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O amor não gera medo, mas envolve desafios e incertezas

Gosto de dizer que o amor é desafiante. Mais pra quem pratica do que para quem recebe, no entanto, até receber amor também é um desafio. Além disso, o amor passa segurança, mas é repleto de incertezas. É justamente na incerteza que o amor assume seu papel de moderador, de equilibrista, em qualquer tipo de relação.

Há um texto bíblico que declara que “no amor não há medo“. E complementa “porque o medo supõe castigo (…) aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor”. Não é preciso ir muito além das palavras principais do texto para compreendê-lo: amor, medo, castigo, aperfeiçoado. Apesar da ligação direta com o romantismo, o contexto traz algo sobre a intimidade com Deus.

Antes um pouco desse versículo, o autor declara que “Deus é amor“. Logo, por inferência lógica, “em Deus não há medo”. Se em Deus não há medo, não há porque não achegar-se à ele. Agora vamos começar a lidar com essa questão a partir de outro vértice. A interpretação ampla permite que possamos estender esse contexto ao de relacionamentos – sejam eles amorosos ou não. A partir das palavras-chave do texto explicitado acima, desenvolverei essa reflexão.

Amor

Verbo. Ação. Se você ainda entende amor como sentimento, esse é um pensamento contraditório, pois sentimentos passam, decisões ficam. Sentimentos nada fazem pelo outro, apenas por nós mesmos. Amar é agir.

O amor é indescritível na sua forma e no que ele é. Porque, na real, amor se vive. O amor às vezes é serviço, é compreensão, é um abraço, é um bocado de coisas que acabam por significá-lo. Cada um entende o amor de uma forma. Eu, por exemplo, acredito que sou amado por Deus. Mas tenho dificuldade em sentir-me amado por outras pessoas. E o processo de entender o amor é longo e duradouro. Nem sei se vou ter aprendido um dia.

Medo

O medo é paralisante. Ele nos força a assumir uma posição de segurança. O medo de errar, por exemplo, nos força a aceitar coisas que não são legais. O medo de magoar o outro, por vezes, nos impede de falar aquilo que sentimos. Medo não é bom, a menos que seja aquele medo interior que sinaliza perigo, um tipo de medo natural, que dá um sinal de alerta.

Nos relacionamentos abusivos, o medo é uma constante. Toda a comunicação fica viciada. O ciclo é gerar medo e com isso, garantir o vínculo. Às vezes até no trabalho isso pode acontecer. O medo de ser demitido garante o vínculo em condições desagradáveis. Medo não é algo que possa ser valorizado. Nem na mais tensa das discussões de relacionamento.

Castigo

Como parte do instrumento opressor em relacionamentos, o medo opera gerando a consequência de castigo. Todas as vezes que algo sai diferente do combinado, um castigo é aplicado. Às vezes a pessoa pode estar num sistema de poder aonde ela esteja se autocastigando. Exatamente como se um escravo chicoteasse a si próprio.

O castigo só existe quando o medo impera. E o medo só tem poder de funcionamento porque supõe castigo. Portanto, já deu pra perceber que qualquer relacionamento que esteja sob a base do medo ruirá em questão de tempo. Às vezes, esse castigo pode vir até mesmo na forma física, quando não nas limitações emocionais.

Aperfeiçoar

A palavra em questão é “aperfeiçoado”, mas flexibilizarei para o verbo no infinitivo. Aperfeiçoar nada mais é do que buscar a perfeição. Pela nossa natureza imperfeita, já sabemos que é impossível obter plena perfeição no amor. Mas dá pra buscar e buscando, dá pra chegar no nosso melhor.

É por isso que aperfeiçoar-se no amor não tem a ver com fazer tudo que a outra pessoa – em qualquer tipo de relação – goste. Mas sim em buscar, na justiça do amor, o equilíbrio. E equilibrar significa dar mais quando se requer mais e dar pouco quando se está cheio. Transbordar aqui, só quando são as várias partes que se relacionam. A concentração é em não faltar nada a ninguém da relação.

Mas…

Gosto de dizer que o amor é desafiante. Mais pra quem pratica do que para quem recebe, no entanto, até receber amor também é um desafio. Além disso, o amor passa segurança, mas é repleto de incertezas. É justamente na incerteza que o amor assume seu papel de moderador, de equilibrista, em qualquer tipo de relação.

Verbalizar o amor é necessário nas relações amorosas e de amizade. Mas praticá-lo, sob qualquer circunstância, é indiscutível. O amor permite que façamos aquilo que antes nos era impossível. O amor permite que o óbvio seja redescoberto, revisto, renovado. O amor permite que encontremos paz e segurança sem prisão. Em outras palavras, agora mais aplicado ao romantismo: amamos porque decidimos, ficamos porque é confortável e vamos embora quando o amor deixa de ser praticado.

Com exceção de ir embora, Deus decide nos amar e é no conforto desse amor que ficamos. E jamais precisaremos ir embora porque aquele que é o amor jamais deixará de praticá-lo. Que Deus console e conforte os nossos corações. E que você se sinta desafiado a amar seus pares.

Capa: Pixabay.com/Reprodução

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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