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Ao luto, acrescento o descarte

Descartar memórias físicas é importante. Eu não tenho desejo de que você esqueça nada do que viveu até porque é isso que fez com que você se tornasse quem é hoje. Mas não se apegue, não paralise sua vida, não guarde a sete chaves um cantinho onde só tem coisas que te remetem àquilo.

Sinceramente, olha pra bem dentro de si, você já teve pelo menos um momento ou uma situação na sua vida que seria melhor se você não tivesse vivido. Seja porque ela desencadeou coisas ruins ou porque a situação em si já era ruim. Ao longo das nossas vidas, registramos dezenas de milhares de fatos na nossa mente. Mas se limpar a mente não é tarefa que um bom ácido muriático resolva, o mesmo não pode ser dito para memórias físicas que podem ser descartadas.

No processo de luto, há várias fases. O luto pode ser vivido tanto por ocasião da morte de alguém, da perda de um relacionamento ou mesmo de algo que você considera muito importante e que não deu certo, não engrenou. Viver o luto é o principal passo para não desenvolver um comportamento depressivo e focado no passado. O luto tem uma fase final que é chamada de aceitação. Nesta fase, muita gente acaba por aceitar mentalmente, mas ainda permanece agarrado(a) às memórias e registros físicos.

Sim, você não leu errado. Tem gente que aceita que um parente morreu, mas não aceita mexer no quarto daquela pessoa, mantendo-o cheio de teias de aranha e causando problemas aos demais integrantes da casa. Tem gente que termina um relacionamento, sabe que não vai ter volta, mas continua guardando tudo que seu parceiro o deu, isso acaba fazendo com que, hora ou outra, o novo parceiro possa encontrar aquilo e criar uma discussão.

Descartar memórias físicas é importante. Eu não tenho desejo de que você esqueça nada do que viveu até porque é isso que fez com que você se tornasse quem é hoje. Seja grato ao seu ex-parceiro, seja grato ao que seus ascendentes mortos deixaram, seja grato a tudo que aquele trabalho que não deu certo te ensinou. Mas não se apegue, não paralise sua vida, não guarde a sete chaves um cantinho onde só tem coisas que te remetem àquilo.

A vida é para a frente. Para trás, é só pelo retrovisor que a gente olha. De vez em quando, e só de vez em quando mesmo, abrimos a porta, damos um passo em direção ao passado para entender o presente. Vá acompanhado, de preferência, para evitar que você fique por lá. E se der vontade, queime. Se der vontade, rasgue. Se der vontade, chore. Vai doer? Demais. Mais do que o próprio momento de negação, primeira fase do luto. Porque agora é você lutando contra você mesmo. Mas você vai ficar livre.

E é para a liberdade que vivemos. É pela liberdade que criamos. É pela liberdade que decidimos sem culpa, medo ou dor.

Capa: Pixabay/Reprodução

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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