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Sobre Esvaziar a Mochila

Para esvaziar a mochila…

É hora de pisar fora do barco, é hora de esvaziar a mochila (Foto: Bruno Cidadão)
É hora de pisar fora do barco, é hora de esvaziar a mochila (Foto: Bruno Cidadão)

Dando continuidade ao tema “Esvaziar a mochila”, hoje a reflexão é acerca do que fazer para esvaziar a mochila. Usarei estrutura topical para ficar ainda mais fácil de compreender.

  1. Quem sou eu? Ao longo de algumas crises de toda ordem, pude perceber algumas coisas. Mas de todas, a mais importante foi saber quem sou, isto é, saber quem realmente sou (não o que os outros falam, o que eu penso ou o que planejo ser, mas quem sou atualmente). E saber quem nós somos implica em três atitudes: humildade, resiliência e coragem. Não há como conhecer a podridão humana sem coragem, mas é impossível conhecer a nossa própria podridão sem humildade para reconhecer erros, falhas e até direções erradas, assim como também é necessário resiliência para despregar-se da podridão. Em geral, nós, humanos, somos egoístas, desamorosos, impotentes, mentirosos e incrédulos. Dura é a realidade, mas não é preciso muito para chegarmos à essa conclusão sobre nós mesmos.
    Logo, antes de esvaziarmos a mochila é preciso saber quem somos, o que nos tornamos e qual o rumo que estamos seguindo, se é que estamos seguindo um rumo definido. Muitos de nós não vivemos, mas sobrevivemos.
  2. O que realmente importa? Existem pessoas que tornam sagrados rituais como o almoço no domingo com a família e fazem isso de geração em geração de forma que faltar a um almoço por um motivo que não seja doença é uma afronta aos mais velhos. Outras colam adesivos com versículos bíblicos, colocam um objeto religioso dentro do carro e têm um CD de músicas de “proteção divina” para não serem colididos. Algumas se firmam numa personalidade, num artista, num líder e acompanham-o até a derrota total por lealdade – ou por falta de forças. Já outras decidem não pronunciar nenhuma palavra maligna ou nenhum xingamento. Muitas colocam o time de futebol ou o partido político como razão de vida. Outras têm suas filosofias vindas das músicas – sejam MPB ou do sertanejo universitário – ou dos livros.
    Estamos num mundo em que é tudo muito fácil de se conseguir, existem várias filosofias, vários métodos e, geralmente, várias aglomerações. E a pluralidade que veio com a globalização gera a oportunidade de conhecer novas culturas, novos modos, novas formas de enxergar a vida. Todavia, a pergunta que sempre nos toca no momento de decisões importantes é: o que realmente importa?
    Para estarmos aptos a responder essa pergunta, conscientes das consequências que o caminho escolhido irá nos trazer, é preciso eliminar o “blá-blá-blá”, isto é, o inútil. Todavia, mesmo o que é útil ainda pode trazer confusão…
  3. Jogar fora ou trocar de lugar? Eis uma pergunta difícil. Há alguns anos venho, anual ou semestralmente, fazendo uma limpeza de meus documentos, arquivos e pertences. Doo minhas roupas cujo uso não está frequente ou já não cabem mais, descubro fotografias, arquivos e textos que fazem parte de um bom passado, relembro quais documentos realmente preciso, jogo fora o que é lixo e arquivo os documentos semestrais da faculdade, as notas fiscais de serviços médicos, etc. No entanto, mesmo com essas tentativas de organização, percebi que ainda havia muita coisa que eu simplesmente trocava de lugar, achando que estava jogando fora. Logo que percebi, fiz uma profunda mudança nas minhas regras de descarte: tirei o critério de eliminação do útil e passei ao necessário. O resultado é que cerca de 60% dos meus arquivos e documentos foram embora, queimados, vendidos ou doados.
