Categorias
Comportamento

“Queria ter ficado mais”, dizia um cartão

O amor platônico é aquele por coisas ou pessoas que não se têm. Ou seja, a partir do momento que temos, que possuímos, deixamos de amar. Longe do romantismo, essa reflexão busca interpretar na sua forma mais natural o que temos feito com nossos vínculos e momentos que permitem a união de tais vínculos.

Há quanto tempo você não se senta com alguém e o tempo passa tão rápido que o desejo maior é que aquele tempo ali não se acabasse nunca? Espinoza chamará isso de potência de agir, conforme interpretação de Clóvis de Barros Filho.

Mas o desejo que nos permite acessar essa potência de agir, muitas vezes, é o amor platônico, isto é, o amor pelo que não se tem. Se busco conversar com alguém especial apenas porque os momentos que aquela pessoa me permite viver são diferentes, únicos, especiais, logo pode ser sinal de que não tenho isso com frequência.

Justo por não ser banal que é especial. Justo por ser especial e acontecer que deixa de ser platônico. Justo por acontecer e ser bom que garante que isso é a expressão máxima de nossa potência de agir. Somos humanos, feitos para a vida em comunidade.

É impossível transformar esses momentos em eternidade, mas é plenamente possível aprender a demorar-se mais. A ir até o último segundo. A ficar mais um pouco. A esperar mais. A não ter tanta pressa quando o momento é bom. Essas palavras, no entanto, são um verdadeiro sonho platônico para os que sofrem de ansiedade – aquela que nos obriga à pressa sem razão.

Recentemente, enquanto voltava pra casa já perto das 23h, vi um casal de adolescentes conversando na porta de casa – cena atípica em dias onde o medo é maior que o desfrute de momentos assim em vias públicas – e lembrei meu tempo de adolescente cujo eu ficava conversando com meus amigos até tarde na rua. Ainda que tenha sido bom à época, eu poderia ter demorado mais se com 15 anos, tivesse a mesma maturidade dos meus 23 anos e soubesse que ficariam cada vez mais escassos momentos como aqueles.

Em 2019, tive alguns momentos em que pude demorar mais e o fiz sempre que possível. Cheguei até a me emocionar quando um amigo meu, professor, enquanto eu argumentava se ele teria aula num horário em que eu estaria livre, disse: “pra conversar com amigo eu cancelo até aula”. Não pela frase, mas pela significância dela, afinal para muitos a importância das relações está defasada, falta contato, falta interesse, falta olho no olho, faltam abraços sinceros.

Hoje, exponencialmente, após um dia e meio de descanso integral das minhas atividades corriqueiras, em outra cidade que não a minha de origem, pude desfrutar de um momento que passou mais rápido que minhas sessões de terapia, que os filmes do Deadpool e mais rápido que o tempo que levo para tomar uma Coca-Cola gelada.

Foi aquela conversa de gente que fala de si, sem necessidade de dizer nada mais nem nada menos do que realmente é, gente que não precisa se esconder sob máscaras nem mascarar a realidade para parecer sociável. Uma conversa de gente louca, despadronizada, instável, mas uma conversa real. Risos pra cá, olhares pra lá, gargalhadas aqui e ali. Uns palavrões libertadores, umas verdades ditas na cara um do outro, um patamar altivo de honestidade, uma ligação especial do tipo que parecíamos nos conhecer há anos. Uma conversa que jorrava empatia mútua. Uma conversa que não podia ter acabado, mas precisou.

Na fila do caixa, aquela companhia me mostra um cartão certeiro que traduzia o nosso desejo interno, outrora expressado em palavras, olhares, expressões e no titubear da possibilidade de postergar ao máximo aquele encontro: “queria ter ficado mais”.

Capa: Rhaissa Emanuelle/Imagem Cedida

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

Comente! Aqui é o lugar!