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Sobre Esvaziar a Mochila

Os sonhos na mochila

(Arte: Pensador/Reprodução)
É importante lembrar que acontece quando nós fazemos nossa parte para que se aconteça (Arte: Pensador/Reprodução)

Os dois textos anteriores da série “Sobre esvaziar a mochila” fizeram sucesso. Compartilhados nas redes sociais, publicados no jornal Folha de Unaí na íntegra e repletos de comentários pessoais. Os textos tratam de um assunto que todos nós estamos acostumados a lidar: a vida.

Somos cheios. Todos nós temos problemas, decepções, frustrações, alegrias, tristezas, lembranças e feridas emocionais (curadas ou abertas). Ops, esqueci dos sonhos na lista acima. É exatamente deles que vamos falar hoje. Na nossa mochila, há sonhos. E se não há, sinto muito informar: acabou a razão de viver.

Nós vivemos por causa de sonhos. Desde a criança que sonha e ventila seus sonhos à sua família até o idoso que ainda carrega um velho sonho não realizado. Todos sonhamos. Alguém pode dizer que não tem sonhos. Eu até concordo que alguém pode não ter sonhos. Mas não ter sonhos equivale a dizer que “tanto faz” morrer ou viver. Pois os sonhos só são possíveis aos vivos, escolhe-se sonhar ou não, da mesma forma que escolhe-se realizar estes sonhos ou deixá-los de lado. É verdade que muitas vezes os sonhos são deixados à força, por causa de problemas, por causa de tragédias, por causa de pessoas, etc. Entretanto, muitas vezes os sonhos permanecem.

Durante minha infância, tinha pensado em ser de tudo: policial federal, bombeiro, cientista, goleiro, menos servidor público, menos estudante de Análise e Desenvolvimento de Sistemas. Hoje não quero ser policial, bombeiro, cientista ou goleiro, e futuramente, acredito não continuar no serviço público e nem na área em que me formo. Tudo está volátil, mas na minha mochila carrego alguns sonhos que tem tudo a ver com aquilo que sinto prazer em fazer. Se vou conseguir realizá-los? Não sei… Fato é que caminho, mesmo parecendo que não, para eles.

Na mochila de nossas vidas levamos os sonhos. Devemos ter cuidado com os sonhos que pesam muito: certa vez ouvi de uma pessoa dizer que sonhava que seu filho fosse médico, mas quando este cresceu ele havia desenvolvido talentos na área de Exatas e não tinha vocação alguma para o trabalho com doenças. Em toda reunião, em toda apresentação, essa pessoa repetia “eu queria que meu filho”, “eu sonhava que meu filho” e aquilo era pesado, parecia fadigar essa pessoa. Ela carregava um sonho que dependia diretamente de outra pessoa e não havia vencido tal frustração. Talvez ela continuasse a vida toda daquela forma, mesmo que o filho desta pessoa houvesse se tornado um dos maiores especialistas em sua área de atuação.

Não defendo aqui que devemos desistir de nossos sonhos nem que devemos ser individualistas. Apenas confirmo o óbvio: os sonhos nossos devem sempre depender mais de nós mesmos que dos outros. Por outro lado, existem sonhos que dependem de gente disposta: é o caso do casamento e dos projetos comunitários. Mesmo os sonhos que dependem dos outros exigem de nós mesmos muito: é preciso estar preparado, é preciso estar sintonizado (falar a mesma língua), é preciso caminhar juntos (agirem rumo ao mesmo objetivo) para que quando o sonho se realizar, ele realmente se realize a todos os envolvidos, isto é, que ninguém fique pelo caminho.

