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Sobre Esvaziar a Mochila

As verdades na mochila

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(Arte: Pensador/Reprodução)

Dando continuidade à série “Sobre Esvaziar a Mochila“, o quarto e último post vai tratar daquilo que realmente fica: a verdade. Hoje falaremos de um tipo diferente de verdade: a sua, a minha, a nossa, enquanto humanos. Antes disso quero agradecer a todos os que leram o texto, comentaram e algumas pessoas se sentiram inspiradas a fazerem mudanças físicas e filosóficas em suas vidas. É, para mim, de muita gratidão o compartilhamento de cada experiência.

Devemos ser perfeitos. Homens não choram. Quem fica triste é fraco. Quem não fez o “test drive” é frouxo(a). Mulher não tem que decidir nada. Seja tudo, queira tudo, dê tudo. Quem não está na moda é chinfrim. Quem não tem posição formada é bobo. Quem não tem carro e casa própria não venceu na vida. Só quem tem dinheiro pode. Devemos rir para todos e nunca contar nossas vergonhas. Devemos esconder das pessoas quem realmente somos e mostrar somente àqueles que estão próximos.

Parem de gritar! Parem! Parem! Se você chegou até aqui, já notou que este é um texto diferente. Sinto que ferirei os “bons modos” e o “bom senso” aqui. A notícia avassaladora é que não somos perfeitos, não somos deuses e não temos que querer ser perfeitos a nossos próprios meios. Durante muito tempo, especificamente, 18 anos de vida, tentei ser deus de mim mesmo, mantendo o controle de tudo e aparentando perfeição. Mas foi voltando-me ao meu Criador que constatei a dura realidade que eu escondia: eu não sou perfeito, jamais serei enquanto habitar esta Terra e não devo buscar sê-lo a partir de mim mesmo, mas devo buscar viver, tão e somente, de forma plena e abundante.

Ao não conseguir ser o que queria, ou o que pensava que os outros esperavam de mim, ou mesmo alcançar o que eu planejava, me frustrava. Ao tentar enfrentar problemas com minhas próprias mãos, me frustrava e me remoía, sem buscar ajuda, me sentindo oprimido por… eu mesmo! Comecei a entender (só comecei) o que realmente necessito, quem realmente sou e, durante o ano de 2015, desenvolvi muito a minha vida, mas faltavam ainda tratar falhas de caráter, problemas pessoais, dependências, entre outros empecilhos que atrapalhavam eu perceber minha humanidade, minha condição imperfeita, e portanto, me faziam ter uma relação conturbada com todos ao meu redor. Foi depois de um episódio grave neste ano que gritei por socorro e então encontrei, através de um amigo que me inseriu num programa de recuperação. Estou começando-o e ele deve demorar cerca de 6 a 9 meses.

E o que isso tem a ver com a mochila? Bem, são verdades que eu vou ter que carregar na minha vida. Não mais com dor, com remorso, mas depois de tratadas, como inspiração para ajudar outras pessoas. É com nossos erros que aprendemos. É com os erros dos outros que evitamos errar.

Se você, realmente, quer uma mochila saudável para levar na sua vida, vai precisar colocar às claras as verdades consigo mesmo. Procure um terapeuta, procure tratamento especializado, procure o Celebrando a Recuperação (o programa no qual estou inserido), procure um grupo de apoio, procure um amigo fiel e leal que possa lhe escutar, mas não deixe para lá. Traumas, abusos, dependências (desde a dependência química até outras dependências como a emocional, sexual e a profissional), relacionamentos destrutivos, descontrole financeiro, agressividade, tudo isso pode acontecer com qualquer um de nós.

Geralmente temos a tendência de abrirmos “o jogo” sobre problemas profissionais, estudantis e até familiares, mas temos vergonha de expor nossas próprias mazelas. Guardamos para nós. Temos medo do quanto seremos julgados. E às vezes gritamos, e como eu sempre digo, as pessoas precisam entender que nem sempre o grito de socorro é “SOCORRO!”, na maioria das vezes, ele se manifesta em várias formas, como a agressividade, o descontrole emocional, o afundamento em dependências e o ingresso em relacionamentos abertos, destrutivos e rasos. Só que uma hora vai explodir. E, caso não exista uma ambulância, a pessoa irá a óbito, metafórico ou físico. Antes disso, enfrente a dor e o medo, busque auxílio!

