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Educação Política

Coisas que você precisa saber antes do dia 15 de maio de 2019

O dia 15 de maio de 2019 já entrou para a História recente brasileira como o dia em que a Educação pública brasileira parou. Mas antes de tomar partido, e já tomando de certo modo, lhe convido a degustar alguns dados e opiniões que podem lhe assustar ou lhe confortar. Vamos começar?

O dia 15 de maio de 2019 já entrou para a História recente brasileira como o dia em que a Educação pública brasileira parou. Mas antes de tomar partido, e já tomando de certo modo, lhe convido a degustar alguns dados e opiniões que podem lhe assustar ou lhe confortar. Vamos começar?

O corte orçamentário: 3 chocolates em 100 ou 30%?

Os dois! O contingenciamento (vulgo corte) de verbas para a Educação acontece porque o Brasil vai de mal a pior em 2019. Ainda estamos sofrendo recessão e o PIB não consegue subir. Sem a roda da economia girar, o governo arrecada menos e seu orçamento precisa ser revisto. Isso acontece sempre, inclusive com a Dilma, a presidente da Pátria Educadora! Os cortes podem ser temporários, pois o país pode voltar a crescer. Mas… O que vemos é uma completa paralisia e isso parece se arrastar. É por isso que esse corte preocupa tanto.

3 em 100 ou 30%? Vamos lá. As despesas obrigatórias, como pagamento de salários, não entram no corte. Se elas são obrigatórias, não podem ser cortadas. Por isso, somando elas o corte é de 3,4% no que a gente chama de Orçamento Global. Mas no orçamento discricionário, que entra a conta do investimento e da manutenção (água, luz, segurança, limpeza, comida, etc.) das instituições, o corte é de 30%. Então, qual considerar? 30%, pois é a única verba que, de fato, poderia ser investida sem obrigatoriedade, ou seja, que ficaria a cargo dos reitores administrá-las.

Mas é só o corte?

Não, não é. O atual presidente, Jair Bolsonaro, declarou guerra contra o que chamou de “marxismo cultural”. Segundo ele e o próprio ministro da Educação, Abraham Weintraub, as universidades brasileiras estão dominadas pela esquerda e é preciso rever tudo isso. Como a lei garante liberdade de cátedra (isto é, a universidade é autônoma para ensinar o que quiser, desde que respeitada a diversidade e pluralidade de ideias) e autonomia administrativa e de gestão financeira às universidades, elas não são “estatais” quanto à sua administração e sim “autárquicas”, o que as fazem depender financeiramente dos recursos governamentais, mas não atuar subordinadamente à ele em todos os aspectos. A única forma, portanto, de atingir diretamente a gestão das universidades é através de cortes orçamentários. Sem dinheiro, sem cursos, sem pesquisa, sem extensão. Ou seja, sem “balbúrdia”.

Ouvi dizer que as universidades e institutos federais só têm maconheiro. Verdade?

Não posso afirmar que não há consumidores de maconha e outras drogas nas universidades. Nem nas públicas, nem nas privadas. O que posso afirmar, no entanto, é que a fração de pessoas que se drogam de forma ilícita no ambiente universitário – seja ele privado ou público – não pode, nem sequer de longe, ser comparado com um bocado de gente legal que contribui para a ciência do país de forma aprovável. Inclusive, você sabia que o Brasil possui 296 instituições de ensino superior públicas? E que essas instituições concentram mais de 90% de toda a pesquisa realizada no Brasil? E que em São Paulo, as três universidades públicas concentram 1/3 de toda a pesquisa realizada no país?

Mas pra que serve pesquisa? Os pesquisadores devem ganhar um rio de dinheiro, né?

Bom, pesquisa serve para descobrir a cura do câncer, mas também serve pra criar medicamentos, resolver problemas cotidianos, enfim, pesquisa serve para mudar a vida das pessoas. Dinheiro? Bom, o pesquisador ganha uma bolsa-auxílio. Essa bolsa, que nunca é atualizada, começa em torno de 100 reais para um pesquisador de iniciação científica júnior e chega a 14 mil reais para um pesquisador visitante especial (geralmente um pós-doutorando que já gastou quase 1 milhão na sua formação). Não, você não leu errado: é 100 reais, mesmo! Por mês!

Pra quê Mestrado, Doutorado, Especialização? Pra quê ensino superior?