Um casal de amigos está se preparando para casar. Vêm de um relacionamento de alguns anos, já. Como são jovens e estão saindo da adolescência agora, precisam de ajuda. Fizeram uma lista com tudo que precisam e não pediram o que estava na lista, mas mostraram aos outros o sonho de casar. O resultado é que falta muito pouco para conseguirem tudo para a futura casa deles. Há muitas pessoas empenhadas no sonho e, quando o matrimônio acontecer, certamente será uma alegria grande para todos os que estão focados neste mesmo propósito. Neste caso, o sonho de dois vinculado pelo amor tornar-se-á o sonho realizado de muitas pessoas, algumas que nunca tiveram a oportunidade de casar planejadamente. Que ninguém fique pelo caminho e todos possam se alegrar.

Também conheço um amigo que tem, junto de seus filhos e sua esposa, o sonho de ver os animais de rua de Unaí-MG receberem o cuidado que merecem, como atenção direta à leishmaniose e outras doenças viscerais, controle de população para evitar procriação desenfreada e destinação dos animais abandonados para adoção. É um sonho nobre. E que já está sendo sonhado por muita gente na cidade e fora dela. Dezenas de voluntários, todos os dias ajudam, formando uma rede calorosa de colaboradores. Pouco a pouco o poder público vai voltando os olhos e, graças ao apoio direto da imprensa local, a causa vai ganhando a atenção dos munícipes. Essa é a história de luta da ONG Adota Unaí, que caminha rumo a dias melhores na cidade. Um sonho de uma família que tornou-se o sonho de uma cidade.

Com tudo isso, podemos entender algo: sonhar é contagiante. Quem sonha, não deve sonhar sozinho. Mesmo que o sonho seja individual, sonhar com outras pessoas é viabilizar que os sonhos aconteçam. Só temos que ter cuidado com as visões pessimistas e as histórias terroristas que muitas pessoas possuem sobre sonhos que possuímos. Além disso, é preciso ter cuidado com a frustração. Se não deu certo uma vez, mesmo que tudo parecesse estar certo, tente outra vez. Ao invés de abandonar o sonho e partir para um caminho de revolta interior, tente novamente. Mas não tente por tentar, avalie erros, fortaleça os acertos, faça conclusões, faça dar certo. Quem sabe, é um sonho adiado ou frustrado que revelará um importante aprendizado para uma nova tentativa meses, anos ou décadas depois. É clichê, mas não podemos deixar de lado a biografia de Abraham Lincoln, que perdeu, desde os 23 anos de idade, todas as eleições que disputou, mas não desistiu: aos 60 anos, eleito, tornou-se um dos heróis internacionais por costurar a Guerra Civil Americana e evitar a divisão dos Estados Unidos.

As virtudes são inegociáveis. E caso realmente queiramos lutar por algum sonho, será necessário ter disposição, resiliência e coragem. Disposição para enfrentar a vontade de desistir quando não dá certo da primeira, segunda, terceira vez. Para evitar a revolta depois de um negócio falido ou de uma construção derrubada por um forte terremoto. E será necessário reinventar. Reinventar é fazer diferente, tentar novas escolhas, novos métodos, sem deixar de objetivar o sonho, sem deixar o caráter, a honestidade, a ética e as implicações legais de lado. E, por último, sonhar exige coragem. Coragem para o “sim” ou para o “não”. Coragem para desistir ou insistir. Coragem para sonhar de novo. Coragem para evitar que um sonho de resultados duvidosos prevaleça sobre um que está perto e tem os resultados certos. Coragem para ignorar as ofertas de sonhos em liquidação por aí. Coragem para aproveitar oportunidades.

Na nossa mochila, levamos os sonhos. É importante que não os deixemos de lado, esperando que a velhice nos possibilite realizar todos com condições financeiras e temporais adequadas. Ninguém sabe o dia de amanhã a não ser Quem nos criou. E, para terminar, uma música que fala bem a respeito da necessidade de vivermos com sonhos, sim, mas com os pés no chão, sem nos embriagarmos de tantos sonhos proclamados por outros para nós e ao mesmo tempo, de não deixar para o amanhã o que pode ser feito hoje. Com a melodia, a Banda Resgate, na música “Ninguém vai saber”. Até a próxima!

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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