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Sobre trabalho infantil e etapas da vida

Eu nasci praticamente dentro de um mercado em Águas Lindas de Goiás-GO, quando a cidade havia acabado de se emancipar. Meus pais conviviam com criminalidade absurda, zero saneamento básico e alta taxa de doenças respiratórias e infecciosas.

Com dois anos de idade, fui transplantado com minha família para Unaí-MG e, novamente num mercado, passei o restante da minha infância e adolescência até que, aos 18 anos, tendo sido aprovado num processo seletivo público, saí para trabalhar formalmente, fora de casa, a primeira vez na vida. Se me perguntarem se eu fui vítima de trabalho infantil, a minha resposta será sempre “não”. Eu “trabalhava” com meus pais. Mas aquilo não era uma relação de trabalho, era uma relação familiar, de cumplicidade, era no máximo cooperativismo. Em nenhum momento eu era forçado a nada.

Ainda assim, algumas marcas ficaram pelo tempo desprendido nessas atividades: eu comecei a me interessar por assuntos “de adulto” muito cedo, eu me tornei uma pessoa ansiosa para votar (?!), tirar habilitação (!), me tornei uma pessoa inculta naquilo que era da minha idade (desenhos animados, séries, filmes, até mesmo ritmos musicais). O resultado foi que só com as primeiras quedas de braço que a vida nos faz ter é que passei a viver esses momentos que ainda eram inéditos para mim. Ou seja, as etapas que eu havia queimado, por sorte, estavam sendo colocadas à minha frente novamente.

Mas, naturalmente, como sendo aluno de escola pública, a minha situação era uma das melhores. Lembro-me de colegas que não conseguiram terminar o ensino médio. Alguns que lidavam, já no ensino fundamental, com o trabalho assalariado sem carteira de trabalho e sem EPIs. Outros que abandonaram de vez a escola. Outros que casaram cedo, tiveram filhos cedo e hoje amargam uma vida com pouquíssimas oportunidades e muitas responsabilidades. Mas, realmente, eu sei que essa não é a pior situação. Há piores. Há situações em que o sustento familiar depende do trabalho infantil. Parece tosco, mas existe. E os efeitos são geracionais.

Meu irmão, aos 13 anos, de vez em quando me reclama que quer trabalhar e eu o digo: espere os 14. Eu já estive na pele dele. Eu já quis trabalhar cedo. Mas isso não é saudável. Isso é queimar etapas. Eu trabalho com educação profissionalizante. Eu também estou do “lado de lá”. Eu profissionalizo jovens para lidar com desafios de adultos. Mas ainda não fiquei louco para profissionalizar crianças de 8, 9 anos de idade.

Inclusive, há pessoas que me procuram e querem colocar o filho de 8, 9 anos de idade para fazer informática básica e quando ele termina, quer colocar na informática avançada. Neste momento, com jeitinho, eu digo: “olha, não é ideal que você force seu filho a fazer informática avançada agora, pois o conteúdo é profissional, deixe ele viver a etapa de agora, fazer os trabalhos, jogar no computador, assistir vídeos, deixa ele viver, com 14, 15 anos, traz ele e a gente faz a avançada”. Alguns pais não saem muito satisfeitos, afinal, estão pagando. Só que o dinheiro não compra maturidade.

Essa discussão levantada pelo presidente Jair Bolsonaro – poderia ter sido por qualquer outro – só faz crer que a parcela conservadora de nossa população não está nenhum pouco preocupada com a saúde mental de nossas crianças e jovens. Essa discussão também esconde um fato mais grave: a falta de oportunidades para adolescentes e jovens.

Relativizar a proteção do trabalho infantil ou fortalecer a ideia de que trabalhar na infância não faz mal só vai incutir na mente de crianças e adolescentes sem oportunidade de que é justo que trabalhem sendo explorados, muitas vezes mal tratados e sem qualquer tipo de direito. É institucionalizar a exploração dos que não respeitam seus pares humanos.

Foto de capa: Jornal Hoje em Dia/Reprodução

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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