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O sistema solar segundo Bolsonaro e sua família

O que é mais visível é que ao assumir o posto de Presidente da República, Bolsonaro enviesou-se com um poder absoluto, quase um reinado, aonde o Executivo está no centro e não ao lado dos outros dois poderes e alguns dos pilares democráticos, a saber: a liberdade de pensamento, crença e imprensa, o livre direito de ir e vir e a não interferência entre os poderes.

“Aos amigos tudo, aos inimigos a lei”, é assim que governa Jair Bolsonaro e o núcleo político de seu governo. Para seus aliados, tudo. Para seus inimigos, a lei, as ameaças e a seletividade. Essa democracia quase cleptomaníaca do Estado não é de hoje, há que se ressaltar. E nem tampouco se resume ao Executivo.

No entanto, voltemos a falar de Bolsonaro. É preciso começar em 2018. Em meio à campanha presidencial, ainda afastado pelo médico de qualquer esforço devido à recuperação cirúrgica do atentado que sofreu, Bolsonaro foi convidado a participar de um debate na TV Globo, mas recusou. No mesmo horário, no mesmo dia do debate, o então candidato aparece dando entrevista de vinte e cinco minutos à TV Record. À TV conservadora tudo, à TV progressista, nada. Começou assim.

Em 2019, repetindo os anos petistas de governo tão duramente criticados pelo agora presidente, a cerimônia de posse presidencial reservou uma série de credenciais de imprensa para os veículos amigos. A desorganização da posse só não foi maior que as restrições impostas aos jornalistas das TVs e veículos tradicionais, que ficaram encurralados por horas devido ao forte esquema de segurança. Mais uma vez, aos amigos tudo, aos inimigos a lei.

Os ataques à imprensa, a devoção absoluta ao professor Olavo de Carvalho nas suas indicações para o Ministério da Educação, o deboche das instituições do Judiciário e do Legislativo, a relação promíscua (que não é nova) com o Parlamento para aprovação da reforma da Previdência, e mais recentemente, os ataques aos partidários que não concordam com a “velha política” continuada por Bolsonaro não deixam esse texto ser apenas uma mera teoria conspiratória, mas sim uma colcha de retalhos devidamente amparada pelos fatos.

O que é mais visível é que ao assumir o posto de Presidente da República, Bolsonaro enviesou-se com um poder absoluto, quase um reinado, aonde o Executivo está no centro e não ao lado dos outros dois poderes e alguns dos pilares democráticos, a saber: a liberdade de pensamento, crença e imprensa, o livre direito de ir e vir e a não interferência entre os poderes.

O que realmente parece é que assumiu o poder uma família descontrolada, barraqueira, sem qualquer respeito pelas outras famílias, incluindo as que apoiaram o novo governo (vide família dos pracinhas das Forças Armadas). E isso, em si, já é um problema, afinal, Carlos é vereador, Eduardo é deputado, Flávio é senador, os três são representantes do povo de São Paulo e do Rio de Janeiro no Poder Legislativo. Jair Bolsonaro é o chefe do Executivo. A independência dos poderes, com essa relação familiar tão próxima, é questionável.

Mais questionável ainda é que, em entrevista a Leda Nagle, Eduardo Bolsonaro aposta num “novo AI-5” e Olavo de Carvalho havia falado em ruptura institucional como única forma de vencer “a esquerda”. Estaria a cúpula político-filosófica do governo planejando um golpe contra o sistema político atual? Seria o realinhamento do sistema solar aonde Bolsonaro assumiria o centro? Seria uma nova Constituinte? Nada se sabe, porém, de fato. Nos resta continuar aguardando, atentos, os próximos capítulos desta história.

Novamente, repito. Não se trata de uma conspiração, mas sim de uma análise do que os fatos e falas dos respectivos atores governamentais vêm traduzindo para o povo.

Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

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