Categorias
Política

Eu sei que você está decepcionado com seu voto, mas não abandone a democracia

Esse é um texto para os brasileiros que votaram 17 na última eleição presidencial. Se você votou 12, 13, 45 ou qualquer outro número, não precisa ler. Se você votou 17 e não quiser ler, fique à vontade para fechar o navegador. Mas se escolher ler, tenha em mente de que eu posso lhe machucar com o que vou dizer.

Esse é um texto para os brasileiros que votaram 17 na última eleição presidencial. Se você votou 12, 13, 45 ou qualquer outro número, não precisa ler. Se você votou 17 e não quiser ler, fique à vontade para fechar o navegador. Mas se escolher ler, tenha em mente de que eu posso lhe machucar com o que vou dizer.

Sim, eu sei que você está decepcionado com o resultado do seu voto. Eu sei que você só queria tirar o PT do poder. Você estava cansado de Dilma, Lula, Haddad, Duda Mendonça, José Dirceu e toda aquela “corja de comunistas”. Você estava cansado de ver políticos ganhando milhões num ano, sua família ganhando pouco e o professor de seus filhos sendo mal valorizado. Eu sei que você estava escandalizado com o tanto de dinheiro que saiu da Petrobras e foi para os bolsos de executivos de empreiteiras e políticos. Sei também que você queria algo novo para este país. Sei que suas intenções foram as melhores. Sei que você queria um governo que tirasse a carga tributária pesada para aumentar os empregos. Também acredito que você sabia que aquele Guedes da campanha, o posto Ipiranga, era um cara muito inteligente e tudo que ele prometia ia se cumprir porque ele era um cara estudado e bem respeitado. Também sei que você achava que o presidente só falava coisas muito graves porque tinha “momentos de raiva”. Sei que você só queria um presidente que falasse muita coisa que você queria falar, que criticasse abertamente aquilo que você não estava conseguindo lidar – a mudança de valores comum às passagens de gerações, mas que insistiam em chamar de “inversão de valores”. Também sei que você tinha medo de que o nome de Deus ficasse cada vez mais esquecido, por isso era importante votar em alguém que falava d’Ele com frequência. Também sei que você quer o melhor para sua família, por isso era bom acreditar em alguém que falava com todas as letras que seu mandato seria pela “família brasileira”.

De verdade, se você chegou até esse ponto aqui, eu sei que tu é uma pessoa que votou porque não tinha em mente quem era e o que faria Jair Bolsonaro na presidência do nosso lindo Brasil. No máximo, você acreditou em algumas mentiras tipo a mamadeira de piroca e o kit gay, talvez por muita inocência mesmo. Eu aviso: dá tempo de desistir desse texto. Feche o navegador. A partir de agora pode doer mais.

Hoje é 30 de Março de 2020. O mundo inteiro enfrenta uma pandemia que se assimila (com sua curva de evolução) à pandemia de Gripe Espanhola em 1918. Países se fecham. Países tentam salvar empregos ao mesmo tempo que buscam isolar suas populações para evitar a infestação pelo coronavírus e o aumento do número de mortes da população, causando prejuízos emocionais inestimáveis e econômicos incalculáveis. Ministros, premiês, governadores, presidentes, até mesmo ditadores estão imbuídos de proteger as suas populações. Veículos de comunicação, hospitais, farmácias, empresas de logística, empresas do ramo financeiro, empresas de serviços de telecomunicações, entre vários outros ramos essenciais trabalham incessantemente para manter os serviços funcionando para as pessoas em suas casas. Supermercados, nos países aonde há maior gravidade, estão vazios. Pessoas estão compartilhando de suas dores, de suas dificuldades, tentando proteger as suas famílias. Brasileiros estão desesperados para saber como fazer para pagar suas contas e colocar comida na mesa nos próximos dias, já que o isolamento social defendido pela Organização Mundial de Saúde não tem data pra acabar.

Mas por algum motivo há alguém, mandatário do maior país da América Latina, quinto maior território mundial, sexta maior população mundial, nona maior economia mundial, que não dá a mínima para essa pandemia. Aqueles que conhecem um pouquinho de Psicologia já perceberam que tem algo de muito errado acontecendo. Ou Bolsonaro enlouqueceu, ou já o era assim, ou está fingindo estar louco.

Sim, aquele cara que você achava que ia dar um jeito no país está rindo na sua cara. Ele ri quando a Secretaria de Comunicação da Presidência, ignorando completamente as recomendações do Ministério da Saúde, convoca as pessoas a voltarem à normalidade com dinheiro público, endossando aquele patético discurso em rede nacional, aonde ele diz que o coronavírus não passava de uma “gripezinha” e que devido “ao seu histórico de atleta” ele não corria riscos. Ele ri quando seu Secretário de Comunicação mente descaradamente dizendo que não houve publicação da campanha em canal oficial do governo. Eu pude ver. Como vi e não printei, O Globo fez isso. A conta verificada “governodobrasil” compartilhou o post. Triste, no mínimo.

Mas ele também ri quando ignora todas as recomendações do seu próprio Ministro da Saúde e sai para dar um rolê pelos supermercados e feiras de Brasília. Ele também joga para a torcida, já pressionada, uma pergunta: “vocês acham que o povo tem que trabalhar ou não?”. Ao fazer isso, ele ri na cara minha e sua, mas também na cara do seu Ministro da Saúde, também já pressionado. Seu substituto, caso caia, de acordo com notas recentes de veículos de comunicação seria o também irresponsável presidente da Anvisa que acompanhou Bolsonaro na manifestação de 15 de março.

