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Espiritualidade

Enquanto há tempo…

Dezembro de 2015. A lorota do comércio é sempre a mesma, reclamações da crise ecoam, a falsa ideia de que tudo está bem predomina nas reuniões familiares e na passagem de ano, nos embriagamos de votos de amor, paz, prosperidade, “dias melhores”, felicidade, conquistas e… Esquecemos de fazer. É, esquecemos de fazer com que isso tudo se torne real.

Você pode pensar que falar sobre esse tipo de coisa não é importante. Mas relembre algo. Quanto tempo você gasta com problemas, sejam eles de ordem pessoal ou profissional? Posso afirmar com muita certeza que é, pelo menos, um terço do seu dia. Se você não gasta solucionando-os, gasta pensando neles ou se lamentando por tê-los. Que tal investir um pouquinho numa reflexão?

Fato é que você e eu gastamos em vez de investirmos. Gastamos tempo, dinheiro, força física e cognitiva, saúde e, principalmente, distanciamos o contato com nós mesmos e com quem acreditamos existir além de nós. Quanto mais os problemas nos sufocam, menos tempo meditamos naquilo que estamos fazendo. “Pensar pra quê, se posso fazer tudo de uma vez, “no automático”?”, dizemos. Todavia, caminhamos para onde não sabemos estar indo e não temos ideia da razão de nossa existência. O “automático” passa a ser a regra e, até que adoecemos ou quase morremos, não pensamos. Tempo, falta sempre tempo. E caímos na bobagem de dizer isso. Na próxima vez que for afirmar que falta tempo, pense nas prioridades que tem dado àquilo que afirma não ter tempo para fazer ou para fazer de modo bem-feito.

Tempo
Foto: Reprodução/Força Jovem Universal Pará

Aliás, é sobre tempo que quero refletir neste texto. Já ouviu uma criança dizer que vai comer hoje o que conseguir porque não sabe se amanhã estará vivo? Ou um idoso dizendo que vai fazer essa e aquela viagem porque não sabe quando será chamado ao túmulo? Ou mesmo alguém de qualquer idade dizendo que vai perdoar a pessoa que lhe feriu porque não sabe se ela ou você estarão vivos amanhã?

É. Provavelmente os dois primeiros casos você ouviu ou ouve com frequência, mas o terceiro certamente é raro. Boa parte de nós tem preocupado demais com o hoje e com o amanhã para nós mesmos, mas pouco importado com a condição atual e o amanhã do outro. Esquecemos que as cestas básicas do Natal não suprem o necessitado durante todo o ano, esquecemos que dinheiro não vai comprar felicidade verdadeira e esquecemos que a mudança do mundo começa a partir do nosso mundo.

Mudar o mundo no qual estamos inseridos não é ganhar na Mega da Virada e distribuir o prêmio para seus vizinhos necessitados nem tornar-se um super-herói ou super-heroína para resolver os problemas do mundo. Não, não é isso. Mudar o mundo é sorrir mais, manter-se na linha da honestidade e justiça, buscar o novo, interagir mais, preocupar-se com o outro, amar e perdoar. Jamais pense que isso é fácil. É difícil porque envolve ir contra o senso comum, envolve não “amar” os problemas a ponto de querer mantê-los junto a nós em todo o tempo, envolve também quebrar o orgulho, o ego e as vantagens para si em face de todos.

Com relativa desconfiança, observo as mudanças ocorridas no Brasil nos últimos anos. A vida tem melhorado, claro, mas somente isso não basta. Somos produtos de uma exploração que parte da colonização até os dias atuais, somos visivelmente passados para trás por parte da classe política do país e boa parte dos cidadãos, a espelho de seus representantes, aceitam ser corrompidos, aceitam corromper e dar fôlego para a continuação do ciclo que mata, destrói, corrói e envergonha a dignidade humana.

É o cidadão que vende um carro de cem mil quilômetros como zero, outro que compra o atestado médico, outro que mente sua renda para obter vantagens governamentais, outro que se omite perante a corrupção em seu ambiente de trabalho, outro que permite a sonegação fiscal e a apoia, outro que ultrapassa pelo acostamento, outro que estaciona na vaga de cadeirante ou idoso ou de ciclista e reclama quando uma multa lhe é aplicada, entre tantos outros casos graves, médios e pequenos de transgressão ética em nossa sociedade.

Passando os outros ou o governo para trás, não importa. O principal objetivo é atingir os seus próprios objetivos. Parece um padrão, mas não o é. Lutar contra o ciclo é mais que um privilégio, é obrigação de cada um de nós, cidadãos. Aceitar ou praticar qualquer ato de transgressão é validar, compactuar e reforçar a ideia de que tudo sempre foi assim e nunca vai mudar. Mas, poxa, fazendo a sua parte, isso pode sim mudar. É só continuar contra o ciclo e angariar outros para com você. Logo estará formada uma rede.

Neste Natal e Ano Novo, além de desejar inúmeros votos para seus pares, procure fazer. Fazer com que a paz, o amor, a prosperidade, o perdão e tudo que lhe envolve sejam reais. Reais como o presente físico que, muitas vezes, custa caro. Reais como o abraço para o solitário e a absolvição para o culpado. Reais como a luz do dia, o sol do verão e a canção Jingle Bells em tempos natalinos. Reais como o abrir dos olhos a cada manhã. Pois pode ser que amanhã os olhos não possam mais ser abertos… Faça enquanto há tempo!

Um excelente final de ano para todos(as)!

Que 2016 possa ser a afirmação de que o presente é a parte melhor do futuro.

*Artigo publicado na edição 64 do Jornal Folha de Unaí.

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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