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Andar de bicicleta nos ensina a viver

O título pode soar estranho e muito exagerado, entretanto ao final deste texto tenho certeza de que você terá um novo olhar sobre suas quedas (quem nunca caiu de bicicleta?!), seus primeiros metros e sobre a importância do tempo no enfrentamento de seus desafios.

Há poucos meses tive a oportunidade de me tornar “Bike Anjo” (aquele que auxilia os primeiros passos de alguém que está iniciando a pedalar ou que já pedala e está abrindo novos caminhos) da minha mãe.

Com 41 anos ela deu as primeiras pedaladas sob minha orientação. Logicamente, caiu, logo na primeira vez. E acabou se machucando um pouco. Curada das feridas, uma semana depois voltou ao pedal noutra bicicleta e, novamente, navalhava, não conseguia parar ainda nas esquinas e nem se equilibrar. No terceiro dia de pedal, ela já conseguia andar sozinha, ainda sem muito equilíbrio. Nas semanas seguintes ela se aventurou por novas ruas e por mais tempo. Hoje, praticamente seis meses depois, ela já tem uma bicicleta bem levezinha para dar seus passeios e se equilibra muito bem, com poucos deslizes e ainda um pouco assustada com as situações adversas pelas quais os ciclistas passam todos os dias na disputa desigual com carros, motos e caminhões.

Quando aprendi a andar de bicicleta, tive o prazer de ser conduzido por meu pai. Empurrãozinho de pai, #issomudaomundo, dizia uma propaganda do Itaú. Foi nos meus cinco anos, com uma bicicleta doada por minha avó materna. Ralei algumas vezes. Caí outras muitas. E mesmo um pouco mais velho, caí outras vezes. Até hoje, nos pedais mais rigorosos, ando caindo e me machucando. E sei que, inevitavelmente, outros acidentes ocorrerão, dado o terreno ou mesmo algum incidente. Detalhe: hoje pedalo quase sempre sozinho.

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Bicicletas na Serra do Taquaril (Foto: Bruno Cidadão)

E na vida? Se você que lê tem mais de 18 anos, seja bem-vindo à vida. Sim, essa senhora que não perdoa ninguém. Ela é a calçada áspera, o cascalho da estrada de terra e o muro chapiscado que de vez em quando batemos de frente. Caímos, machucamos, saramos e novamente estamos prontos.

Durante a vida toda iremos andar de bicicleta. No início iremos cair, machucar, nos ralar e até chorar. Isso vai diminuindo à medida que vamos entendendo como controlar melhor a bicicleta, como frenar, como pedalar mais rápido, como agir nas subidas e nas descidas. Às vezes é preciso saber parar, saber esperar a vez, respeitar as placas de sinalização e, muitas vezes, os carros ou motos abusarão de seus espaços dando “finas” e amedrontando aqueles que pedalam.

É inevitável cair. Parece parte fundamental de nossas vidas a queda. Ela nos ensina. Mas é interessante olhar por outro prisma. Geralmente quando caímos alguém nos ajuda a levantar. E quando ninguém nos ajuda, uma “mágica” acontece: nos levantamos sozinhos. É como aprender a andar de bicicleta: no início alguém nos segura, mas logo esse alguém precisa soltar.

O que acontece quando se tem um Bike Anjo é que, caindo ou permanecendo equilibrada, a pessoa sabe que ele está lá pronto para ajudar. O Bike Anjo é uma espécie de porto seguro para os iniciantes, é quem encoraja, é quem é consultado, é quem dá os comandos, mas é também que diz “faz” e deixa que se faça ao invés de fazer pela pessoa. Ele é um orientador, ele assume o papel de conselheiro do iniciante, é o que vai na frente para antever perigos, mas é também quem vai atrás para instruir e verificar o desempenho.

Com isto tudo, aprendemos que é preciso aprender. Seja com as quedas, com as instruções ou mesmo sozinhos, precisamos aprender. Vamos cair? Claro! Mas dá para levantar, aprender e não errar mais do mesmo. E sempre existirá alguém para nos encorajar. Ainda vamos desequilibrar de vez em quando, mas o importante é já não estar mais onde se estava nem deixar que o medo tire o brilho do pedalar. Pois isso nos ensina a viver.

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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