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“Momento massa” e nada mais, ou talvez isso tenha sido tudo

Em menos de 30 minutos, eu não queria mais sair daquele lugar. Não do bar, não da frente dela, mas daquele lugar gostoso, aconchegante, de paz e igualdade que ela conseguiu inaugurar. É um lugar que nem no meu quarto eu consegui ter. E ela não precisou de nada mais do que ser ela para fazer isso.

Ela, linda, eu nem tanto. Ela muito arrumada, eu só cheiroso. Ela cheia de dúvidas, eu cheio de pressas. Ela com uma certeza, eu com um milhão de expectativas. Meu coração estremeceu quando a vi sentada, com seus cabelos lisos, mexendo no celular enquanto me aguardava. Eu disse pra mim, mentalmente: calma, Bruno, é só um lanche.

Quando ali me sentei e veio o refrigerante e a batata, coloquei meu celular no modo avião e a conversa começou. Eu não precisei forçar. Perguntas vieram, respostas, os sonhos e particularidades dela também apareceram. Em menos de 30 minutos, eu não queria mais sair daquele lugar. Não do bar, não da frente dela, mas daquele lugar gostoso, aconchegante, de paz e igualdade que ela conseguiu inaugurar. É um lugar que nem no meu quarto eu consegui ter. E ela não precisou de nada mais do que ser ela para fazer isso.

Ela deu o próximo passo em relação ao passeio que marcaria mais ainda aquele momento. Saímos. Fomos à fonte recém-inaugurada na cidade e ali jogamos moedas. Eu titubeei dezenas de vezes antes de jogar. Eu queria desejar ter aquela menina como minha futura esposa, mas eu não podia. Era cedo demais. Eu praticamente não a conhecia. Eu estava no meio de um tratamento psicológico sobre carência. Preferi pedir, apesar do ceticismo, que aquele momento não acabasse, que ele fosse eternizado.

Aquela voz doce, suave, aquelas mãos aveludadas, aqueles lábios mordidos com um sorrisinho de canto, tudo isso me conquistou. Mas a conexão mental entre nós foi algo incrível. No passo seguinte, o humor ganhou forma. E ela me desafiou. Ela disse: “vem”. E eu fui. Ao longo de alguns minutos, brincamos ali. Depois passeamos e eu entrelacei o meu braço direito no ombro direito dela. Aquela sensação de estar de igual pra igual, presente lá no primeiro minuto de conversa, agora era física também.

Quando fomos embora, ela pediu para dirigir. Hesitou. Mas eu perguntei se ela se sentia confiante, e ela respondeu pegando a chave. Ah, como eu amo as respostas dadas por meio de ações. Ela deu ré no veículo e saiu. Passeamos um pouco. Rimos. Reclamamos do carro. Ela disse que dirigir um automático era bem mais fácil – e é mesmo.

Nesse momento, eu já não tinha mais nada que dizer: tinha valido a pena ter toda aquela correria, tinha valido a pena deletar o Tinder dias antes, tinha valido a pena iniciar um contato mesmo com tanto medo de ser rejeitado por uma menina tão bonita como ela, tinha valido a pena acreditar na confiança que ela me passou de que não iria me dar o bolo. Só restava agradecer.

Eu chorei quando voltei à direção do veículo e ela colocou Tiago Iorc e Agnes Nunes pra tocar, enquanto eu assumi pretensiosamente que deveria entrelaçar minha mão direita com a esquerda dela. Ela perguntou se eu me sentia mais confortável assim, eu disse que sim. Diminuí a marcha pra manter aquele momento aceso. Eu estava embriagado numa situação incrível, com minha voz embargada, mas ainda sem demonstrar que estava tão feliz.

Ela tem 1,70m e eu 1,67m. Ela é dona de si. Ela é autônoma, forte, independente, é um tipo de mulher que eu adoro ver tomando decisões. Ela é responsável, ela edifica com suas conversas, ainda que na mais tola das brincadeiras, pois ensina a hora certa de brincar. Ela tem autocontrole. Ela é um ponto de equilíbrio. Ela salta ao padrão. Ela é única.

Quando estávamos prestes a ir embora, passamos num fast food e tomamos um sorvete. Entre outras coisas, fiz aviãozinho com a colher e ela aceitou tomar. Ela entrou no ritmo. Parecia estar tudo muito certo. Parecia que tudo tinha saído de um sonho. Mas não, era realidade. Fui ao banheiro e falei para mim: “calma, calma, calma. É uma garota linda, claro. Ela é incrível. Ela é demais. Está sensacional o encontro, mas calma! Calma!”.

Terminei de viver aquele momento. Há outros que passaram com humor e audácia que eu resolvi deixar apenas na minha memória fotográfica e sentimental. São sensações que vão demorar um pouco a sair daqui. Na hora em que a levei para casa, agradeci ela. Disse que tinha sido momentos muito bons. E ela perguntou se não tinha esquecido nada: eu, envolto na brincadeira, disse que sim, mas ela não voltou pra buscar o que tinha esquecido. Com um olhar de “para, chega, preciso ir”, ela foi embora. Com todo o seu charme.

Esperei ela abrir a porta de casa e parti. A partir dali, coloquei o ar condicionado no máximo, fechei os vidros e fui agradecer a Deus. Ela era o tipo de pessoa que eu sempre sonhei em conhecer. No último ano, em que estava solteiro, conheci diversas pessoas. Muitas, até interessantes, mas cheias de restrições. Ela era o total oposto disso. Ela era uma pessoa sem restrições, que jogava limpo, que marcava e ia, que não dava bolo. Era uma sinceridade completa. Era a alma que meus melhores amigos têm – e talvez fosse exatamente isso que nós precisaríamos nos tornar antes de eu me apaixonar subitamente por ela.

Envolto pelo “momento massa”, como diria minha psicóloga, troquei meus pés pelas mãos no dia seguinte e fui rápido demais. Acabei assustando-a e afastando-a de mim, logo eu que a queria tão perto. Confiante de que se for pra ser, será, continuo percebendo a cada dia um novo detalhe sobre ela.

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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