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Sobre o valor não-monetário de tudo aquilo que é prazeroso

O valor que não se mede em dinheiro também não pode ser medido em números. Só sinta. Só viva. Esse é o valor que todos precisamos. O valor do prazer, da comunidade, do compartilhar.

Tomar um sorvete. Passear numa praça. Fazer uma ligação. Dar um abraço. Almoçar em companhia. Ir a um evento acompanhado. Pedalar com a galera. E uma infinidade de outras coisas que são passíveis de serem feitas na companhia de uma ou mais pessoas. Tudo isso tem preço, custa dinheiro, ainda que indiretamente. Mas hoje quero inverter o jogo e pensar sobre o que não é medido pela moeda.

Se houvesse a medida monetária do tempo, poderíamos decidir sobre o preço de cada momento. Mas ainda assim, seria incapaz de medir com exatidão o prazer, aquela sensação gostosa, aquele calorzinho no coração de quando estamos juntos, unidos, felizes.

Eu já fui o tipo de pessoa que não dava muito valor aos relacionamentos interpessoais. Essa coisa de passar tempo juntos não era comigo. A igreja foi fundamental para que eu começasse a mudar essa ideia. E aí veio a faculdade, que acabou de transformar meu pensamento. Desenvolvi uma série de competências socioafetivas relevantes para quem eu sou hoje. De um lado, ganhei, de outro perdi.

Ganhei amigos, momentos, experiências, coragem e capacidade de amar. Perdi a vergonha, o desejo de me isolar sempre (de vez em quando dá vontade, não vou mentir), a incapacidade de assumir papel de protagonista em relações, a sensação de que não tinha amigos.

Para exemplificar, vou trazer aqui um momento muito relevante da minha história de vida. Para quem via, era “apenas” mais um intervalo de faculdade. Para nós, que ali estávamos, era a construção de nós por meio do compartilhamento de experiências, vitórias e, principalmente, ainda mais se tratando de uma faculdade de Exatas, das derrotas.

Todas as noites, quando o sinal tocava às 20h40, nos reuníamos numa das mesas do refeitório. Era eu, mais uns 2 ou três amigos, que àquela altura do curso, já estavam dispersos em várias disciplinas, portanto, nem todos eram colegas de sala. Comíamos uma pipoca bem salgada ou um salgado. Em determinados dias, faltava grana no bolso de um, o outro completava. E assim por diante. Outro dia, lágrimas corriam. Outro dia, ríamos desesperadamente porque a prova tinha sido uma verdadeira negação. Vez ou outra chegava algum professor e comentávamos nosso desespero com ele. No fim, estávamos ali, firmes, unidos. Sabíamos que num determinado momento, cada um seguiria seu caminho, então ali era “o” nosso momento.

Hoje, quando tenho oportunidade de reunir esses mesmos amigos, continuamos a contar nossas vitórias e desgraças porque aprendemos que existe um valor não-monetário nos momentos que nos fazem sentir prazer, mesmo que este o seja apenas o falar. O homem, na figura do masculino, sofre muito por não ter espaços de convívio tão bacanas como este. Então, me orgulho muito de dizer que ao aprender isso, passei a reproduzir o mesmo sempre que possível nos ambientes os quais estou inserido.

O valor que não se mede em dinheiro também não pode ser medido em números. Só sinta. Só viva. Esse é o valor que todos precisamos. O valor do prazer, da comunidade, do compartilhar.

Capa: Pixabay/Reprodução

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

2 respostas em “Sobre o valor não-monetário de tudo aquilo que é prazeroso”

Que linda reflexão, Bruno! Você nunca pareceu uma pessoa não afeita a relacionamentos sociais =) pelo contrário! Sua capacidade de iniciativa e liderança me contavam a história do avesso. Abraço!

Cássia, obrigado pela leitura e pelo comentário. Pois é, mas a faculdade, como eu mencionei, me ajudou bastante a me tornar uma pessoa diferente, uma pessoa melhor. E é de pessoas como você, que há 6 anos conheci e até hoje nos falamos, que a vida é feita. Pessoas que deixaram um pouco na gente. Obrigado!

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