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Quando 2019 ficará melhor?

Eis uma pergunta sem resposta, recheada de suposições e muita reflexão a respeito do ontem e do hoje. Em menos de 50 dias, experimentamos a dor pela perda e o desaparecimento de mais de 300 pessoas em Brumadinho-MG, a desconfortável perda do jornalista Ricardo Boechat, um ícone da TV Bandeirantes, a forte perda de 10 adolescentes no Flamengo e a tristeza em ver casas, órgãos públicos e empresas sendo devastados pela chuva no Rio de Janeiro.

As quatro palavras em negrito têm significado expresso. E podem nos ajudar a levar a vida de um jeito melhor, sem se tornar indiferente, mas sem que também sejamos impactados por algo acontecido há milhares de quilômetros de nós. Quer queira ou quer não, jamais sentiremos as dores de quem realmente sofre pelas tragédias ocorridas. E além do mais, temos as nossas próprias dores. A nossa própria Brumadinho.

Primeiro, pensemos na dor. Ela nos ajuda a dizer que algo está errado. Mas também nos deixa mórbidos, cansados, fadados, até mortos. A dor está em todo canto. Só não sente dor – física ou mental – quem já morreu. E olhe que há muitos mortos-vivos por aí, indolores e incapazes de perceber que a desgraça do outro poderia ter sido com você e que sensibilizar-se ao outro é somente um ato de respeito, não é dever, mas também não deve ser encarado como “coitadismo”. É respeito e ponto final.

No meu Twitter, por várias vezes elogiei a forma como a Vale tratou a tragédia de Brumadinho-MG, dando o devido apoio e agindo com toda a responsabilidade da informação em tempos de crise. As falas controversas não vieram da Vale. Me lembro da frieza do diretor de investimentos da Vale ao ser interrompido numa entrevista coletiva por alguém que criticava a empresa representada pelo diretor. Ouviu. Ouviu. E deu uma resposta. E ponto final. Isso é o mínimo de respeito à dor daquelas pessoas, que não querem explicações fabulosas, apenas querem a verdade e as reparações que lhes são de direito. Quer queiramos ou não, considerar a Vale culpada ou inocente, não vai trazer as vítimas de volta, por isso, o que é preciso fazer já está sendo feito: investigação. Punição exemplar (descabida, inclusive) é ilegal. Quem defende, por exemplo, proibir a exploração de minério pela empresa, não está levando em conta o que isso impacta na vida das comunidades em que a empresa se instalou. No entanto, reforço: é preciso investigar e punir. Dentro da lei, conforme a lei, e embasado em provas.

Área devastada pela lama da barragem que se rompeu em janeiro – Reuters/Adriano Machado/Direitos Reservados/Agência EBC

Haja vista, utilizei a palavra desconfortável para falar da morte de Boechat. O jornalista, destaque brasileiro na televisão por transformar o telejornal em uma agenda opinativa (numa linha que poucas TVs consideram expressar de forma clara ao telespectador) através do humor, deixa saudades. É desconfortável ver que alguém, tão próximo de nós pelas telas, simplesmente não estará mais lá. Sua voz não será audível. Seus trejeitos. Suas brincadeiras. Tudo agora fica no arquivo. Dói? Pra muitos de nós, eu afirmo que certamente que não, principalmente porque temos fãs-clubes de tudo, menos de jornalistas sérios. Mas não deixa de ser desconfortável.

Há outra palavra acompanhando a palavra perda: forte. 10 jovens. São dez em milhões. Mas são dez que representam esses milhões. São 10 que estavam num dos maiores times do mundo. Que trabalhavam para a Nação Rubro-Negra. Que largaram seus sonhos pequenos para se dedicarem a sonhos maiores. Boa parte, advindos da periferia e negros. Que encontraram no esporte uma saída para tantas desigualdades. Os sonhos interrompidos pelo fogo mais uma vez levantam o alerta para o cuidado público com as entidades privadas. E por que é uma forte perda? Porque pais e filhos, unidos pela paixão do esporte, deixam de lado as divergências de camisa para mostrar que o futebol é lugar de união, de arte, de convivência e de crescimento. Perder 10 jovens é como se uma parte dos sonhos dos nossos moleques estivessem sendo queimados juntos. E mais ainda, como se os que doam a vida pelo futebol de base nas pequenas várzeas e campos do Brasil, estivessem sendo atacados pelo calor do fogo também. É forte porque representa muito. É forte porque é futebol. É forte.

Fãs prestam homenagem aos jogadores mortos no incêndio no Ninho do Urubu – Tomaz Silva/Agência Brasil

Em último, utilizei a palavra tristeza para denominar o sentimento pelas tragédias acontecidas após as chuvas fortes no Rio de Janeiro. A cidade maravilhosa se tornou a cidade do caos. De hoje? Não. Rio de Janeiro é ocupado de forma irregular desde os tempos da escravatura. O domínio das milícias não é novo, afinal, é a corrupção e o desleixo do poder público que ajuda a criá-las. Quanto menos investimentos para os morros, mais as milícias terão controle. Além das praias que são destino de turistas diariamente, o Rio é casa para milhões de brasileiros. E muitas vezes, esses brasileiros moram morro acima ou morro abaixo, compartilhando espaços e uma arquitetura descomunal. Sempre vi a desigualdade no Rio de Janeiro através dos livros de Geografia, mas hoje, um pouco mais ciente, vejo a desigualdade através da História e da Sociologia. Infelizmente, tratar o Rio de Janeiro como Rio de Janeiro é uma tragédia. E a solução é evitar essa tristeza tratando o Rio de Janeiro como a “Cidade Maravilhosa, cheia de tantos mil”, como retratada numa marchinha antiga e tão viva em nossas mentes.

Eu gostaria muito de dizer que a culpa da dor, do desconforto, da forte perda e da tristeza fossem A ou B, mas infelizmente, não posso. Eu posso ter culpa. Você pode ter culpa. A empresa pode ter culpa. O político A ou B pode ter culpa. Mas não toda a culpa. Ora, se não temos toda a culpa, por que sofreremos como se estivéssemos dentro da lama? Ou por que nos tornaremos indiferentes? Saber dosar o nosso papel é fundamental para que consigamos responder à pergunta do título, aquela que nos inquieta: quando 2019 ficará melhor?

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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