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Pelo voto, fui à rua e voltarei

Domingo, 17 de abril de 2016. Além de ter um compromisso previamente marcado em Brasília-DF, outro se afirmou no dia em que a Câmara dos Deputados marcou a sessão de votação da admissibilidade da denúncia de crime de responsabilidade contra a presidente Dilma Rousseff. Acompanhei maior parte da votação no final da tarde e início da noite.

Sinto que vou decepcionar os leitores que abriram este texto aguardando que eu me embriagasse para falar do “sim” ou do “não” com veemência e muitos dados. Criaram um muro ideológico-midiático do qual não faço parte, apesar de ter meu posicionamento bem definido com relação ao impeachment. Então, por que fui à rua e voltarei?

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Multidão de manifestantes contrários ao impeachment acompanham votação na Câmara dos Deputados (Foto: Bruno Cidadão)

Pelo voto. Votei em Dilma Rousseff, aprovando seu plano de governo em comparação com os demais candidatos. Ela não cumpriu nem metade de seu plano de governo, afetada por um Congresso vergonhoso, uma crise de confiança afetada pela condução pouco adequada da economia e por alguns imprevistos na agricultura, por uma oposição que baseou-se numa política de travamento totalmente desrespeitosa ao povo, pelo sugamento dos cargos pelo PMDB, pelas derrotas que parte da mídia impôs a ela, por um sentimento de que “mulher não sabe governar” criado por machistas e moralistas de plantão, pela nomeação de Lula como ministro para evitar o curso da investigação do ex-presidente na Justiça Comum e por vários outros motivos.

Dilma cometeu crimes de responsabilidade? Quem julgará será o Senado e não as ruas, nem a mídia. O problema é que existe uma desvirtuação do julgamento. Os senadores (assim como os deputados), em sua maioria, não estão fazendo suas avaliações pelo crime, mas por variáveis políticas e econômicas. E política ou economia, por mais ruim que esteja, não pode ser motivo para tirar presidente algum do poder.

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União para um governo de coalizão depois do impeachment envolveria Estados e grandes municípios (Foto: Bruno Cidadão)

Na melhor hipótese de todas, a de que o processo não corra por motivos políticos, Temer assumiria e faria um governo de coalizão com praticamente todos os partidos, excetuando os que desde o início estão do lado de Dilma Rousseff no processo de impeachment. O perigo de uma coalizão está no loteamento dos cargos para o empoderamento do PMDB para a disputa de novas eleições em 2018, tudo isso pensando numa ótica tremendamente otimista. Só não dá para acreditar que o povo aceitará bem o governo de um homem que não tem nada de aprovação popular.

Num cenário mais realista dentro da trajetória dos governos brasileiros, a esculhambação estará escancarada. Petrobras, setores-chave da economia e cargos de domínio financeiro poderiam ser entregues à grandes grupos financeiros e famílias já conhecidas pela presença e influência na política, evidenciando mais uma vez a cleptocracia que se manifestou na História do Brasil tantas vezes e ainda faz parte de boa parte do pensamento político atual, escondida pela mídia que insiste em criminalizar uns e exaltar outros, de acordo com seus interesses.

Cogitar ver o réu Eduardo Cunha na Presidência da República tomando o lugar de uma presidente eleita pelo voto popular e nem mesmo indiciada por corrupção é motivo de assombro de qualquer cidadão que valorize a honestidade.

E saber que a hipocrisia que reinou em cadeia nacional durante a votação da admissibilidade da denúncia contra Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados continuará intacta é outro momento-chave para entender que não se trata apenas de um governo que não vai bem, mas de todo um problema histórico e que não será resolvido em um passe de mágica, nem com votos eloquentes para chamar a atenção.

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Brota um grito de paz daqueles que enxergaram que não existe muro, mas ele foi criado, imposto (Foto: Bruno Cidadão)

E, por último, apesar de terem enfraquecido bastante em número, as ruas organizadas pela militância sindicalista têm o poder de parar o Brasil, enfrentar a truculência policial e resistir ao que é chamado de golpe. Mas esperamos que haja respeito à decisão do Senado, não com ausência de resistência, mas com a organização para uma nova disputa em 2018.

Existem vários motivos que eu poderia elencar para defender minha posição contrária ao impeachment, mas não vou digladiar e criar mais conteúdo pouco útil na web, já que há uma guerra midiática cujas rasteiras de pró-impeachment e governistas são descaradas, desumanas e em nada proveitosas. Não esquecerei da democracia que aprendi a respeitar nem dos direitos que a custo de muito sangue os cidadãos do passado conseguiram. Não importa a sua posição política, defenda a democracia. Não deixe que as regras do ‘jogo’ sejam jogadas fora, pois sem o ‘jogo’ acabou qualquer forma de participação política das camadas de base da população. O rito pós-impeachment você encontra aqui junto com outras respostas.

Que haja respeito ao voto popular. E uma condução legal e adequada do processo de impeachment no Senado. Saímos às ruas na campanha. Ganhamos o primeiro e o segundo turno nas ruas. Na “mão grande”, nos derrotaram no “primeiro tempo” do ‘terceiro turno’. Ainda tem o segundo tempo no Senado e as ruas voltarão a se encher para afirmar que a corrupção não será resolvida se tirarem uma presidente que não subtraiu nenhum centavo para si para colocar no governo um partido cujas lideranças se dividem em réus e indiciados por corrupção ativa e/ou passiva.

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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