    O que acontece é que muitas vezes apenas trocamos de lugar aquilo que nos é pouco útil, ou mesmo o lixo. E armazenamos isso bem no fundo de nossas mochilas. Tirando de nossa vista, mas não aliviando em nada o peso. Fazemos isso com mágoas, decepções, situações mal resolvidas, falta de perdão, desilusões amorosas, com nossos vícios e, principalmente, com nossas vergonhas. São questões íntimas que às vezes dão trabalho, sim, para resolver, mas é muito aliviador conseguir resolver.
    Mas às vezes o necessário depende. Depende do que enxergamos. Pode ser que para uma viagem, uma pessoa escolha levar três mudas de roupas para um dia. Enquanto outra apenas uma. Na ótica de ambas, a quantidade era o necessário, tanto para a pessoa precavida quanto para a minimalista. Por isso, é preciso saltar do necessário e irmos ao essencial, ou seja, aquilo que não pode faltar para não desencadear um ou uma série de problemas.
    É no essencial que começamos a enxergar do quão pouco precisamos para sobreviver. No meu caso, eliminei muito do necessário com base em critérios financeiros, para sanar dívidas contraídas. Pensando em esvaziar a mochila, não se desencoraje ao querer levar apenas o essencial.
  4. ‘E se?’ Para esvaziar a mochila de nossas vidas é preciso ter co-ra-gem. Pausadamente. Coragem. Coragem para o “sim” ou para o “não”. E ter coragem envolve eliminar do vocabulário a expressão “e se?” que remeta ao passado, à situações que nunca poderão ser desfeitas, pois o passado se corrige somente no presente.
    Uma amiga me dissera ontem que “gente de Exatas trabalha com variáveis”, ela me relembrou o quanto isso é necessário. Num determinado momento recente da minha vida, após inúmeras análises e tentativas, num momento de plenas incertezas e dúvidas, com o meu mundinho em caos, a pedi em namoro, baseado em apenas uma constante, ignorando todas as variáveis contrárias e as poucas variáveis favoráveis que existiam. Recebi um sonoro “não”, dito com sabedoria e acompanhado de todas as educadas explicações factíveis e já esperadas depois de uma história dramática, com muitos erros meus e cheia de momentos quase cinematográficos, inesquecíveis e alguns terrivelmente assustadores em mais de sete meses de conhecimento. Fora decisivo para, no dia seguinte, desencadear mudanças com resultados ainda não conhecidos em minha vida, mas afinal, a possibilidade sepultada de um relacionamento com ela era a única coisa que ainda mantinha-me geograficamente fixado e focado em planos profissionais e acadêmicos de curto prazo, já que os de longo prazo seriam decididos com ela, caso viesse a existir um relacionamento.
    Mas, e se? Não tem “e se” no momento de esvaziar a mochila. Ou é sim, ou não. Dou graças a Deus por, em muitas decisões, ter sido conduzido por uma palavra decisiva de “sim” ou “não” dos inúmeros que já se relacionaram profissionalmente ou amigavelmente comigo, já que muitas vezes queremos agarrar os benefícios de ambas as escolhas, mas não as consequências.  Por exemplo, aceitar uma vaga de emprego é, automaticamente, recusar outra em mesmo expediente. Dizer sim ao compromisso de uma mulher ou de um homem é, obrigatoriamente, recusar todos os outros compromissos do passado, do presente ou do futuro. E escolher matar alguém é, obrigatoriamente, arcar com as custas de ser um foragido e um possível detento.
    Por mais que na maioria de nossas decisões podemos voltar atrás tomados pelo arrependimento de uma escolha errada ou mesmo de um caminho que voltou a se colidir, é preciso decidir, dar uma posição sabendo de que sempre existirão consequências. Sempre. Se decidimos ir a um show, podemos, no caminho, deixar de ir nele, com as consequências de perder o ingresso comprado, deixar de ver o show e de encontrar um amigo. Mas talvez as consequências sejam consideráveis: podemos ter decidido deixar o show para socorrer uma criança acidentada ou ainda para ver uma atração desconhecida que chamou a atenção e que pareceu mais atraente que o show. Por isso, quando escolhemos algo, tomamos para nós consequências, tanto as positivas quanto as negativas. Às vezes, talvez em maioria, não conhecemos todas as consequências e por isso escolhemos mal.
