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Comportamento

Sobre confiança no século XXI

O individualismo leva à redução da confiança. Só há um antídoto: se jogar. Se jogar no sentido de se conhecer melhor. Se jogar no sentido de abrir seu coração mesmo. Estabelecer relacionamentos bem resolvidos e com base em confiança pode ser difícil, num primeiro momento, mas é libertador.

Alguns dizem que perdemos a confiança uns nos outros no século atual. Eu tenho minhas discordâncias. Acredito que esse é um processo humano. Tendemos ao individualismo. O ambiente e as condições socioeconômicas acabavam por nos forçar ao espírito comunitário. Quanto menos estimulado, mais finito fica esse relacionamento em conjunto. E consequentemente, nos tornamos mais individualistas.

A questão é que confiança não é algo simples. Tem muito mais a ver com você do que com o outro. Todos nós somos uma espécie de casa. Como toda casa, temos um quintal, um passeio, uma cozinha, uma sala, um quarto, um banheiro, aquele quartinho de coisas antigas ou de materiais de limpeza, e talvez até tenhamos cantos inexplorados na nossa casa. É como se cada cômodo tivesse uma chave e nós entregamos as cópias das chaves para as pessoas a quem confiamos.

Algumas chaves, porém, têm menos cópias. E, pode confessar, tem algumas que a gente nunca fez cópia. Só tem aquelas duas originais. Às vezes você usa uma e a outra fica guardada no fundo da gaveta de meias esperando que um dia você se sinta tão confiante para entregar essa chave para uma pessoa. Para ter essa confiança, precisamos ter certeza de que a pessoa abrirá a porta, entrará, visualizará tudo, fará perguntas, sairá, trancará a porta e deixará a chave guardada com cuidado. Isso não é fácil.

Mas dá para encontrar muita gente que podemos compartilhar nossa casa. Como eu afirmei no início, confiança tem mais a ver com nós mesmos do que com o outro. É o quanto nos sentimos confiantes com nós mesmos e seguros de quem somos. Todos nós temos vergonhas escondidas que as telas das mídias sociais não transmitem. Todos nós somos ou já fomos maus em algum momento. Não existe vida perfeita. Não há inocentes. Todo mundo tem culpa, ainda que pequena, com maioria massiva das mazelas que nos acontecem.

Desde a minha infância, resido em Minas Gerais. O mineiro, em especial do Norte tem um vocabulário diferente do Centro e Sul, mas não tem diferença quando o assunto é desconfiança. O mineiro tende a não confiar de primeira. Mas quando confia, abre a casa, abre a vida. Eu não me adaptei 100% a isso, infelizmente.

Sou do tipo que conta as decepções amorosas até para o motorista do 99 app, mas que também tem suas chaves de cantos da casa escondidas. Consequentemente, tive dificuldades em estabelecer relações de confiança com pessoas de origem mineira até que passei a me conhecer melhor. Aí, acredito que isso deu um gás na relação de confiança, porque hoje eu tenho amigos mineiros em quem eu confio e eles também confiam em mim. Passei a não ter mais preconceito com a desconfiança, mas a avaliá-la sob o prisma da característica do indivíduo de uma região. Percebo, portanto, que não sou uma ilha e que posso me relacionar com várias pessoas, de vários Estados e manter a confiança viva.

E após essa viagem geográfica, retorno: o individualismo leva à redução da confiança. Só há um antídoto: se jogar. Se jogar no sentido de se conhecer melhor. Se jogar no sentido de abrir seu coração mesmo. Estabelecer relacionamentos bem resolvidos e com base em confiança pode ser difícil, num primeiro momento, mas é libertador. Vai por mim, tenha amigos. A vida é inconcebível sem eles. E é infinitamente melhor com eles.

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