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Como a dona do Windows matou um gigante

Como o mundo não é feito somente de vontades, a razão entre receitas e despesas não fez tanto rir os executivos da gigante do Bill Gates, que optaram por matar o melhor sistema operacional móvel que o mundo já viu e destruir o conceito de celular premium por preço de básico. Mas o mais doído é que não usamos o Windows Phone apenas por usar, usamos porque amamos. E é por isso que dói tanto, porque o amor não acaba.

Poucas coisas me fazem ter uma raiva enrustida (escondida, introvertida). E uma delas pode ser a mais tola para a grande maioria das pessoas: um sistema operacional que morreu. Sem delongas, estou aqui pra falar de como a Microsoft, dona do Windows que você conhece, matou os celulares com Windows Phone, de longe, os melhores custo-benefício que já existiram no mercado nacional.

Pra começar, vou te explicar o que era o Windows Phone. Você pode ter hoje Android ou iOS e achar que só exista esses dois sistemas, mas não é verdade. Existe o Windows Phone, o Firefox OS, o Ubuntu OS, o Blackberry, o Symbian e o Nokia S40 (Java), além de outros nascentes. O que cada um faz é gerir o seu telefone (físico) lhe dando funcionalidades para usar todos os recursos que a fabricante colocou nele. Sem um sistema operacional, você não conseguiria ligar nem aproveitar a câmera, o Facebook, o WhatsApp e tantos app que são usados.

Pois bem, o Windows Phone surgiu em 2010, mas foi chegar no mercado brasileiro em 2012. Índia e países asiáticos em geral foram berços do nascimento deste sistema cuja dona é a Microsoft que fabrica o sistema da bandeirinha e do botão Iniciar do seu computador. Acontece que esse sistema, inicialmente, só tinha sido instalados em celulares da Nokia. Sim, a Nokia do 1100, do 3310 e de tantos outros aparelhos que sempre estiveram na memória dos consumidores por sua boa durabilidade. A Nokia fabricava o aparelho e pegava o sistema da Microsoft e colocava nos aparelhos. Até aí, tudo bem.

Para se ter ideia, e posso falar isto porque cursei 3 anos de Análise de Sistemas (embora não concluí), o gerenciamento de memória que o Windows Phone fazia tornava o sistema mais leve que os Androids e mais ágil em multitarefas que o iOS, os ícones grandes e quadrados favoreciam a chegada de idosos e pessoas com deficiência visual ao sistema operacional. Se isto não bastasse, os celulares eram equipados com as câmeras mais potentes do mercado, que logicamente, batiam de frente com os iPhones. Em alguns aparelhos, chegou a ganhar. E se faltava um diferencial, todos os Windows Phone tinham: um sistema de mapas campeão, que te colocava sem internet (sim, sem internet) em qualquer lugar do mundo! O Here Drive/Here Maps, o mesmo que foi vendido por 3 bilhões de dólares para BMW, Mercedes-Benz e Audi, e o hardware de GPS dos Nokia era tão fantástico que o IBGE, órgão de pesquisa geodemográfica do Brasil, comprou milhares deles para uso em campo. Para completar, usavam processadores da Qualcomm, a maior fabricante do mundo, amiga do software livre. E tudo isso, acredite se quiser, em 2012, eu comprei por R$ 350,00 num Lumia 520. Um celular idêntico em configurações não sairia por menos de R$ 500,00 na mesma época.

Mas em 2013, começava a mudar a história destes celulares que atingiam todos os públicos e que tinham tudo para se tornarem referência no mundo. A Microsoft, que já instalava o sistema no celular da Nokia, comprou a Nokia. Ruim das finanças, a Nokia se vendeu por 17 bilhões de reais. A transição demorou um pouco e quase não foi sentida em dois anos, até que começaram a fabricar smartphones em maior quantidade de modelos, por preços menores, mas pecando nos diferenciais dos anteriores: menos memória RAM, câmera fraca e carcaça péssima.

Em 2015 eu fiz parte da equipe que utilizou a versão de testes do Windows Phone 10 antes de todos os usuários públicos, a Technical Preview. Eu continuava com o mesmo celular. No final do ano, ainda no Technical Preview, comprei um Lumia 640 por pouco mais de R$ 500,00. Tela maior, mais RAM, processador melhor, câmera sensacional e carcaça bacana. Continuei nos testes. Quando 2016 virou, a Microsoft não gerava nenhum tipo de incentivo para as fabricantes de aplicativos colocarem aplicativos na Loja. Quando tentou mudar isto, matou o projeto. O resultado foi um esvaziamento de aplicativos úteis na Loja de Aplicativos e aplicativos ruins. Os desenvolvedores não faziam a menor questão de fazer bons aplicativos. Alguns gigantes (gigantes porque se preocupavam com o usuário) fizeram excelentes aplicativos, e o principal deles tem nome: Rudy Huyn.

Em junho deste ano, a empresa anunciou que não daria mais suporte para o Windows Phone. Era a cartada final, pois desde o início do ano não fabricava mais uma unidade. A Nokia tinha voltado aos projetos independentes, do zero, depois que foi vendida para a Foxconn. Focando na câmera, bateria e no Android Puro. Tem tudo pra dar certo, mas é fato que o Windows Phone morreu. E quem chora com ele: pelo menos 1 milhão de usuários ativos da plataforma no mundo.

Na minha casa, todo mundo já foi Windows Phone. Hoje, só metade. E ano que vem, mais ninguém, sobretudo porque o WhatsApp, principal mensageiro do mundo, vai parar de ser atualizado no Windows Phone, o que significa para os usuários insegurança. Por falar nisto, outro ponto positivo era a ausência de vírus ou outras infecções para o sistema da Microsoft. Tão diferente da sua versão para computador. Sem muitas atualizações, com muita clareza e um excelente cuidado com o usuário. Mas… Como o mundo não é feito somente de vontades, a razão entre receitas e despesas não fez tanto rir os executivos da gigante do Bill Gates, que optaram por matar o melhor sistema operacional móvel que o mundo já viu e destruir o conceito de celular premium por preço de básico. Mas o mais doído é que não usamos o Windows Phone apenas por usar, usamos porque amamos. E é por isso que dói tanto, porque o amor não acaba.

 

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