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Não é setembro, mas precisamos falar sobre estafa mental

Cuidar da saúde deveria ser apenas uma preocupação básica como comer ou beber, mas não é para a maioria de nós homens, que resistimos à procurar ajuda médica até que a bolha estoure e estejamos prestes a sucumbir.

É dezembro. O mês mais “família” que tem. Grupos de WhatsApp pipocam com mensagens em alusão ao Natal. Aquele parente de milionésimo grau aparece. Mensagens dizendo que você é especial, de gente que nunca deu “oi” para você, aparecem. Há mensagens, ligações, e-mails e abraços genuínos, mas eles se perdem na infinitude do que é falso, cópia, aparência.

Agora pega tudo isso e imagina que além disso tudo você tem uma pilha de coisas para serem concluídas porque sua coordenação ou chefia não quer encerrar o ano com pendências. Ao mesmo tempo em que se quer falar sobre o novo ano, ainda quer se falar sobre o ano que está terminando, às vezes até sobre anos passados. As pressões se multiplicam. O braço mais fraco da cadeia de trabalho, o funcionário mais operacional, sofre.

Ora, se com tudo isso não dá para começarmos a falar sobre saúde mental, ainda há um último argumento que, garanto, irá convencer você. O volume de dados aos quais estamos expostos diariamente só se multiplica. Nunca se produziu tantos dados, especialmente, aqueles que são coletados e produzidos através da internet. Essa superexposição significa menos qualidade na hora de se informar. Aldous Huxley, em 1932, previu que estaríamos com tanta informação, e principalmente tanto lixo, que acabaríamos por ser sucumbidos, perderíamos o controle de nós mesmos e do que consumimos.

Lucidez, paciência e análise sem pressa parecem ser atributos impossíveis de se reunir no corpo de meros mortais como nós. Trabalhadores perdem sua lucidez com a carga de trabalho, estudantes perdem sua paciência pela ansiedade imposta pelos períodos de provas, e até os idosos, aposentados, lactantes e outros que deveriam ter capacidade de analisar sem pressa e tomar suas decisões de forma cautelosa agora são levados a decidir sempre na velocidade da luz para tentar, ainda que sabendo do fracasso, acompanhar as evoluções.

Sobrevivemos até aqui. 2019 é o ano em que a pós-verdade deu suas caras no Brasil, mas não pela porta dos fundos, como antes. Agora, pela porta da frente de cada Ministério, Secretaria e até mesmo do Palácio do Planalto. A pós-verdade invadiu o Congresso. Até mesmo o Judiciário. Ora, a pós-verdade não é uma pessoa. Ela está na pessoa, no ser. A partir do momento em que o que “achamos, acreditamos, pensamos” é mais válido e verdadeiro do que o que é, de fato.

No fim de 2018, tive um início de Síndrome de Burnout – caracterizada pelo estado de fadiga total, geralmente ligada ao excesso de estresse motivado pelo trabalho. Graças à psicoterapia, por meses, reassumi o controle da minha vida e superei a Síndrome. De setembro para outubro de 2019, a estafa mental, estágio pré-Burnout bateu à porta. Tomei a decisão de mitigar os efeitos antes do problema evoluir, mas a tolerância ao estresse diminuiu. Isso é bom por um lado, mas péssimo por outro. Cuidar da saúde deveria ser apenas uma preocupação básica como comer ou beber, mas não é para a maioria de nós homens, que resistimos à procurar ajuda médica até que a bolha estoure e estejamos prestes a sucumbir.

Falar sobre fadiga mental em meses não alusivos à depressão, suicídio e outros males é tão importante quanto no Setembro Amarelo. Todo dia é dia de parar e pensar: o que estou fazendo, sentido, pensando hoje? Será que isso é bom para a minha saúde mental? Se você ao menos hesitou em falar um “sim”, é hora de refletir um pouquinho…

Se você quiser saber um pouco mais sobre fadiga mental, recomendo esse vídeo do canal do conhecido Dr. Drauzio Varella.

Entrevista do Dr. Drauzio Varella com o Dr. Fernando Gomes

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