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A sede por culpar o outro

Acidente em Paracatu-MG (Foto: Bruno Cidadão/Arquivo Pessoal)
Acidente em Paracatu-MG (Foto: Bruno Cidadão/Arquivo Pessoal)

Vinte e um de agosto de 2015. 8h50 minutos. Rodovia MG-188, Km 164, próximo ao Instituto Federal do Triângulo Mineiro campus Paracatu. Em velocidade perto de 65 Km/h, avisto uma carretinha em minha frente. Havia um quebra-molas e eu reduzia a velocidade vagarosamente, quando percebi que a caminhonete que conduzia a carrocinha ia a uma velocidade de cerca de 5 Km/h por causa do peso que carregava e porque estava passando sobre o quebra-molas. Piso forte no freio, o carro, sem frenagem ABS, começa a derrapar e não para até chocar com a carrocinha, numa velocidade de cerca de 25 Km/h. O prejuízo foi de quatro mil reais, que estão sendo pagos até hoje.

Acidente em Unaí-MG (Foto: Bruno Cidadão/Arquivo Pessoal)
Acidente em Unaí-MG (Foto: Bruno Cidadão/Arquivo Pessoal)

Sete de novembro de 2015. 7h13 minutos. Em velocidade entre 50-60 Km/h, terceira marcha, em uma estrada vicinal da zona rural do município de Unaí, perco o controle do veículo após uma curva e o capoto metros depois. O veículo Uno, ano 2009/2010, meu primeiro carro adquirido por mais de quatorze mil, recentemente revisado na concessionária que o vendeu e também reparado após o primeiro acidente na mesma concessionária, teve dano de praticamente 80% da lataria, salvando-se apenas o motor. Poucos minutos antes do acidente, parei o veículo para reajustar o macaco hidráulico que havia se soltado no interior do bagageiro (sem tampa). O carro foi vendido à uma oficina por menos de um terço do seu valor porque seu reparo, a custos próprios, custaria dez mil reais conforme orçamento, sendo inviável a mim.

Nos dois acidentes, eu estava sozinho. A velocidade do veículo estava dentro da máxima permitida pela via. Sete e cinco horas de sono na noite anterior, respectivamente. Nada de bebida alcoólica. Duas mãos no volante e cinto de segurança. O celular estava guardado dentro do recipiente em que geralmente fica tocando música (o carro não tem som). Ambos, sem vítima alguma. Ocorrência registrada no primeiro, cujo dano ao veículo chocado foi mínimo e foi relevado pelo condutor, embora eu quisesse pagar pelo conserto. O carro, regularizado, revisado e sem pendências de trânsito. O condutor, eu, habilitado em abril deste ano, com mais de três mil quilômetros rodados.

O mais importante de tudo é que eu estou vivo, não sofri nenhum arranhão ou trauma em nenhum dos dois acidentes. Para aqueles que olharam o veículo na hora do capotamento, no segundo acidente, não restava sombra de dúvidas: foi um grande milagre. Milagre porque todas as condições do veículo após o capotamento indicavam para pelo menos algumas fraturas e/ou ferimentos, senão uma morte. As fotos falam por mim e expressam a grandeza e maravilhosidade de Deus para com a minha vida.

O espetáculo da vida não pode parar. (Foto: Bruno Cidadão/Reprodução)
O espetáculo da vida não pode parar. (Foto: Bruno Cidadão/Reprodução)

Depois de tudo, veio a pergunta: “e a culpa, foi de quem?”

Espera. Por que há de ter culpa? Por que alguém ou algo tem que ser o culpado? Parece que temos sede de culpa. E é exatamente sobre isso que quero falar neste texto.

Ao passo que nossa sociedade começa a pensar em justiça de forma mais política, precisamos analisar casos mais íntimos, mais próximos de nós, e questões que, talvez, não estamos dando a devida atenção.

A primeira coisa que precisamos ponderar é que nossa sociedade, talvez por causa do costume noticioso superficial, tem sede de um culpado ou de algo para se colocar a culpa. Por exemplo, quando a barragem de Mariana-MG estourou dizimando uma vila toda com a lama e parte do ecossistema do Rio Doce, logo começou a busca por culpados. Foi a mineradora que não previu o acidente? Foi o órgão ambiental que fez vista grossa à possibilidade do acidente? Foi um tremor de terra?

O fato é que há de se ter um culpado. E, especificamente neste caso, há culpas compartilhadas. De um lado a mineradora, de outro os órgãos ambientais que previam impacto menor num acidente do tipo. E ainda tem a culpa contextualizada, que remete a fatores históricos. Encontrou-se o culpado? Pronto. Estamos satisfeitos.

Lama muda cor do mar (Foto: Gabriela Biló/Estadão)
Lama muda cor do mar (Foto: Gabriela Biló/Estadão)

Vamos para outro caso. Meu último acidente. Qual é a culpa e de quem ela é? Eu estava correndo muito, eu sou inexperiente, eu deveria estar mais devagar, eu não conhecia o lugar, eu, eu, eu sou o culpado. Então começamos a analisar o caso. E ver que todas as possibilidades levantadas caem com a verdade. Eu estava dentro da velocidade permitida, eu tinha mais de três mil quilômetros rodados e não se adquire experiência sem dirigir, na estrada de chão se capota até a 30 Km/h, eu já tinha passado pelo mesmo caminho outras vezes e até com outros carros. Simplesmente aconteceu um incidente (perdi o controle do veículo) que ocasionou o acidente (capotamento).

Será que é mesmo assim? Será que somente culpar é o suficiente? Será que estamos avaliando o todo antes de culpar? Ou estamos apenas engolindo a ótica parcial de um canal de televisão?

