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#Masculinidade: machismo não é coisa de homem

Machismo não é coisa de homem. Machismo é coisa de moleque. É coisa de gente tosca, babaca. Falo isso porque eu tenho ainda traços machistas. Eu lido com isso todos os dias e luto para me tornar alguém melhor. Às vezes, coisas tão simples que faço naturalmente são produto subconsciente de um entendimento machista.

No terceiro texto da série #Masculinidade, vamos chegar ao fim do texto e gritar “machistas não passarão”. Eles não devem passar, mas acabam passando. E muitas vezes, de geração em geração. O trato aqui é o seguinte: se você é homem, não passe esse texto sem tomar uma atitude de revisão de suas atitudes.

O que é o machismo? É o comportamento que entende que papéis são exclusivamente masculinos e/ou exclusivamente femininos, não permitindo a existência de uma noção de igualdade de direitos e deveres devido à condição biológica do ser. Neste comportamento, cria-se um ambiente de opressão, propício para casos de violência contra a mulher, objetificação do corpo, preconceito contra gêneros, etc.

Lembre-se: aqui não estamos falando de entender que o masculino e o feminino têm características diferentes, mas sim de formular um entendimento que coloque o masculino como “superior” ao feminino. Esse comportamento, inclusive, pode ser reforçado por mulheres que se encontram em posição de subserviência em relações machistas de poder – seja no trabalho, na família, na escola, etc.

Um prato cheio para os machistas é o legado familiar. Aquela história de “na minha casa mulher não pode isso ou aquilo” acaba por perpetuar esse comportamento nos filhos, netos, bisnetos e assim por diante. O machismo acaba por ser passado de geração a geração. E podemos também considerar que o machismo é cultural e estrutural na sociedade brasileira, embora tenha sido combatido com mais força após a virada do milênio com cada vez maior emancipação da mulher no meio político, cultural, acadêmico e familiar. Ainda há um longo caminho a trilhar, mas ele já começou a ser percorrido.

Machismo não é coisa de homem. Machismo é coisa de moleque. É coisa de gente tosca, babaca. Falo isso porque eu tenho ainda traços machistas. Eu lido com isso todos os dias e luto para me tornar alguém melhor. Às vezes, coisas tão simples que faço naturalmente são produto subconsciente de um entendimento machista. As mulheres que já passaram por minha vida, em especial as que trabalharam comigo, viram o quanto isso fazia mal à elas e ao próprio andamento do trabalho. Mas obviamente, só podemos lidar com aquilo que conhecemos. Como conheci esse meu lado, continuo lidando diariamente com isso e tentando mudar aquilo que está ao meu alcance.

Se você, homem, que lê este texto acha que tem traços machistas, esse é um primeiro passo. Reconhecer é fundamental. Agora é hora de tratar isso. É hora de gritar para si mesmo todos os dias que machistas não passarão. Te recomendo três exercícios para começar a desfazer o modo machista de ser. São ínfimos, pequenos, mas começará a mexer com suas emoções e te fará repensar o quanto ser machista é ruim e o quanto o feminino tem seu poder de ação em nossa vida e devemos ser gratos ao invés de submetê-lo à escravidão:

  1. Peça a uma mulher que você conheça para fazer uma massagem nos pés dela. Coloque água quente numa bacia e sal grosso. Pegue uma toalha, um creme e um talco com cânfora. Mantenha os pés da mulher dentro da bacia por 1 minuto. Massageie por 5. Seque-os. Faça mais massagens, por pelo menos 2 minutos. Passe creme. Massageie mais. Passe o talco de cânfora. Agradeça à ela a oportunidade que ela te deu.
  2. Pegue uma pia cheia de vasilhas cujo você não foi o responsável por sujar e lave. Inteira. Panela a panela. Garfo a garfo. Limpe tudo, tire o lixo. Deixe como zero. Sem pressa. Ao finalizar, peça que a pessoa que comumente lavaria aquelas vasilhas te afirme como ficou o serviço, com sinceridade. Não espere agradecimentos nem elogios. Se eles vierem, lembre-se: você não fez mais que sua obrigação, mas é bom ter um feedback positivo.
  3. Combine de sair com uma pessoa do sexo feminino e peça para ela pagar para você o seu lanche e não diga que você devolverá o dinheiro. Combine antes. Não leve dinheiro nem cartão. Vá realmente confiando que aquela pessoa vai bancar o seu lanche. No dia seguinte, agradeça essa pessoa por ter pago e pergunte se ela quer que você a reembolse.

O primeiro ato te ensinará a respeitar o descanso da mulher e aceitar que, se ela te faz bem, você também precisará retornar isso para ela. O segundo ato te ensinará que não existe papel de homem e papel de mulher, há competências que podem ser desenvolvidas e, cá pra nós, lavar vasilhas até uma criança sabe. O terceiro ato te ensina a depender da mulher, a respeitar o direito dela de bancar a saída e inclusive de dizer “não tenho dinheiro”. Esses três atos são um exercício temporário para movimentar suas emoções. Algumas coisas podem ficar, outras vão sendo ajustadas. Cada família, cada relacionamento tem uma forma de coexistir.

Machismo não é coisa de homem, repito. E machistas não passarão. Busque ajuda. Até o próximo texto.

Documentário O silêncio dos Homens

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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