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Comportamento Política

Um papo sobre o politicamente correto

Só abra se você estiver disposto a pensar sobre racismo, homossexualidade, drogas e violência. E boa leitura!

Há opiniões duras sobre o que é e o que não é o termo “politicamente correto“. As sutilezas do modo de se comunicar e de agir perante este termo, porém, não refletem necessariamente quem somos. Há quem seja politicamente correto sem se esforçar para tal. E há quem mesmo se esforçando para sê-lo, não consegue. Ser ou não ser politicamente correto depende muito mais da educação, da ética e do respeito adquiridos na formação do caráter e do pensamento crítico do que de ações pontuais, cinematográficas e populistas.

Racismo e cotas raciais

O caso do racismo, por exemplo, é um que merece destaque. Até a criação da Lei das Cotas Raciais para o ensino superior federal em 2012, a discussão sobre o racismo era acobertada. De vez em quando ganhava um ou outro minuto na TV, uma ou outra página na internet discutiam de forma pública o assunto. Excetuando-se as universidades, os eventos de movimentos sociais (que ganharam força graças ao governo presidencial de centro-esquerda desde 2003) e as entidades de proteção à violência, o assunto era raramente discutido.

No entanto, com as cotas, veio uma discussão forte. De um lado, estavam os que concordavam com as cotas por encontrarem nela um instrumento de compensação da dívida que o país tem com os negros – somos o país americano que mais importou escravos entre 1500 e 1900. De outro, estavam os que achavam a cota racial uma nova forma de segregação. E curiosamente, entre esses que encontravam na cota uma forma de segregação estavam (sic) negros!

Agora, em 2019, com as cotas consolidadas, ainda há ressentidos. Mas o assunto é mais brando. Acaba ressurgindo quando a violência mata mais negros do que brancos. Foi o caso de crianças no Rio de Janeiro-RJ. Alguns meses depois, o assunto retorna ao esquecimento. Laurentino Gomes, historiador que acaba de lançar o volume 1 da trilogia de “Escravidão“, não se cansa de mostrar que somos incapazes de compreender a situação do racismo se não mergulharmos na história brasileira desde os nativos até aqui. Ele relembra que o “legado da escravidão precisa ser combatido no Brasil“.

Homossexualidade e união civil

Desde que o Supremo Tribunal Federal (STF) pautou o casamento homoafetivo, lideranças pró e contra a união entre casais do mesmo sexo emergiram. Jean Willys e Marta Suplicy de um lado. Jair Bolsonaro e Marco Feliciano de outro. Em 2011, o STF reconheceu a legalidade da união homoafetiva enquanto em 2013, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) publicou resolução permitindo aos cartórios registrarem os casamentos homoafetivos. Essa última proposta que pôs fim à farra dos donos de cartório e juízes de paz que se recusavam a fazer os casamentos homoafetivos foi de iniciativa do então ministro do STF, Joaquim Barbosa, o primeiro presidente negro da Suprema Corte em 125 anos.

Bom, o assunto foi muito pautado nas reuniões de família, nas igrejas, mas a “ameaça” da suposta “ditadura gay” parece ter vencido. Ou não. Bem, você sabe que não. O casamento homoafetivo somente regularizou civilmente uma situação que remonta aos tempos antes de Cristo. A homossexualidade não é uma tendência. Sua regulamentação legal apenas permite que a opção sexual seja reconhecida nas instâncias jurídicas e o casal homossexual goze dos mesmos benefícios da união civil do casal heterossexual.

Apesar de ser um país conhecido por sua diversidade, o Brasil ainda amarga altos índices de violência contra transexuais e travestis em comparação com outros países. Essa intolerância à decisão sexual do outro diz também sobre o uso de termos politicamente corretos para se referir aos LGBTs. Não adianta saber enfileirar todas as letras, estratificar quem é quem, não adianta falar a favor dos que têm opção sexual diferente da sua, se o respeito e a aceitação do diferente no dia a dia não for real. Seria hipocrisia – tanto consigo quanto com os outros.

Violência, drogas e armamentos

O Brasil é um dos países mais violentos do mundo. E suas taxas de violência sofreram reduções consideráveis após o Estatuto do Desarmamento. A redução em 2019 se dá após a correção estrutural da guerra entre facções e da normalização da produção de cocaína na Colômbia e no Peru. Ou seja, não é por causa do Bolsonaro não, tá ok?

O assunto da violência é caro ao brasileiro. Todos os governantes que, na sua plataforma de governo, defenderam radicalismos populistas contra a violência, foram eleitos – vide Jair Bolsonaro, Dória e Witzel. A violência, de fato, nos assusta. O problema é que não vemos a violência como um todo, apenas aquela que nossos olhos nos permitem ver. Para ver o todo é preciso debruçar, além da mídia, nos dados levantados pelos monitores de violência, nos blogues dos estudiosos das facções criminosas, dos estudos sobre a corrupção endêmica dos partidos e sua correlação com os membros de facções, milícias e grupos organizados, bem como o espectro total da demografia socioeconômica do Brasil.

O caminho da redução da violência passa por muitos outros pequenos caminhos que precisam ser bravamente encarados por homens e mulheres sensíveis à pessoa humana. O primeiro passo é cuidar dos nossos presídios, que se tornaram uma escola do crime ao invés de funcionar como ressocialização.

Para isso, é preciso conter a entrada, ou seja, aumentar os investimentos em educação e estruturar o ensino integral para permitir que menos crianças, adolescentes e jovens estejam vulneráveis ao crime. É também preciso potencializar a saída, ou seja, se o adolescente ou jovem está na cela, que ele seja incentivado a estudar, a ler, a trabalhar para reduzir o seu tempo de permanência, evitando que ele fique vulnerável aos estudos do crime proporcionados pelas facções.

Por fim, é preciso evitar a reincidência a partir do aumento das condições de empregabilidade. Garantir que o adolescente e o jovem que saíram da prisão possam ser reintegrados é a tarefa mais urgente num país que tem 24,4% de média ponderada de reincidência conforme o Ipea. Em termos mais simples, um sistema que poderia chegar próximo dos 100% de recuperação acaba deixando um para trás a cada 4 que saem.

E por fim, menos armas, menos violência, menos prisão, mais ressocialização, mais regulação, menos contrabando. As pautas progressistas no enfrentamento à violência são a forma mais efetiva de mostrar ao povo brasileiro que não precisamos de um governo conservador para enfrentar os dilemas de uma sociedade marcada pelo acovardamento institucional, pelo domínio criminoso do capital político e financeiro, pela desigualdade e pelo complexo de vira-latas, como bem dito por Nelson Rodrigues.

Conclusão

Basicamente, a conclusão não vem de mim. Vem de você, que leu. Que se aprofundou. Que pegou essa pílula do assunto e dedicou-se a refletir. Vem daquele que se identificou e do que discordou. Embora o politicamente correto seja um termo famoso, eu prefiro que usemos o humanamente correto – o respeito, a garantia dos direitos e a liberdade.

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