Existem homossexuais e heterossexuais que têm os mesmos problemas e colocam na afirmação da identidade sexual uma forma de esconder mazelas e problemas da infância ou da adolescência. É por isso que julgar, quem quer que seja por qualquer motivo que seja, é totalmente desumano. Precisamos ver além da aparência, além dos “sintomas”. Precisamos! É preciso entender as pessoas, o que as levaram a se tornarem assassinas, pedófilas, mentirosas, alcoólatras, emocionalmente desestruturas ou sexualmente descontroladas, entre tantas outras disfunções de caráter que nós, humanos, podemos sofrer.

São verdades. Todos nós temos problemas, erros, incompreensões, que eu resumo tudo em “pecados” à luz da Bíblia. Acontece que há, sim, solução para tudo isso. Não se começa apagando nada, mas trazendo à luz tudo que está escondido. Dói? Demais! A verdade é como uma cirurgia, que dói muito, mas depois de um tempo de recuperação, o problema fica resolvido. Um grande amigo e pastor batista usa sempre uma frase impactante: “não se cura câncer com band-aid”. Isto é, não se trata um problema grande como se fosse um pequeno, e vice-versa. Para cada problema, o tratamento devido.

A verdade dói primeiro em nós mesmos. Quem aqui já se pegou arrependido de um ato e começou a chorar, a perceber que poderia ter feito diferente e se sentiu impotente para mudar o fato ocorrido? E quem deu um passo para pedir desculpas pelo ato? Mais ainda, e quem tentou reparar o fato? Se você passou por estes três estágios, compreende o que estou falando. A dor é tremenda. Mas é este o caminho para a cicatrização, não há outro: reconhecimento, reconciliação e reparação.

Algumas das verdades que escondemos em nós precisam ser reconhecidas por nós mesmos, reconciliadas em nós mesmos e reparadas em nós mesmos. “Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém; algumas vezes você tem que aprender a perdoar-se a si mesmo”. (Texto adaptado de Verônica Shoffstall e atribuído a William Shakespeare)

Escolha abandonar os sofismas que sua mente criou. Para levar apenas as verdades na sua mochila. Se colocarmos mais uma máscara ou tentarmos recomeçar do zero sem resolver-nos, sinto muito, nunca terminaremos nada, não teremos relacionamentos duradouros, não vamos focar em nossos sonhos, nunca iremos até o fim com nada! Precisamos aprender a trabalhar com quem somos, nos encaixarmos, nos aceitarmos e buscar mudanças a partir disso, não antes disso.

Confesso que é cedo para escrever o quanto essa profunda aceitação do meu eu vai mexer comigo, com meus relacionamentos e com meu enfrentamento de vida. Mas é fato que confio plenamente na restauração que Deus, o meu Criador, está fazendo na minha vida. A restauração começa colocando fim, fazendo começos e completando metades. Para que, então, eu possa ir até o fim em tudo.

E o que é verdade?

  1. Conformidade da ideia com o objeto, do dito com o feito, do discurso com a realidade.
  2. Qualidade do que é verdadeiro.
  3. Coisa certa e verdadeira.
  4. Manifestação ou expressão do que se pensa ou do que se sente.
  5. Axioma, princípio certo.
  6. Expressão fiel da natureza, de um modelo, etc.

“verdade”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/verdade [consultado em 16-08-2016].

Devemos parar de pensar que é a religião, a nossa posição política, a nossa condição financeira, o nosso status social, a nossa escolaridade ou mesmo quem são nossos pais que nos definirá. Somos o que somos. Somos o que nos tornamos. E podemos voltar a ser o que, realmente, somos, criaturas amadas de Deus, formadas para viverem uma vida plena, desfrutando de todas as coisas boas existentes na Terra, com moderação, cautela e compartilhando essas alegrias em forma de relacionamentos profundos, verdadeiros, sinceros e ausentes de mentira.

Leve a verdade na sua mochila. Por mais feia que ela seja, leve. É melhor uma verdade leve que uma máscara pesada. Tenha certeza de que quando damos o primeiro passo e pedimos ajuda a Deus e a alguém capacitado para tal, é Ele quem vai restaurar a sua vida. E vai te dar vida plena. Jogue fora o orgulho, comece a pensar nas verdades de sua vida, e dê o seu primeiro passo. Que a resiliência seja palavra dominante nas nossas vidas. Na voz de Os Arrais, “17 de Janeiro”:

Com o coração alegre e em paz, espero que esta série te ajude a levar uma mochila útil em suas vidas, assim como estou tentando remodelar completamente a minha mochila – um pouco tarde, com quase 20, depois de ter perdido muitas coisas, oportunidades e relacionamentos -, mas ainda em tempo, pois estou a respirar! Boa preparação para você!

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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