O segundo fato é que estamos sendo superficiais demais em nossas análises. Deixamos de analisar opiniões diferentes e nos prendemos a uma única ótica. Quer ver? O que é o Estado Islâmico (EI)?

Provavelmente boa parte das pessoas pensa que o é EI é um grupo terrorista, mas não se esforça a ponto de entender o porquê disso. Aliás, não se esforça nem para entender como o EI surgiu, quais suas motivações e o motivo pelo qual a guerra contra o EI tem mais pretensões político-econômicas que o objetivo de paz. Aliás, é falácia dizer que se resolve guerra com mais guerra.

Guerra não se resolve com guerra (Arte: Latuff/Reprodução Opera Mundi)
Guerra não se resolve com guerra (Arte: Latuff/Reprodução Opera Mundi)

A televisão e boa parte dos jornais e revistas de nosso país não se esforçam para mostrar ao leitor como surgiu, quem patrocina, qual a visão e motivação do EI e o quão perigosa é a postura totalitária do grupo. Preferem culpá-los de terroristas ao invés de mostrar que o combustível principal para a guerra que, ora cessa, ora reinicia, é distribuído pelos países hoje atacados. O EI está além de uma análise superficial e televisiva. Tem toda uma questão cultural e religiosa por trás disso.

Precisamos passar a analisar o todo ao invés de apenas uma parte.

E, por último, precisamos tratar a culpa. Só culpar não adianta. Encontramos o culpado, entendemos tudo o que aconteceu. E agora?

Agora é fazer justiça, dar a segunda chance e aprender com o erro. Somos uma sociedade de humanos. Todos iguais perante a lei, dignos de um tratamento, no mínimo, respeitoso.

Confusão? Policiais com armas e cassetetes contra estudantes com apitos e vozes lutando por suas escolas (Captura de tela: Reprodução/Folha de São Paulo)
Confusão? Policiais com armas e cassetetes contra estudantes com apitos e vozes lutando por suas escolas (Captura de tela: Reprodução/Folha de São Paulo)

É gritante a situação de muitos de nossos presídios e pior ainda a truculência policial nas ruas. Nas prisões, presos promovem espancamentos; nas ruas, policiais abusam de seu poderio tratando suspeitos como julgados. É claro que esses casos são exceções, mas são exceções cada vez mais frequentes. E pior ainda são os casos de “justiçamento público”, onde pessoas comuns promovem linchamentos e abusam dos direitos humanos, esmagando-os. Neste caso, por exemplo, após a tentativa frustada de roubo, o ladrão estava dominado até a chegada da polícia e a vítima, depois de falar muito, chuta o rapaz sem capacidade de defesa.

Dói, é claro que dói ver o filho inocente sendo morto por um marginal. Mas dói também ver o filho, ainda que culpado, sendo terrivelmente tratado pior que um porco enviado ao matadouro. São duas óticas, mas o mais importante é que são dois humanos, ou seja, dois iguais. A questão está no fato de que a justiça jamais deverá suplantar a vida. A vida é o mais importante.

Portanto, só culpar não basta. Tem que tratar o culpado e devolver à ele a segunda chance. Pois todos uma vez iremos errar.

Ninguém "merece" ser estuprada, violentada ou culpada pelo que fizeram (Arte: Revista Super Interessante/Reprodução)
Ninguém “merece” ser estuprada, violentada ou culpada pelo que fizeram (Arte: Revista Super Interessante/Reprodução)

Sabe aquela mulher que foi estuprada? Não, ela não foi estuprada por isso ou por aquilo. Não! Ela não tem culpa. A roupa não justifica. O horário não justifica. O momento não justifica. O local não justifica. Sua situação financeira não justifica. A sua origem não justifica. Nada justifica.

Precisamos nos desfazer da cultura que, infelizmente, nos fizeram aprender: somos culpados do que fazem conosco. O rapper Emicida, no programa Altas Horas, deu um verdadeiro show sobre a questão racial e de gênero, falando verdades que doem e, infelizmente, são grande realidade.

Com a consciência tranquila, ouvi muito pouco sobre meus acidentes. Mas sei que tem muita, mas muita gente, que sofre sem merecer. Antes de culpar, analise todos os elementos e todo o contexto. Antes de apontar o dedo, pense em abraçar. Antes de bater, pense em ensinar. Antes de criticar, pense se você não vai errar (ou até já errou) em proporções iguais ou maiores.

Lembremos de Eclesiastes 9:1-4. “Refleti nisso tudo e cheguei à conclusão de que os justos e os sábios, e aquilo que eles fazem, estão nas mãos de Deus. O que os espera, se amor ou ódio, ninguém sabe. Todos partilham um destino comum: o justo e o ímpio, o bom e o mau, o puro e o impuro, o que oferece sacrifícios e o que não oferece. O que acontece com o homem bom, acontece com o pecador; o que acontece com quem faz juramentos, acontece com quem teme fazê-los. Este é o mal que há em tudo o que acontece debaixo do sol: O destino de todos é o mesmo. O coração dos homens, além do mais, está cheio de maldade e de loucura durante toda a vida; e por fim eles se juntarão aos mortos. Quem está entre os vivos tem esperança; até um cachorro vivo é melhor do que um leão morto!” Estamos sujeitos às intempéries da vida. Todos. Desde eu, o mais imperdoável dos pecadores, até qualquer um que se julgue santo.

Desfaça-se de toda a acusação, seja livre, ame aos outros como Jesus Cristo, o Filho de Deus, nos amou sem que merecêssemos.

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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