Bem, um curso técnico já dá um empurrão legal na gente. Somos ensinados a executar determinada profissão. Daí entramos na faculdade e começamos a entender que, por detrás da prática, há… teoria. Sim, teoria chata, mas que faz todo sentido. Terminamos a faculdade, podemos até ensinar alguém já. Mas aí surge o desejo de entender melhor uma área em específico. Os mais corajosos, que pretendem seguir a carreira acadêmica, optam por um Mestrado, mais demorado, mas que permitirá um nível de pesquisa mais acurado, o permitindo que ele se torne uma referência em sua área. Alguns mais ansiosos optam pela Especialização, que em menor tempo, aprofunda o ensino superior numa determinada área e provoca novas disrupções didáticas. Mas há alguns que passam pelo Mestrado e resolvem cravar seus nomes na História Científica do país. Eles resolvem fazer um Doutorado. O sonho de ser chamado de doutor ou doutora acontece, enfim, após anos de estudo. Agora, dentro daquela área do funil, ainda cabe descobrir o que há por trás de sua própria descoberta. Então cabe o pós-doutorado. Anos de banco escolar, mais uma década (ou mais) de cadeira de faculdade, transporte e muitas madrugadas viradas em claro para não brecar com a pesquisa, com a tese, com a dissertação, com o TCC. Não é só pelos títulos, é pelo quanto essas pessoas podem transformar a nossa realidade através do conhecimento.

Entendi. Mas a questão é que o dinheiro público estava sendo mal gasto na educação superior. Será mesmo?

Vocês me desculpem, mas formar especialistas, mestres e doutores não é dinheiro mal gasto. Principalmente quando a gente forma essas pessoas em casa, nas nossas cidades, bem próximos de nós. É esse doutor que vai trabalhar na Contabilidade da Prefeitura da sua cidade e colocar em ordem a casa e o seu dinheiro, entra prefeito e sai prefeito. É esse Mestre que vai dar aula pro teu filho no Instituto Federal que acabou de ser inaugurado. É esse especialista em Química que vai ensinar a matéria mais odiosa do ensino médio de uma forma que ele, de fato, vai aprender. É esse profissional com ensino superior completo que vai te orientar corretamente quando você precisar de um remédio na farmácia. É esse técnico em eletrônica que vai instalar o sistema de monitoramento na sua residência. Essas pessoas que passaram por banco para terem um certificado nas mãos não são melhores que os que não têm um certificado. Alguns, inclusive, são até mais arrogantes e menos profissionais. Mas novamente, a exceção não pode ser a regra. Se você incentiva alguém a estudar e dá condições para essa pessoa fazer isso, você está melhorando não somente a vida dessa pessoa, mas de toda a comunidade que ela vai atender com seu conhecimento.

Tome partido dessa causa, pois a luta não é contra “o” Bolsonaro, mas sim contra a ideologia de desmonte da universidade pública brasileira. Mexeu com a educação, mexeu comigo! Avante!

0 resposta em “Coisas que você precisa saber antes do dia 15 de maio de 2019”

Primeiro vc fala “Não posso afirmar que não há consumidores de maconha e outras drogas nas universidades. Nem nas públicas, nem nas privadas.” E em seguida fala “O que posso afirmar, no entanto, é que a fração de pessoas que se drogam de forma ilícita no ambiente universitário – seja ele privado ou público – não pode, nem sequer de longe, ser comparado com um bocado de gente legal que contribui para a ciência do país de forma aprovável”. Aí existe um paradoxo porque vc está afirmando algo sem ter noção da realidade. E sim, como ex-pesquisador da Unb, a quantidade de maconheiros dentro da faculdade supera a quantidade de pesquisadores. Tem muita gente gastando dinheiro público em besteira e ao invés de serem jubilados, ficam anos fazendo bagunça porque não respeitam a universidade e ninguém faz nada.

Olá, Luan! Eu estudei por 3 anos e meio em Instituto Federal e ainda participo ativamente de alguns eventos. Em Goiânia, participei durante os últimos 4 anos de eventos no IFG e na UFG. Na UnB, tive a oportunidade de visitar algumas vezes. Mas infelizmente, dos episódios que vi, não posso afirmar que “não existe”, pois se vi, existe.
E quando eu cito que o número de pessoas que contribui para a ciência não pode ser comparado com o número de pessoas que se drogam nos campi, estou dizendo num plano nacional, e também estendo o papel de “contribuir para a ciência” não somente aos pesquisadores, mas também os extensionistas que trabalham com a comunidade e acabam gerando ciência a partir da experiência.
Em suma, creio que há mais gente estudando seriamente ou não (sem drogas) do que gente estudando seriamente ou não (com drogas).
E, por fim, essa questão das drogas não se resume a universidades públicas. Em Brasília, a Católica, por exemplo, já teve um episódio de Copa de Cannabis…

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