Categorias
Cultura

Sextas-feiras e seus significados adquiridos

É sobre o meu significado próprio de sexta-feira e como o ressignifiquei que quero contar hoje.

Sexta-feira. Sexta-feira, fim de semana. Sexta-feira, amanhã tem mais. Sexta-feira, dia de meter o loco. Nós conseguimos atribuir significados à coisa mais elementar que temos: os dias da semana. Podemos atribuir o adjetivo “brava” à segunda-feira e colocar no aumentativo o domingo o tornando um “domingão”. Isso tudo está ligado à significância que criamos e atribuímos aos dias da semana. É sobre o meu significado próprio de sexta-feira e como o ressignifiquei que quero contar hoje.

A começar de um relato. O celular toca às 6h30min e após acordar, tomar banho e tomar café da manhã, parto para o trabalho. Às 11h30, saio para o almoço. Retorno às 13h para trabalhar. Fico até 17h ou 18h. Mas algo me prende ali. Voltar pra casa não é bom. O cansaço é grande, mas o mal estar de voltar pra casa, de descansar é maior. Eu não sei se isso já te aconteceu. Comigo acontecia sempre.

Sextas-feiras eram geralmente os dias em que minha ansiedade se multiplicava. Muitos eram os motivos: o ócio do fim de semana, uma ou outra viagem para visitar minha hoje ex-namorada, a ausência de ocupação profissional que mantivesse minha cabeça ocupada, as atividades familiares que me exauriam a paciência.

Chegou uma sexta-feira que eu não suportava mais. Foram anos deixando a sexta-feira como o meu pior dia da semana, não importando qual fosse a semana e o que de bom tivesse acontecido naquele dia. Eu procurei a psicóloga que, atualmente, é minha terapeuta. Como um grito de socorro, marquei minha sessão para 17h e sem titubear, fui. Foi a melhor decisão da minha vida porque a partir dali eu fiz algo que nunca antes tinha feito: cuidar de mim.

Eu nunca disse à minha psicóloga que queria mudar o significado da minha sexta-feira. Eu cuidava de mim às sextas-feiras. Eu era, talvez, um dos últimos clientes dela na semana. E aquele era o momento que eu mais aguardava chegar. Aos poucos, minhas sextas-feiras foram florescendo. Parece que uma luz tinha se estabelecido ali. E eu senti confortável para alterar o dia da minha sessão. Quando comecei a perceber que estava colocando significados ruins novamente na sexta-feira, resolvi que iria fazer algo de novo por mim. Peguei minha playlist “Noites de Sexta” no Spotify e botei pra rodar. Coloquei dois travesseiros confortáveis. Abri a janela. Coloquei o celular no carregador e puxei a cama para perto da tomada. Tomei um longo banho quente, hidratei meu cabelo e massageei meu corpo com óleo. Ali fiquei zapeando entre um app e outro, entre uma leitura e outra, até que dormi. E acordei no outro dia contente.

Repeti o ato algumas vezes. Minha terapia acontece em qualquer dia da semana. E eu não tenho mais um dia em específico para me sentir amarrado no desejo de nada fazer ou de me martirizar. Agora dias ruins acontecem a qualquer data. Assim como os bons. E tecnicamente, é muito difícil que um dia seja apenas “bom” ou apenas “ruim”, tendo um pouquinho de cada coisa nele. Por isso, aprendi que sim, devo comemorar as pequenas conquistas ao invés de esperar grandes conquistas. Assim como também devo chorar os pequenos percalços ao invés de cultivar memórias ruins como quem tem uma horta no quintal.

É melhor não ter expectativas?

A minha sexta-feira foi ressignificada. E a sua?

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

Comente! Aqui é o lugar!