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Espiritualidade

Quando Deus for a única coisa que você tiver…

Agora já não importa se eu vou morrer hoje, amanhã ou aos 20, como acho que vou. Sei que com Ele vou morar. E sei que até o dia em que meu fôlego cessar, meu viver Ele guiará.

Ouvimos esta frase clichê e nem damos tanta importância porque, afinal, temos tudo. Temos família, emprego, comida, bebida, amores, hobbies e paixões.

Mas há algo verdadeiro nesta frase que se anuncia sempre que todas essas coisas que você têm ou vão mal ou não estão adequadas.

Por exemplo, sua família potencializa adversidades e está em estado de atenção porque seus pais não estão 100% e você se preocupa com a forma com que seu irmão reage e reagirá se isso piorar. Seu emprego está ótimo, mas é temporário e você sabe que suas dívidas vão te corroer todos os salários até o fim do ano, mesmo que nenhum imprevisto aconteça. Sua saúde física está excelente, mas seu emocional está abalado e você acaba de sair de uma crise depressiva. Aquela que você aprendeu a amar está indo embora por erros da sua parte e porque ela não pode esperar pela sua indefinição. Um dos seus hobbies é andar de bike, mas você não pode ir longe e nem mudar rotas porque sempre anda sozinho, e sempre nos mesmos lugares e horários. A sua paixão política caiu em desuso depois de baterem demais e seus sonhos de ter uma participação direta na política vão ficando cada vez mais longes a ponto de não fazer mais sentido investir nisto. Ou seja, você tem tudo. Mas tudo não está funcionando bem e você, no meio dessas engrenagens, se desgasta tanto a ponto de querer jogar tudo para o ar.

Aí, bacana. Tudo externamente existe, mas não está tão bem quanto deveria, mas é suportável. Mas e quando é contigo?

Suas batalhas internas estão sendo uma a uma perdidas e, como numa guerra, o inimigo vai traçando cada parte do seu corpo e conquistando geograficamente as áreas da sua vida. Você chora, insiste, mas sozinho não consegue. Você enxerga o problema, enxerga o que vem pela frente e não consegue fugir nem evitar. Você cai num abismo e ninguém – ou quase ninguém – te entende. E você perde intimidade com Deus, mesmo se lembrando de sua graça e se arrependendo.

Você perde dinheiro, foco, dignidade. Vira um imprestável, uma escória para si mesmo, enquanto os outros insistem em achar que você é perfeito, controlado e “super” homem. Se você pede um tempo, interpretam apenas como cansaço. Se você viaja, acham que você quer se divertir e planejar um novo futuro. Não entendem seus valores e princípios. E quem os entende não pode ajudar muito ou apenas pode admirar. E você vai sendo corroído a ponto de quase explodir para manter vivo aquilo que jamais deve morrer em nossos corações: Cristo Jesus, o Senhor. Neste ponto, você sabe que Deus está no controle. Ele não desampara, Ele mostra que tem ouvido suas orações, mas você cai. Se afasta, se ilude com o efêmero. E perde a preciosidade que seu coração encontrou.

Agora tudo é motivo para más respostas. Quando você menos vê, está falando. Às vezes consegue se controlar, mas não age bem. É confrontado. É colocado contra a parede sem a mínima chance de falar. Sua história parece estar prescrita, mas você luta para mudá-la, nem que isto custe sangue próprio.

Você evita seguir os erros de seus pais, de seus tios, de seus amigos. Mas parece que isso está batendo à porta. Por todo lado, corrupção. Desamor, preconceito e mentiras estão em todas as esquinas. Ninguém teme ao Senhor. E há aqueles que temem, mas insistem em se colocarem como melhores que os outros. Eles não devem ter problemas, talvez. Talvez são salvos por natureza.

Ninguém tem tempo para lhe ouvir e quem tem pouco pode fazer. Você tenta. Enfrenta resistência. Dá o melhor de si. Fazem pouco caso, talvez por suas razões plausíveis. Acham que o fim já chegou e que não tem mais jeito quando você vê outras coisas à frente. As correntes os prendem. O medo os fazem perder oportunidades. E a ausência de diálogo destrói.

Calado, você contribui para a destruição. Mas falando você é parte dela. De qual lado ficar? É preciso se posicionar. Há pressão. A oração funciona, você se sente aliviado, mas parece que apenas isto não basta. Mas o que fazer? Como agir? O que falar? E se você estiver completamente errado? E se você estiver querendo usar Deus para satisfazer seus próprios desejos e intentos?

Dezenas dos seus amigos já estão numa etapa diferente da vida. Tiveram outra vida, outra história, outras oportunidades, outras desgraças também. Mas querem que você seja parecido com eles. Não aceitam que alguém em pleno século XXI possa pensar diferente.

E ao pensar diferente, seus amigos mais longínquos se afastam. Seus pais te podam. Sua família se divide. Seus melhores amigos estão geograficamente longe. E você se sente sozinho, com uns dois ou três que apoiam. É claro que alguns poucos bastam quando se está com Deus, mas prevalece o medo do erro, o medo de dar passos errados e o medo de comprometer outros à volta.

Você perdeu tudo e sabe que Deus está no controle de tudo que você é. Mas você insiste em errar, em não acreditar. E bate de cabeça com a porta que não deveria bater. Você se parece com seus antepassados, age igual, fica infantil, mesmo não querendo isso. E isso te estraçalha. Você usa alguém, polui sua mente, enxerta seus desejos e suja a imagem desta pessoa. Você a afasta, sem saída. Você a perde, sem saída. Ela também está em situação de risco, mas é difícil confiar, somos humanos.

