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Nossas crianças não vão sair das telas!

Ouço pais e mães a todo instante reclamando que seus filhos passam horas a fio em frente a uma tela, seja do smartphone, do tablet, da TV, do vídeogame ou do computador. Alguns estão desesperados sobre como fazer para seus filhos voltarem a “brincar na rua”, como eles brincavam no passado. Papais e mamães, sinto muito, nossas crianças não vão sair das telas! E vocês precisam entender isso antes de perderem seus filhos.

Não sou pai, e dificilmente me imagino sendo um. No entanto, gosto de observar as coisas. Observar as relações. Observar as transições que acontecem desde a idade infantil até a idade adulta. E, como tenho vivido na pele, a transição da idade adolescente para a idade adulta, percebo com certa graça o quanto o mundo tem mudado – e que já estou ficando para trás. (risos)

Na minha casa, todos temos telefone celular, do mais novo (11 anos) ao mais velho (44 anos). Todos fazem ligações, enviam mensagens, sabem manusear bem o WhatsApp inclusive fazendo chamadas de vídeo de vez em quando. Mas o que difere a criança dos mais velhos? O que eles fazem nas telas.

Olhe para uma criança durante um dia. Não interfira, apenas observe. Ela acorda, toma o smartphone, assiste um vídeo qualquer sobre um jogo ou mesmo um desenho animado no Youtube. Se isso não acontecer, a TV está ligada com algum programa de auditório infantil ou mesmo com desenhos ou séries adequadas a este público. Na hora do almoço, ela pesquisa sobre os itens do almoço e sobre como inovar na preparação deles. Ora ela quer fazer o suco misturando ingredientes inusitados. Ora ela vai desejar fazer alguma pergunta para a mãe ou para o pai e o motivo: testar o conhecimento deles com algo que ela mesma acabou de aprender ali na internet.

À tarde ela vai pra escola. Os colegas já falam sobre o novo bug que o jogo apresentou ou sobre a atualização do WhatsApp que o deixou mais Snapchat que tudo. Todavia, ela mesma não é apenas consumidora das inovações, das novidades. Ela produz novidades no grupo de colegas, informando algo que aprendeu. E naquele meio-tempo, cinco aplicativos já foram abertos. Eles já conversaram sobre mais assuntos que as matérias que ainda vão ser lecionadas naquele dia. Livros já estão obsoletos porque as informações podem ser obtidas a um clique. Dicionários são pouco utilizados porque o Google Tradutor já dá não somente a tradução, mas pronúncia, os sinônimos e a aplicação na frase.

Chegando em casa, ou TV ou vídeogame ou smartphone ou tablet. Pode ser que o uso do gadget seja para fotografar alguma coisa ou para medir o tempo de uma volta de bicicleta no quarteirão. O futebol também na porta de casa exige celular porque, bem, o drible que o Neymar apresentou precisa ser treinado, imitado. Ou quem sabe a turma já se reuniu pra gravar um vídeo que depende, de novo, de uma câmera – que pode estar no celular.

De noite, o cansaço pegou. Hora de relaxar e, mais uma vez, a tela mostrando o que fazer para aquela dor da torção do pé passar. Bolsa de gelo ou um composto artesanal, todos ensinados por alguém que já passou pelo mesmo e decidiu ensinar. Na internet, o conhecimento – do mais útil ao mais tosco – foi democratizado e, basta a conexão a internet e um dispositivo para acessá-la e pronto: até o motor de um carro você arruma. Na internet, você não é mais o primeiro em nada. E muito menos o último.

A criança já foi dormir, mas antes, despertador agendado no celular. Sem tique-tique do relógio. E os pais, que certamente, tiveram um dia longo de trabalho olham pra criança e enxergam que ela está perdendo parte da vida ao não brincar como os mais antigos brincavam. Desesperam-se. Mas calma! Duas coisas você precisa saber, uma boa e outra ruim.

A ruim é que você, nem com o domínio mais autoritário possível, vai conseguir controlar a mudança do mundo. A boa é que você pode se integrar a essas mudanças e fazê-las serem positivas pra sua vida e para sua família. Comece mandando um vídeo, uma nota de voz ou compartilhando uma música com seu filho pelo WhatsApp. E se não souber como fazer, peça ele pra te ensinar. Só de início, vocês vão passar mais tempo juntos e logo, bem logo, vocês vão aprender a se comunicar melhor – dentro e fora da tela. Aí compartilhar vai ser a palavra chave. De fora pra dentro, de dentro pra fora.

Nossas crianças não vão sair das telas, nem a mais pobre nem a mais rica, nem a mais alfabetizada nem a que ainda não sabe ler nem mesmo um número! Mas você pode orientá-las e cuidar delas enquanto elas estão nas telas. É o conteúdo que interessa. E, claro, não se canse de se interessar pelo que seu filho assiste. Às vezes ele não assiste por assistir, mas porque está em busca de um modelo de personalidade. Facilmente você entenderá as mudanças que vão acontecer – desde a cor do cabelo até a vestimenta – e você rirá junto, porque todas são passageiras. Chega junto.

Foto de capa: imagem da Internet (https://lar-natural.com.br/em-que-idade-e-seguro-para-uma-crianca-comecar-a-usar-um-telefone-celular/)

0 resposta em “Nossas crianças não vão sair das telas!”

Muito interessante a sua reflexão, Bruno!

Não sei que adjetivo atribuo a essa nova realidade… triste? interessante? decadente? evolutiva?

No fim das contas, creio que a pessoa (seja ela criança, jovem ou adulta) se apropriará dos [e passará a exigir os] meios comunicativos e de entretenimento dos grupos a quem ela deseja pertencer. Inicialmente, os presentes no convívio familiar; depois, da escola; por fim, os do trabalho; e, pra sempre, os dos amigos.

Ainda não tenho filhos, mas penso que a dosagem do uso de tecnologias pode ser dosado em casa, assim como o consumo de doces e o horário de chegar em casa. Requer, porém, coerência: faça como eu faço, e não como eu digo 😉

Forte abraço, meu querido e pra sempre aluno!

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