Como era de se esperar de alguém que considera uma pandemia algo simplório, apenas uma ‘gripezinha’, o presidente que 55% dos eleitores brasileiros elegeu participou de uma manifestação (uma aglomeração de pessoas, em especial, pessoas do grupo de risco) e endossou apoio à realização dela, mesmo contra todas as recomendações mundiais para que eventos públicos e aglomerações fossem evitadas. Sim, ele estava rindo de você, de mim, da ciência, de todo mundo. Porque ele se considera a lei, o centro de tudo.

Mas a autossuficiência, autociência e idiotice do presidente é tanta que ele ignora o relatório da sua própria agência de inteligência que o avisou: o coronavírus vai matar 5.500 pessoas em 15 dias se medidas não forem tomadas. Continuando a saga: o presidente resolveu inaugurar as brigas de palanque de 2022 discutindo com Dória, governador do Estado de São Paulo, maior economia do país, em meio à crise de saúde pública. E por fim, não esgotando os assuntos, podemos querer desver Bolsonaro insultando os jornalistas que faziam seu trabalho sob chuva, na porta do Planalto, e desfazendo de seu trabalho informativo.

Bem, pode ter doído mostrar isso para você. Mas dói mais o que se segue. Por detrás de todos esses desencontros dentro do próprio governo, há uma plataforma incapaz de ser sustentada. Bolsonaro só consegue aprovação de seus projetos e suas reformas quando faz o troca-troca de emendas (finalmente ele aprendeu que o presidencialismo de coalizão funciona assim). Segundo, Bolsonaro não tem partido mais. Pior ainda: resolveu criar um pra si. Eu sei que você está decepcionado, pois achava que o presidente que elegeu iria governar e não querer jogar o jogo político só pra si, mas é mais importante que você tome consciência de alguns pontos fundamentais antes de continuar endossando a guerra política que o país vive.

É preciso tomar cuidado com o movimento separatista. Ao se isolar completamente de governadores, prefeitos, deputados e senadores, o presidente cria uma situação propícia para que o protagonismo do governo federal perca força. E aí é mais lenha na fogueira de quem defende dividir o Brasil em dois – em especial aquela galera de uma certa região que já se considera outro Brasil. Caso o movimento ganhe forma, Dória seria o principal favorito para o bloco de Estados do “Sul-deste”. No bloco dos Estados do “CentroNorDeste”, Helder Barbalho. Fragmentar território em tempos de crise é criar guerra. E guerra mata muito, além de encher os bolsos de quem já tem muito.

É preciso tomar cuidado com o ataque à imprensa. Se você endossa ataques contra a imprensa, te pergunto: quando você estava do outro lado (era oposição ao governo), o papel da mídia não lhe era importante para saber o que acontecia de ruim dentro do governo? Ora, é necessário ponderar com o mínimo de bom senso. Além de tudo, endossar palavras preconceituosas do presidente contra jornalistas só faz com que nós – em atividade ou não – estejamos ainda mais prontos para nos defendermos dessas acusações sórdidas. A imprensa livre é um pilar da democracia.

É preciso tomar cuidado com a ausência de alternativas. Em 2022, não temos alternativas a Bolsonaro. Você, que já está decepcionado, não quer mais votar nele, mas também não encontra alternativas. Pode ser que o voto útil se manifeste de novo. Logo, a necessidade de uma reforma política é novamente crescente. A esquerda não possui, até o momento, uma coalizão. A direita não tem um substituto para Bolsonaro. E o centro, que nunca está preocupado em ganhar a eleição, continuará o mesmo. Até quando? Vamos esperar chegar? E após as eleições municipais, como vai ficar a fragmentação geral do cenário político? Um recado: assim como não deverão ouvir Bolsonaro, não ouçam Ciro Gomes (sic), aquele em quem votei em 2018.

É preciso tomar cuidado com o impeachment. O momento é de crise política, mas independente dela, impeachment é instrumento de destituição para CRIMES! Apesar de ser totalmente contra o impeachment de Dilma Rousseff, acredito e reafirmo sempre que possível: o devido processo legal foi respeitado. Por maior que tenha sido a instabilidade causada, foram respeitados os ritos constitucionais. Já num eventual impeachment de Bolsonaro, devido a gravidade do seu posicionamento e às convulsões sociais que podem surgir a partir de um pedido aceito, o processo legal poderá ser viciado ou mesmo não respeitado. Não é ser lunático dizer que Bolsonaro pode sofrer até mesmo uma deposição. Acuado, ele se mostra colérico. E como Sun Tzu ensinou em “A Arte da Guerra”, “aquele que não exercita a previsão, mas faz pouco caso de seus oponentes seguramente será capturado por eles”. Portanto, por favor, não estimule discussões sobre um impeachment se não houver crime que o justifique. É um mal para o país.

Eu sei que você está decepcionado com seu voto, mas não abandone a democracia. “A democracia é a pior forma de governo, à exceção de todos os outros já experimentados ao longo da história”, disse Wilson Churchill. Continuemos verificando o que o presidente tem dito, estimulando a equipe técnica, batalhando por novas frentes que garantam direitos e, claro: fiquemos em casa. Ao Bolsonaro você nada deve. Nem a mim. Nem a Lula. Nem a ninguém. Siga seu caminho, escolha com consciência e sem inocência na próxima. A democracia agradece.

Capa: Sérgio Lima/Poder 360/Reprodução

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

Comente! Aqui é o lugar!