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Masculinidade

#Masculinidade: o masculino dentro do homem

Como o espaço de um texto é pequeno demais para desenvolvermos todas as possibilidades dessa conversa, me aterei a três temas, correlacionados, e diga-se de passagem, tabus: força, compromisso e sexo.

Estamos do meio para o fim. Essa série de textos sobre #Masculinidade vem trazendo aspectos da personalidade masculina e, hoje, vamos falar sobre o masculino dentro do homem. Como o homem se relaciona consigo mesmo? Como suas características biológicas e socioemocionais são positiva ou negativamente afetadas? Por que nos calamos diante de tanta volatilidade de sentimentos? Por que mentimos sobre nossos dramas, rejeições, medos e incompreensões? Te convido a pegar um café, um refrigerante, um chá ou qualquer outra coisa que lhe deixe tranquilo e ler esse texto com o coração aberto.

Relacionar-se consigo mesmo é um desafio tanto para homens quanto para mulheres. Elas saem na frente porque sabem e praticamente nascem desenvolvendo suas características e competências afetivas com muito mais liberdade e autonomia que nós. Homens tendem a ser um pouco mais difíceis de se relacionarem uns com os outros e isso é um retrato do relacionamento consigo mesmo.

O masculino, como vimos na postagem anterior dessa série, tem pelo menos cinco características (poderes) muito fortes em si, mas não restritas nem finitas: objetividade, velocidade, senso de risco, zelo e senso de manutenção. Esses poderes podem ser desenvolvidos também em mulheres.

Mas como nós, homens, lidamos com tudo isso? É fácil falar sobre isso? Do lado daqui da tela, escrevendo, há um homem (talvez um menino) que busca todos os dias explorar cada dia mais do seu interior, se descobrindo e se redescobrindo. Do lado daí, eu não sei em que passo você está. Mas se você já começou a pensar sobre si, esse é um exercício importante. Não é necessário falar, de primeira. Mas questionar-se é importante.

Como o espaço de um texto é pequeno demais para desenvolvermos todas as possibilidades dessa conversa, me aterei a três temas, correlacionados, e diga-se de passagem, tabus: força, compromisso e sexo.

Força

Quem aqui nunca disse ser mais forte que uma mulher, que atire a primeira pedra. Que atire a primeira pedra também o homem que nunca perdeu uma lutinha para uma mulher. Que a pedra venha daquele que nunca viu uma mulher fazendo algo que ele jamais conseguiria suportar – tipo uma cólica menstrual.

Temos um conceito babaca de força. Infantil, talvez. Não sei quem colocou isso na nossa cabeça. Mas sei que nós não precisamos ser os mais fortes nem tampouco aguentar muito peso. Ah, e também não precisamos ser fortes emocionalmente quando “ser forte” significa não expressar ou não demonstrar fraqueza. Porque é quando assimilamos esses conceitos babacas de força que nos tornamos… Fracos.

Um exemplo bacana pra sintetizar é o seguinte. Tem homem – e eu já fui moleque assim – que fica com uma garota e a ilude com sua incapacidade de “largar o osso” ou assumir algo sério. Muitas vezes rola todo um jogo de interesses, de ciúmes, de comportamentos abusivos. Tudo isso para esconder uma simples, dura e nua verdade: ele não tem confiança em si mesmo, portanto, precisa usar de mecanismos para continuar mantendo aquela garota ao seu lado – mesmo que demonstre o contrário.

Agora pensa comigo: por quê? Por que o homem faz isso? Porque ele administra o conceito de força com a ideia de que forte é o que “tem”, o que “mantém”, o que “manda e desmanda”. Mas o que ele esconde é que só “tem”, “mantém”, “manda e desmanda” porque usa de ferramentas e táticas desleais e que lhe custarão caro algum dia. Não porque é. E essa é a diferença maior: por insegurança, demonstra ter uma força que não tem só para provar, não se sabe para quem, que tem essa força.

Sim, se você é mulher e está lendo esse texto, saiba que a gente é bem burro quando a gente entra nesse mundão de masculinidade ferida que está por aí. Pra conseguir melhorar um pouquinho e ficar mais inteligente que nem vocês, é preciso viver, sofrer, chorar, se abrir e seguir pelo caminho que muitas de vocês (não todas) passaram. A boa notícia é que está todo mundo no processo. E por isso, tem muita gente madura ajudando outras. E muita gente sendo ajudada como eu.

Compromisso

Ouvi de muitas pessoas dizendo que há muito homem que não quer compromisso com nada. Também já ouvi de homens o mesmo sobre mulheres. Desde que isso seja passado a papel claro, não há problema nenhum. Cada um escolhe como quer viver e assume as dádivas e as consequências de seu modo de ação. Isso vale indefinidamente para tudo.

O homem, no entanto, carrega em si um certo senso de credibilidade na área dos negócios. Talvez por sua voz, que tende a ser mais grave, ele impõe mais respeito em negociações e no trato um a um. Um aperto de mão entre homens tende a ser supervalorizado na mídia, quando se trata de um acordo entre Estados ou Nações. O compromisso é uma característica que vem junto com o masculino justamente devido ao seu senso de manutenção e de zelo pela imagem apresentada diante dos seus pares humanos na nossa sociedade ocidental, organizada por instituições.

Comprometer-se é se colocar dentro de uma promessa. É estabelecer-se como parte cumpridora de uma promessa (objeto). Se o compromisso é cumprido, nada mais se fez que a obrigação. Se é quebrado, gera-se frustração. Assim funcionam os compromissos. Em termos relacionais, o compromisso precisa ser claro. Em termos escritos, também.