    Se formos decidir esvaziar a mochila, temos que deixar o “e se?” do passado ou do futuro, do que pode ser que se precise e começar a pensar no “e se?” do presente, o que realmente importa, ou seja, “e se eu fizer diferente hoje?”. Isso sim, pode fazer com que uma nova história seja escrita.
  5. De quem é a culpa? Quando esvaziamos a mochila é possível encontrar algumas notas sem pagar, alguns boletos vencidos e alguns processos sem sentença. Se queremos realmente prosseguir, dar posicionamentos à nós mesmos e viver bem com os outros vamos precisar acertar as contas. É preciso assumir a culpa, mesmo que por completo ela não seja exclusivamente nossa. Neste ponto, precisamos ser avalistas até de desconhecidos e pagar por eles. Quando as situações são financeiras, a coisa muda um pouco, mas se temos condição de zerar um mal estar em que estamos indiretamente envolvidos por causa de outro, podemos fazer… Precisamos esforçar-nos para a paz. Precisamos pedir perdão e nos doar para sermos uma face mal vista, mesmo que tenhamos sido apenas coagidos ou sistematicamente usados por alguém que esteja no poder. É sempre bom lembrar, porém, que devemos sempre fazer isso com a exposição clara e respeitosa da verdade, mas agindo mesmo que ninguém acredite na sua verdade.
  6. Existem organizações que controlam o mundo, não é? Um conselho de um cético: deixe as conspirações. Conspirações não podem entrar na mochila e nem ficar, se já existem. Estamos em um mundo repleto de mentiras e muitas vezes somos levados a acreditar em mentiras que parecem verdades. Todos sabem que sou defensor ferrenho do fim da Central de Boatarias no Brasil, por isso, sempre deixo claro: não leve o que parece verdade na mochila, leve apenas o que é, de fato, verdade, provada e comprovada. Às vezes o medo de um estupro na esquina, de uma bala perdida no estacionamento de um shopping ou de um elevador parar no meio de um dia cheio fazem com que os momentos bons e prazerosos deem lugar ao medo. E se você quer amar um momento ou alguém, não há espaço para medo. Então, deixe as conspirações e busque a verdade, mesmo que ela doa e que contradiga tudo que viu-se e ouviu-se. No fim, apenas a verdade fica mesmo!
  7. E se a mochila não couber? Haja vista, somos miseráveis e egoístas. Os humanos pensam para si. Geralmente não pensam nos outros. E tendemos a nos perguntar sempre se o que levaremos vai dar para nós mesmos, sendo que já sabemos com ampla certeza, quais são nossas reais necessidades.
    Por isso, devemos sim, perguntarmos-nos se o que levaremos vai dar, mas sempre para além de nós, ou seja, para quem vai caminhar junto conosco. Às vezes é preciso um curativo na ferida do companheiro ou um pouco de aquecimento na noite gelada do desconhecido. Se for para expandir o tamanho da mochila, que seja para os outros, nunca para nós mesmos. Deixemos ou levemos o essencial. Só o essencial.

Num processo de esvaziamento da mochila, é sempre necessário olhar para o retrovisor com seriedade e coragem. Mas é também necessário olhar para frente. É um processo. Todos nós somos errantes. Todos nós já fizemos “burradas”. Todos. Todos já sofremos – ou vamos sofrer – algum tipo de frustração. O que muda nossas vidas é a forma como enfrentamos a situação, como nos enfrentamos, como enfrentamos os nossos monstros, as pedras que existem em nossa mochila pesada.

Uma música que sinaliza a importância de termos cuidado com nossa mochila pesada está na voz de Paulo César Baruk e chama-se “Do avesso”. Até o próximo post!

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