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Depois de dois anos de ostracismo…

Com uma infinidade de erros cometidos, caí no ostracismo. Mas aprendendo e refletindo sobre tais erros, bem como cuidando para que eles não voltem a ocorrer, eu voltei. Desta vez, voltei com a certeza de que hora ou outra, o ostracismo voltará.

A vida é cheia de altos e baixos, é uma montanha-russa, se for uma linha reta é morte. Aos poucos, a vida vai se ajeitando e vamos encontrando nosso lugar, daí paramos um pouco, retrocedemos às vezes, crescemos, neutralizamos, paralisamos. É natural isso.

Assim como são naturais os altos e baixos, também é natural a ambição humana por querer o novo, por amar o que não se tem, por celebrar o desejo de algo mais. Longe dos simbolismos, porém, quero contar uma breve história para vocês.

Meus altos e baixos

Falo do que vivi. Por isso, quando digo que a vida tem altos e baixos, estou apenas reproduzindo o que aprendi com minha própria existência. Sempre tive uma família completa, embora com alguns desajustes (qual família não tem, né?!), então pude crescer com saúde e com minhas necessidades básicas supridas.

Aos 17 anos, preparando-me para entrar na faculdade, cumpri com uma carreira de estudos para ter êxito no Enem. Estudava pela manhã o ensino médio, à tarde ajudava meus pais no mercado da família e à noite fazia um curso técnico. Sobravam as madrugadas, todos os dias até 3h da manhã, para me dedicar ao Enem. Fruto de um sistema de ensino que não me permitia ir muito além do esforço individual, alcancei, entre várias outras aprovações, o primeiro lugar na ampla concorrência do curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas do Instituto Federal do Triângulo Mineiro em Paracatu-MG.

Com 18 anos, percebi que maior parte do que eu esperava no curso não viria. Veio, então, minha primeira reprovação na vida. Eu já havia descoberto que aquela área não era minha vocação. Mas ainda assim, resolvi insistir. Permaneci por mais dois anos e meio na instituição até desistir de vez. Ainda aos 18 anos, assumi um emprego público no IBGE, minha primeira experiência de trabalho fora do ambiente doméstico.

Aos 19 anos, capotei um carro, dei 5 mil reais num desses golpes fajutos da internet, me apaixonei perdidamente e dei meu primeiro beijo. Aos 20, comecei a namorar pela primeira vez, visitei o céu e o inferno das relações familiares que permeiam uma relação amorosa. Entre os 19 e os 20, vivi uma crise depressiva que aos poucos me levou a pesar 54 Kg e pensar imotivadamente em suicídio.

Entre os 20 e 21 anos, busquei ajuda espiritual e psicanalítica. Com qualidade, porém sem cobrir todas as carências da doença que se arrastava dentro de mim silenciosamente, busquei ajuda psiquiátrica. Tomei remédios por alguns meses e o médico suspendeu a medição e me encaminhou para psicoterapia.

Aos 22 anos, busquei ajuda psicológica. Desta vez, eu tinha um namoro longevo, vida com minha família relativamente estável, porém estava num momento profissional crítico e havia tomado uma decisão forte – a de me desligar da organização religiosa em que eu estava vinculado. As dívidas que se acumularam desde 2015 devido a decisões erradas chegaram a proporções impagáveis no curto prazo. Sem emprego fixo e com mão de obra subutilizada, restava o lamento e – curiosamente – gastar mais o que não se tinha (leia-se cartões de crédito). Haviam crenças conflitantes e situações não resolvidas no meu interior.

Virando o ano, ainda com 22 anos, tive meu namoro desfeito e fechei o ciclo vicioso que eu havia permitido existir. Limitei a ação externa – dos meus familiares e amigos – na minha vida. Nutri relações mais honestas com os meus pares. Essas conquistas eu devo principalmente ao ajuste conseguido junto à minha psicóloga. Conquistei um emprego fixo. Foquei nas capacitações para a área em que eu atuava. Me tornei referência na instituição em que trabalho pelo conhecimento adquirido. Tomei as rédeas da minha vida. Penso que foi neste momento em que tudo pareceu começar a ficar mais claro.

Depois de dois anos de ostracismo…

O ostracismo é, para os fins deste texto, uma condição de exílio, banimento, ausência. Foi exatamente um exílio o que vivi. Sem holofotes, sem fotos. Sem compartilhar nada legal, sem participar de coisas boas. O espaço das minhas redes sociais e das minhas conversas geralmente serviam ao lamento, à pílulas fajutas de esperança breve e muitas vezes à capacidade de testar a audiência.

Com uma infinidade de erros cometidos, caí no ostracismo. Mas aprendendo e refletindo sobre tais erros, bem como cuidando para que eles não voltem a ocorrer, eu voltei. Desta vez, voltei com a certeza de que hora ou outra, o ostracismo voltará.

É por isso que chegou a hora de gozar do momento com a intensidade de um bebê que nasce. Eu voltei.

Capa: Ana Cristiny/CEPASA

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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