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Espiritualidade

Uma experiência com uma garrafa de cerveja

Apesar de ser de centro-esquerda, politicamente, minha posição sempre foi pouco crítica em relação aos sistemas nos quais estamos inseridos enquanto sociedade. Existe vários sistemas dos quais, inevitavelmente ou por escolha ou por tradição, fazemos parte: os sistemas educacional, de saúde, de transporte, o religioso, o habitacional, entre tantos outros.

Quanto ao posicionamento em um sistema, ou se faz parte dele ou está fora dele. Veja que, para estar dentro ou fora, é primeiro preciso aceitar que há um sistema. Como meu intuito aqui é fazer uma análise prática de como um pequeno ato proposital denotou uma visão completamente distorcida do ato e depois contextualizar isso com a identidade que damos à quem faz parte de um sistema, vou utilizar um texto clássico, afirmado por Jesus Cristo, o Eterno. No texto, ele faz uma afirmação acerca dos falsos profetas, mas podemos adaptar a interpretação para nossos próprios atos.

Toda árvore boa dá frutos bons, mas a árvore ruim dá frutos ruins. […] Assim, pelos seus frutos vocês os reconhecerão!
Mateus 7:17,20

Nunca coloquei uma gota de bebida alcoólica em minha boca e não tenho vontade. Cresci em meio a tudo isso e, apesar de respeitar quem bebe, não tenho predileção por álcool acreditando que tudo que nos tira de nosso estado de consciência plena não é produtivo. Mas existem pessoas que bebem controladamente, por exemplo, um bom vinho em ocasiões raras, sem mal algum para sua saúde. Enfim, fato é que não bebo.

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Garrafa de cerveja na mão (Foto: Bruno Cidadão)

Mas, durante certa semana, estava indo para o trabalho todos os dias à pé porque havia deixado minha bicicleta para revisão na oficina. E passando sempre pelo mesmo lugar, encontrei uma garrafa de cerveja jogada no passeio. Apenas me atentei com os olhos. No dia seguinte, a mesma garrafa permanecia lá. E no terceiro dia, como a garrafa ainda continuava lá, resolvi pegá-la e levá-la para o mercado de meus pais com o intuito de reusá-la.

Uniformizado, de tênis atlético, com barba por fazer e óculos no rosto, peguei a tal garrafa e, junto de minha bolsa de mão portando alguns livros e outros materiais de trabalho, andei por trinta minutos em meu trajeto normal para o almoço, por volta de 12h10 de uma quinta-feira ensolarada. Na primeira esquina que virei, um rapaz desconhecido, entrando para uma garagem, fez uma indagação: “vai beber uma hora dessas?”, apenas afirmei que não. Metros depois, no cruzamento de uma esquina, uma mulher que aguardava uma oportunidade para passar, afastou-se de mim ao perceber que eu possuía uma garrafa de cerveja (vazia, conste-se!) na mão. Alguns quarteirões depois, um amigo que passava de carro, notou a garrafa de cerveja e estranhou me perguntando a respeito depois (mas eu afirmei que era apenas uma experiência). E, por fim, dois quarteirões antes de chegar em casa, uma amiga me indagou o que eu estava fazendo com uma garrafa na mão e eu, novamente, afirmei que se tratava de uma experiência. Cheguei em casa e dispensei a garrafa.

Olhares, indagações, estranhamento. Uma garrafa causou tudo isso? Talvez seja mais do que isso, isso apenas o reflexo de algo que fazemos praticamente todos os dias. Estamos – e aí eu começo de mim mesmo – acostumados a fazer julgamentos de valor, de personalidade e de imagem sempre a partir de sistemas mentais predefinidos. Quer ver?

Você vai comprar um produto em uma determinada loja e você tem dois à disposição. Você não conhece as marcas e o vendedor não sabe afirmar qual é o melhor. Você tem dinheiro que dá para comprar o mais caro e precisa de algo bom, durável e que valha o que você paga. A maioria de nós leva o produto mais caro. Porque, mentalmente, agimos com base na tese de que “o mais caro é melhor”, o que nem sempre é verdade.

Entra uma pessoa repleta de tatuagens e com cabelo rastafári e uma pessoa bem vestida, de cabelo cortado e barba aparada numa igreja. Você não conhece ninguém nesta igreja. Quem vai ser o pregador/preletor/palestrante da noite? A maioria de nós apontaria que, “é normal”, “é comum”, “o tradicional” é que seja a segunda pessoa. Nem sempre é verdade, principalmente, porque Deus enxerga muito além das aparências, Ele vê o coração, então não importa como a pessoa está, mas sim de que forma está a relação dela com o Eterno.

E, por último, um deputado dirigindo um carro pode estar mais embrigado que um jovem servidor público levando uma garrafa de cerveja vazia para casa no horário do almoço. Era apenas uma experiência e eu não tenho vontade alguma de criticar quem fez os comentários, primeiro porque eu também faço, sendo julgador em muitos momentos, mas analisar diante de tudo, o que preciso fazer para começar a mudar isso. E é nas palavras de Jesus Cristo que encontro resposta: Mateus 7:1-5.

Todo sistema tem pelo menos uma coisa podre, desagradável ou destoada da qualidade da relação humana. A começar do sistema religioso – não importa em qual você esteja inserido, ele tem algo de podre, não sendo nenhum perfeito -, passando pelo sistema bancário – onde as instituições bancárias concentram renda, explorando crises e a desgraça das pessoas que ganham menos -, até o sistema educacional – que dos sete métodos de avaliação disponíveis, usa apenas um, transformando as pessoas em números e desvalorizando todas as demais formas de expressão que crianças, jovens e adultos têm.

Os sistemas só são imperfeitos porque são constituídos de humanos, por sua vez, imperfeitos. O sistema político que o diga! Podemos mexer nele de todos os modos, fazer muitas reformas, mas à perfeição não chegaremos jamais. Portanto, pessoas valem mais que sistemas. Pessoas são mais que os sistemas dos quais participam. Pessoas são mais que suas rendas, seu status, suas origens. E é, portanto, nas pessoas que deve estar o foco de todo e qualquer sistema. E quando o sistema desfavorecer, não tenha medo: vá contra o sistema, lute contra a corrente. A antiga Banda Rodox tem uma melodia que nos faz refletir a esse respeito.

Se o sistema de conduta do nosso século é julgador, conivente com a corrupção, separatista e desamoroso, responda com o amor, com a unidade, com a honestidade e com o amor, novamente! Precisamos reconsiderar, todos os dias, nossa participação na engrenagem sistemática que existe em nosso dia a dia. Não é o que vestimos, o que possuímos ou mesmo o que temos em nosso corpo que mostra o nosso valor e nossas ideologias, mas nossas ações e como elas refletem nos outros!

“Ame mais, julgue menos”, na voz de Marcela Tais, encerra este post, para refletirmos.

 

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