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O amor não suplanta a liberdade

Férias. Dia 17 de dezembro de 2015 foi meu último dia de compromisso acadêmico, com momentos e episódios inéditos e importantes. Quinta-feira, dia 11 de fevereiro de 2016, voltarei às atividades acadêmicas.

Esse tempo foi importante para muitos momentos inéditos, algumas poucas viagens, muitas horas extras no trabalho, muito textos lidos e escritos, algumas surpresas, muita meditação e oração, alguns vídeos, muitas conversas, alguns reencontros, algumas despedidas, algumas tristezas e outros episódios profundos que não farei menção aqui. Fato é que foram férias!

E quando estamos em um período de descanso, dormimos um pouco mais, jogamos fora a rotina. Para mim, busco reduzir a marcha, olhar para os detalhes, refletir mais, tomar banhos mais demorados e – não que eu não faça o que eu gosto quando não estou em férias, mas… – temos mais tempo para ouvir música, ver vídeos, ler textos, livros e “alimentar” a alma.

Foi nesse ínterim que executei todas as músicas de meu notebook, publiquei textos rascunhados em papel há tempos, destinei tempo para admirar outrem, para ouvir, para entender, para observar o céu, ouvir o canto dos pássaros e pedalar por trilhas desconhecidas.

E, neste tempo, o meu coração estava – pela segunda vez – sentimentalmente focado, empenhado numa construção belíssima que parece ter ruído e que não vem ao caso no momento.

O título parece nada sincronizar com o conteúdo. Só parece. O amor não suplanta, não destrói, não destitui a liberdade. Liberdade é premissa do amor. E, não, você não vai encontrar isso de forma explícita em qualquer lugar. Aliás, você vai encontrar o contrário. Que amar é prender por “querer bem”. Não, amar não é isso. Amar, antes de tudo, é preferir ao outro em detrimento de si próprio.

Quer ver? Você obriga “por amor” um filho a ir para uma clínica de recuperação porque ele está envolvido com drogas? Geralmente, fazendo isso, é dado como certa a fuga, a ineficiência do tratamento ou a criação de um sentimento de revolta.

Não houve diálogo, não houve busca em entender o que levou o indivíduo à envolver-se com as drogas, não se dá voz a quem mais tem o que falar. Não se tratou o humano como humano, mas como uma engrenagem que precisa funcionar como os outros querem que funcione, em seu determinado tempo e lugar, não importando seu passado e seu presente.

Algumas pessoas, porém, dirão: “mas se eu perguntar se uma pessoa drogada quer ingressar numa clínica, possivelmente ela dirá que não quer”. E é verdade. Não fosse verdade, as internações compulsórias não seriam parte significativa da rotina das clinícas de recuperação no Brasil. Mas falta algo para reverter isso. E algo que somente o amor pode fazer: dar liberdade, gerar compreensão, dar voz às partes interessadas.

E como seria neste caso? Ouvindo os motivos, uma nova compreensão seria gerada, máscaras cairiam e, por fim, a decisão de ser internado seria consciente. Consciente no “sim” ou no “não”. Isso também é justiça. É claro que, especificamente na situação dos moradores de rua fortemente engedrados com as drogas, talvez a única saída do Estado seja a internação compulsória, mas certamente não é a mais amável.

Mas eu não tenho um drogado na minha família, Bruno! Ah, é?! Certamente você tem algum problema (ou só eu tenho problemas?! (risos)) e neste problema você precisa agir com amor para resolvê-lo de forma definitiva.

Agir com amor é não suplantar a liberdade. Em toda situação geralmente existem dois ou mais lados. Não necessariamente há culpa, não necessariamente se sabe o motivo, não necessariamente… Às vezes não entendemos o que acontece e precisamos tomar decisões.

Desta forma, somente a liberdade pode ajudar. É a liberdade de dizer “sim” ou “não”, de dizer “quero” ou “não quero”, de dizer “continue” ou “pare por aqui”, de dizer “esqueça-me” ou “lembre-se de mim”. E é preciso respeito à liberdade do outro. Respeitando a liberdade, você estará agindo com amor.

E o amor não deixa dúvidas por causa de sua notoriedade, de sua transparência. Com o amor não tem essa de “passar recado”, é frente a frente, o amor é honesto. O amor planta a liberdade. E por mais que a decisão doa, se foi feita com liberdade, resta entender, respeitar e dizer: “ainda assim, te amo”.

Por isso amar alguém de forma a se entregar é tão difícil. Passar dos chamados “amores líquidos” e passar aos “amores verdadeiros” ou “concretos” é complicado, é doloroso, principalmente porque envolve colocar na mesa as máscaras, desnudar-se ao outro e dedicar seu direito ao outro por honra. Os erros e acertos serão mútuos, mas tudo será tratado com um abraço e um “faça diferente” ou “continue e faça melhor”. [E, particularmente, é assim que me sinto ao ter entregue minha vida à Deus]

Mas quando se aprende a fazer isso com os mais próximos, logo se está fazendo com o desconhecido.

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(Foto: Elisangela | Blog Fotografias da Lis!/Reprodução)

E o mundo?! Ah, o seu mundo vai mudar. E a forma de olhar a vida também! Portanto, ame. Plante liberdade, seja paz, ilumine, tenha fé e seja racional com ela, seja transparente, honesto(a) e íntegro(a). O seu mundo vai mudar…

E mesmo se ele resistir em não mudar, ouça-o, entenda-o, perdoe-o. E lembre-se de que o amor não suplanta a liberdade…

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