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Entre as aulas e o diploma: o que realmente levei do superior incompleto

Hoje eu desejei voltar para o IFTM e naquelas noites frias, por vezes solitárias, por vezes longas e chuvosas, me apossar da minha cadeira e sentar ali novamente fazendo tudo de novo, mesmo com as quatro horas diárias de viagem, com o cansaço acumulado do trabalho, com os professores exigindo nosso sangue e com o som dos grilos.

Ter uma experiência de trancar um curso não é muito incomum para aqueles que cursaram ou estão cursando uma faculdade. No entanto, chegar na secretaria num dia normal e pedir o cancelamento de matrícula por vontade própria e sem causas externas pode ser um pouco mais difícil de se encontrar.

Esse que vos fala tem a desonra, e honra talvez, de ter passado pelas duas situações. Em fevereiro de 2014 ingressei no curso superior de Análise e Desenvolvimento de Sistemas, no IFTM Paracatu. Em agosto de 2016, tranquei o curso. Retornei em janeiro de 2017, cancelando minha matrícula em julho do mesmo ano. Essa trajetória de 3 anos de curso que culminou em fortes memórias e um breve histórico de disciplinas cursadas, mas sem um diploma, me fez perder oportunidades de carreira, mas também me permitiu me desafiar.

Em janeiro de 2018, fui contratado para ministrar aulas num curso livre de informática. Para cursos livres, não é necessária a formação superior na área. Mas claro, o conhecimento e principalmente a vivência profissional é fundamental. Acontece que, após ter saído da faculdade, eu havia me dedicado ao Marketing e praticamente havia esquecido a TI. Sequer nos meus computadores eu fazia manutenções e personalizações.

Quando aceitei o desafio, tive que reaprender muita coisa. Logo, relembrei muito do que meus professores haviam me dito e muito do que eu já havia vivido como instrutor particular de informática, sobretudo lidando com adultos e idosos. Apesar de ansioso e muito impaciente, contive esse meu lado dando lugar a um profissional pacífico, enérgico e simplista. No fim do ano, eu descobri que ali eu havia construído um currículo que, um ano depois, seria concorrente voraz dos outros cursos comerciais da cidade pelo dinamismo do currículo flexível, que inclusive foi tema de trabalho apresentado em evento no Paraná.

Em janeiro de 2019, já acertado com um amigo também instrutor de cursos livres que ele começaria a ministrar Manutenção de Computadores, fui convidado a trocar de função e assumir um cargo novo. Com isso, minha função ficou vaga e restou convidá-lo ao posto. Ele aceitou. Por mais que ele já tivesse tido turmas em outra escola profissionalizante, nenhuma havia sido tão dele quanto essas que ele assumira. Ele já estava há uns anos parado, sem ministrar aulas também, mas ativo na sua empresa de manutenção de computadores.

Entre fevereiro e julho deste ano, esse amigo se tornou referência. Os alunos admiravam-o e permitiam que ele fosse ainda melhor do que achava ser. O sucesso foi garantido. Sua metodologia, ao que tudo indica, é numericamente melhor que a minha. E eu fico extremamente feliz com isso. De julho pra cá ele assumiu 100% da responsabilidade sobre o laboratório de computadores, a condução das turmas, atualização do material, ministração das atividades e avaliações. E eu pude descansar na minha função de coordenação.

Hoje, mais uma vez nos encontramos como alunos da vida. O objetivo era resolver um problema grave. Ele tinha feito 90% do serviço. Eu não sabia que os outros 10% eram meus. E foram: consegui, com base em algumas memórias fortes de professores e palestrantes, construir um plano de ação, executar alguns comandos e fazer o que era necessário. E funcionou. Ativamos os serviços corretamente e tudo se restabeleceu. No fim, eu que estava ali enferrujado, acabei passando algumas coisas novas para o meu amigo.

Bom, pode parecer que o diploma me fez falta. E realmente fez e faz. Mas hoje eu senti um desejo completamente diferente, cujo após ter saído do curso nunca mais havia sentido. Hoje eu desejei voltar para o IFTM e naquelas noites frias, por vezes solitárias, por vezes longas e chuvosas, me apossar da minha cadeira e sentar ali novamente fazendo tudo de novo, mesmo com as quatro horas diárias de viagem, com o cansaço acumulado do trabalho, com os professores exigindo nosso sangue e com o som dos grilos.

No entanto, a conjuntura não é para um retorno real, mas sim para um retorno memorial, aonde consigo compreender que entre o diploma e as aulas, levo realmente tudo que tive durante as aulas, as experiências, as amizades, os abraços e risadas, o aprendizado que a gente respirava, as lágrimas que engolíamos de desespero e cada um dos minutos que estocaram no meu cérebro uma centelha a mais de conhecimento.

Hoje eu agradeço indistintamente a todos os professores, colegas e servidores em geral que me abrigaram naquela instituição que, com carinho, carrego no peito. E claro, em quem me confiou mesmo sem um diploma na mão e que hoje posso contribuir para o crescimento. E por fim, ao meu colega de trabalho e amigo que tem sempre disposição em aprender e ensinar.

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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