fundo do mercado e o que separava uma cama, um fogão, um guarda-roupa e o mercado era uma divisória de madeira. Esta era a minha casa. À medida que íamos crescendo, começávamos a construir a casa. Quando eu entrei na pré-escola estava sendo construída a casa, nos fundos do mercado, com um quarto para cada, sala, cozinha, copa e, quiçá, uma garagem.

Em 2002, ingressei no pré-escolar. Já sabia trabalhar, já era considerado responsável o suficiente para tomar conta de determinadas partes do mercado. Cresci ajudando, tendo aquilo não como meu trabalho, mas como a minha vida. Ali aprendi a amar, conversar, trabalhar, compartilhar, estudar. Conciliava tudo.

Nos anos seguintes, a minha conduta escolar era sempre responsável. Nunca fui de “desviar caminhos”. Até os 10 anos, tinha a parte da manhã livre para acordar um pouco mais tarde (9h), assistir o extinto ‘O Gato Zap’ da TV Cultura e ir pra escola. Na volta, realizava os deveres e voltava para o mercado.

Quando passei a estudar pela manhã, o tempo à tarde aumentara. Por isso, realizei um curso de informática básica. Depois parti para o avançado e depois Web Design. Nunca tive hábito de estudar durante o dia, mas sempre cumpria com as tarefas com esmero. Leitura? Jornais e revistas, de vez em quando algum texto literário. A maioria doada por uma generosa vizinha paulista que foi parte de minha família após mudarmos para Unaí.

Perto dos quinze anos, sabia o quanto a “escola” do mercado foi importante para mim. Saber entender o lado do outro (cliente), prezar sempre pela qualidade, avaliar preços, conhecer marcas, ser organizado, desenvolver sempre o melhor pensando em resultados.

Bons costumes

Meu pai fez questão de, desde a infância, enquanto eu custava conseguir levantar uma caixa de sabão para entregar para ele repor na prateleira, me acostumar a ser remunerado. Comecei a ganhar proporcionalmente à minha idade. A cada ano, meu “salário” aumentava. Isso era bom, mas o melhor de tudo era saber que aquele dinheiro era livre para eu conquistar o que desejasse, afinal, o próprio mercado já tinha de tudo e eu nunca tive de pagar absolutamente nada. (risos)

Me lembro com grande alegria que sempre que um produto novo chegava éramos os primeiros a experimentá-los sob a desculpa de “dizer para o cliente se era bom ou não”. Me lembro também que sempre parávamos as nossas atividades durante os jogos do Brasil na Copa e fazíamos a nossa Copa. Aliás, era Olimpíadas, Pan-Americanos e tudo mais que envolvia esportes.

Conquistamos tudo, por meio de muito esforço, à medida que a vida nos concedia muita alegria. Perto dos quinze anos, eu tinha absoluta certeza de que a cidade que eu amava de coração era Unaí, mas as raízes goianas não haviam saído de mim. Eu chegava a estranhar o comodismo e a desconfiança do mineiro, culturalmente falando.

Quando completei 16 anos, meu pai fez questão de obedecer à lei e exemplificar o “dai a César o que é de César” para mim. Fichou a minha carteira trabalhista e, agora, trabalhava dentro da lei, cumprindo seis horas diárias. O mercado, com a estrutura construída em meados de 2009, foi um dos primeiros a ter o Projeto de Prevenção de Pânico dos Bombeiros em Unaí-MG. As exigências foram todas cumpridas.

Em todo este tempo até os 16 anos, eu não havia descoberto minha verdadeira paixão até que a que eu pouco dava importância se manifestou: o Jornalismo. Enquanto eu estudava oito horas por dia (ensino médio e ensino técnico), deslocava por duas horas e dormia seis horas, encontrei no Jornalismo uma forma de prestar um serviço à Unaí por meio de meu trabalho.

Dei início ao Idade Digital em uma época conturbada, as Eleições 2012. Dali pra frente, ganhei um espaço no jornal Folha de Unaí e a paixão pelos fatos e notícias só se confirmava. Me envolvi no meio, passei numa faculdade federal e continuei até o dia 31 de julho desse ano trabalhando com a carteira assinada, como aprendiz.

Um futuro

No dia em que assinei o contrato rescisório almejando um objetivo maior, meu pai esteve comigo. Naquele dia eu confirmava a compra de um veículo popular de entrada do ano 2009, dividido em 11 parcelas, incentivado carinhosamente por meu pai. Naquele dia eu também comemorava uma grande realização, a convocação prévia para um cargo público, embora temporário, mas público.

O êxtase veio hoje, quando assinei o contrato com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para trabalhar durante um ano como Agente de Pesquisas e Mapeamento, combinando o que mais gosto: pessoas, conversas, papéis, equipamentos eletrônicos, rua e serviço de resultados pró-social.

Nisso, se resume uma infância espetacular. Acredite, a melhor infância, é aquela que você viveu. Se houve algo de ruim, aprenda. Se houve algo de bom, aprenda. Não deixe de aprender porque a plenitude da vida adulta traz consigo todos os problemas, preocupações, metas e sonhos que você precisa alcançar.

Hoje, tenho um irmão de nove anos e procuro passar para ele todos os ensinamentos que um dia eu aprendi e que foram providenciais para tudo que passei.

Recomendações

Não se deixe abater quando disserem que você não teve infância porque brincou pouco, pois talvez seja melhor você ter brincado pouco e ter chegado onde chegou a ter brincado muito e ter visto a vida passar por meio de quatro paredes e uma cela, física ou mental, no caminho dos vícios ou dos crimes.

Tudo o que tenho, que sou e que faço hoje devo às pessoas que me colocaram no mundo, às pessoas que me incentivaram, às pessoas que me apoiaram, às que me subsidiariam com algo, às pessoas que me fizeram ir além e, sobretudo, à Deus que cuidou de tudo isso estabelecendo peça a peça minha trajetória.

Minha vida foi e é bela. Nunca tive nada de mão beijada, mas também nunca sofri com tragédias, como outras pessoas que conheço. Por tal motivo, eu sempre sou suspeito para dizer sobre sofrimento, por isso, procuro escutar as pessoas sempre e, claro, sempre me policiando para acreditar impreterivelmente na mudança.

Aproveite, vá em frente, a vida é bela, não tenha de recomeçar. Neste momento, às 21h50 dessa sexta-feira, comemoro meus 18 anos com muita alegria e quero aproveitar para, de uma forma única, agradecer à Deus por um dia ter me levado a conhecimento da Bíblia Sagrada e dos ensinamentos nela contidos. Hoje, a ausência de alegria não me traz tristeza, porque tenho felicidade e ela não se compra, não se vende, mas se recebe.

Um abraço carinhoso a todos vocês, meus queridos colegas, companheiros, amigos, velhos amigos, grandes amigos e melhores amigos.

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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