A composição do que é e do que não é. A composição do que se pode e do que não se pode. São regras simples, muito facilmente assimiladas pelo masculino. Tende-se, portanto, a crer que homens são habitualmente mais ágeis para lidar com limitações legais. Se pode, ok. Se não pode, ok. Se é, ok. Se não é, ok. Essa dicotomia entre sim/não esclarece o modelo de pensamento masculino que tende a ser mais objetivo.

Entretanto, o mundo está em evolução e as pessoas que o compõe também. É exatamente pela evolução humana e pela forma do raciocínio filosófico dos seres humanos ter agregado novas teorias e formas de se estabelecer na sociedade que temos um novo desafio: encontrar os novos rumos, com tal flexibilidade, nesse novo mundo que nos é apresentado.

Caso não busquemos nos alterarmos, estaremos passando pano para a síndrome de Gabriela. Aquela do “eu nasci assim, eu cresci assim, vou morrer assim”… Isso é anticientífico, anti-humanista, antievolucionista, é imbecilidade. Continuar sendo quem éramos sem ao menos nos propor a experimentar os novos caminhos e jeitos de ser é danoso. Por isso, sim, está tudo bem não saber se o compromisso vai ser cumprido. E está tudo bem não prometer ou não se comprometer-se. Deixado de forma transparente, novas formas de se relacionar em comunidade aparecem. E nós precisamos aceitar isso antes que nos sintamos deslocados e depressivos.

Sexo

Confesso ter pouca bagagem para falar de sexo. Tanto pelas raras experiências quanto pela ínfima qualidade delas, sobretudo para minhas parceiras. No entanto, esse é um assunto proibido entre nós homens. E você sabe por que? Porque temos medo de assumir que não somos aquilo que idealizamos ser.

Eu não duvido de que hajam homens muito bons de cama, que levem uma mulher ao orgasmo com louvor, também não duvido de mulheres que sejam completamente satisfeitas na cama por um homem sem que este tenha que ser um ator pornô. Mas, sinceramente, não é 100% do mundo que é assim, né?

Com certeza tem muita gente ruim de cama, que sofre de disfunção erétil, que broxa na hora “h”, que nunca viu uma mulher ter um orgasmo, que não sabe transar em várias posições, que nunca viu uma mulher completamente satisfeita em seus braços. Sabe por que essa gente não aparece? Por que nós, os protagonistas dessas histórias, temos vergonha de assumi-las para nossos pares.

Preferimos contar mentiras e experiências nunca vividas do que assumir que não somos tão bons assim. E, sinceramente, não temos espaço de discussão para isso. É meio que todo mundo lutando. Cada um por si. Cada um preso no seu medo e na sua redoma. As igrejas, as escolas, os teatros, as faculdades, os centros de assistência social, nenhuma dessas instituições têm espaços de discussão agradáveis para que possamos nos revelar. E aí, sem esses espaços, e já com essa cobrança intrínseca e machista de sermos “os caras” na cama, nos frustramos de forma absurda e tentamos curar isso com mentira.

Uma ala de pessoas que leem esse texto, talvez, pensem que sexo não deve ser discutido na escola. Eu sempre pergunto: por que não? O que há de tão errado com o sexo? Algo que tendemos biologicamente, que é natural, por que não pode ser discutido? Por que devemos cuidar apenas das nossas meninas para que elas não engravidem (como se esse fosse o único ~problema~) e não podemos cuidar dos nossos meninos para que eles não sejam irresponsáveis e nem carreguem sobre si um peso desnecessário? Por que não dizer aos nossos meninos: olha, aquele seu tiozão que fala que você precisa “passar a pistola” na sua coleguinha de 12 anos pra “ser homem” é um irresponsável e você não deve acreditar nele em hipótese nenhuma. Ao invés disso, você deve procurar se conhecer e se aceitar para compartilhar de bons momentos com uma companheira quando estiver emocionalmente preparado para isso. Por que não conversar com nossos meninos sobre sexo?!

Confesso também que não tive educação sexual no tempo certo. O meu pai tentou, do jeito dele, me falar algumas poucas coisas. O agradeço por isso. Mas o resto, precisei aprender sozinho. Lendo. Em aulas. Perguntando. Sendo corajoso ao me aproximar de gente mais velha, madura e que sabia conversar sobre o assunto para lidar com minhas dúvidas. Em oportunidades na igreja que eu congregava. Sei tudo? Não. Sei o que basta? Não. Estou aprendendo. E é lindo aprender. É mais lindo ainda quando o desfrutar do sexo combina com respeito, paciência e uma das palavras mais importantes: prazer. Há muito sexo sem prazer. Há muito sexo com dor. Há muito sexo com remorso. Há muito sexo com dúvida. Sinceramente, ninguém merece. A conexão física é algo tão legal, não podemos deixar que cargas emocionais negativas se estabeleçam durante a relação sexual – e olha que eu não sou espiritualista nem coach quântico para estar falando isso.

Vamos encerrar por hoje?

No próximo e penúltimo texto da série, falaremos sobre o porquê de homens morrerem mais cedo. Será um texto importante para quem gosta de refletir sobre o quanto somos camicazes.

Fique com o documentário “O Silêncio dos Homens”. Se você gostou desse texto e sentiu que há necessidade de compartilhar fique à vontade. Lembre-se: é só se você quiser!

Documentário “O Silêncio dos homens”

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