Você tem dívidas. Age mal. Não se controla bem. E paga alto por ser honesto. Você tem o desejo de comprar um carro, um apartamento, de fazer um consórcio, mas a realidade é que nem o dinheiro do lanche você tem. Seus pais querem te ajudar, mas você não pode aceitar porque a situação deles é muito pior. Você não tem tempo para aumentar a renda. E quando teve tempo, não o usou para renda, mas investiu em pessoas. Você aprendeu a dizer não para os aproveitadores de talentos, mas não consegue evitar que se cumpra o papel do bom samaritano. E não que isso seja ruim, não fosse a renda escassa e já comprometida. Você sabe que tudo está no controle do Pai, mas os outros te cobram e isso te enche, te faz querer resolver tudo num passe de mágica.

Seus irmãos na fé o conhecem, mas poucos o ouvem. Alguns até ouvem, mas não voltam a dar as mãos para ajudar. Os problemas aumentam, você não consegue mais ajudar ninguém. Está ferido e não consegue mais se curar. Precisa de um abraço, de um cafuné, de um curativo, mas ao invés disso, você recebe um novo problema, uma nova situação.

Você quer sumir. Quer desestressar. Quer passar tempo em outros lugares. Isso é um descanso, porém, somente. A realidade continua a mesma, com poucas exceções. Na faculdade, você quer fazer muito, mas não consegue porque mora longe e por mais que esteja envolvido e bem empenhado, não sabe o que vai sobrar de si no próximo semestre porque existem disciplinas que são ‘passar ou passar’, sem chance ao azar.

Seu celular é vasculhado. Seus materiais escolares periodicamente revistados. E você fica chateado com a desconfiança, com as conclusões sórdidas e equivocadas. Parece que existe uma cortina que veda o entendimento claro. E você não entende isso. Ou talvez os outros não entendem isso. Qualquer ausência é motivo de desconfiança. Você não faz mais com prazer o que fazia antes e está irritado. Você não tem direito de estar irritado, mas está. E isto é um efeito dominó.

Tudo que você quer é que as coisas tenham definição. Que você sinta-se novamente livre. E que seja possível voltar a sonhar. Individualmente e em conjunto. Você se alegra com o crescimento dos outros, mas vê-se definhar em sua própria ala de crescimento. Você se posiciona, você tenta valorizar, mas é apanhado como um criminoso em seu crime.

Então, quando essas coisas acontecem, você se volta para Deus e ao invés de enxergá-lo longe, você percebe que Ele está em você e que você vive n’Ele. E sua alma, ainda que insista em não repousar, tem refúgio. E você sabe que tudo vai passar. Mas a vida está correndo. E você tomando decisões. E você, com seus erros, tapa os ouvidos para a voz de Deus e começa a ouvir outras vozes.

Você entende que não é nada, que é criatura, que é pequenino e que precisa esconder-se em Deus. Mas a infinitude de Deus, apesar de te proteger, não te esconde do mundo e das aflições que ele proporciona. E é neste momento que você declara: “Deus, tu és a única coisa que eu tenho”. Não porque Ele é coisa, mas porque Ele trouxe à existência todas as demais coisas e porque sua experiência com Ele não o deixa mentir: Ele é e continua sendo Deus. Bom, misericordioso e compassivo. Um Pai que ouve, entende e trabalha. O Auxiliador que guia, que capacita e que inspira. O Cristo que batalha, que vence, que expulsa as trevas.

Deus se importa. Fez questão de mostrar exatamente o que esperava de mim. E anunciou que seriam tempos difíceis. É verdade que ainda não sou homem, mas Ele me chamou a sê-lo, a levar a sério a Sua Palavra, não importando se isto era bom ou ruim, mas tão e somente se isso era o certo a se fazer.

Não dá. Eu sei que Ele está onde eu estou. Eu sei que Ele não me larga. Eu sei que Ele está em mim e eu estou n’Ele. Eu o temo. Eu o amo. E não quero mais que isso. Se por um lado, o que fiz me deixou profundamente mal, por outro, me mostrou exatamente que Ele não mora mais em lugar algum, Ele é dentro de mim e é por isso que o arrependimento veio logo em seguida.

E eu sei que n’Ele encontro graça, perdão e reconciliação. Em Cristo, em sua cruz, encontro a resposta ao meu pecado e à minha dor. E no Espírito Santo, posso me apossar de uma convicção: eu peco somente contra Deus e somente à Ele que presto contas. E é pelo sacrifício de Cristo que estou purificado. Mas o arrependimento verdadeiro é doloroso quando acaba o seu calor. As provas de caráter vêm e eu resisti a muitas, mas caí nas últimas. Só que numa guerra em que eu não luto, mas o Senhor é quem peleja por mim, já sei que a vitória é certa. Eu só preciso fugir das armadilhas e me revestir da armadura celestial.

Agora já não importa se eu vou morrer hoje, amanhã ou aos 20, como acho que vou. Sei que com Ele vou morar. E sei que até o dia em que meu fôlego cessar, meu viver Ele guiará.

Descansa, minh’alma, descansa! E entrega-te ao Senhor! Entrega-te completamente.

Pai, cuida de mim. Cuida da minha família. Cuida dos meus próximos. Cuida daqueles que não posso cuidar. E me deixe descansar em Ti.

Capa: Pixabay.com/Reprodução

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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