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Um momento inesperado de reflexão

Hoje foi dia de constatar e autoreafirmar que meu coração está se alinhando, devagar, e com muita certeza de que há um caminho gigante para ser trilhado.

Os domingos são irresistíveis. Principalmente no fim da tarde e início da noite. É ali que a saudade aperta, os seus medos se manifestam, a ansiedade reaparece e os problemas parecem ser maiores que sua capacidade de enfrentá-los. É por isso que os domingos são irresistíveis, a menos que você decida ter algumas atitudes para enfrentá-lo ativamente.

No início dessa noite, após cumprir com parte da minhas obrigações na igreja em que congrego, me afastei por alguns minutos com um copo de água e me sentei num alpendre lateral, com os olhos fitos no céu e, por vezes, com um olhar vazio para a rua tão cheia e movimentada. Não há nada de místico em olhar para o céu nem tampouco de sentar-se e observar uma rua movimentada. Ao sentar-me, sem qualquer expectativa de que isso acontecesse, comecei a lembrar-me dos meus primeiros passos educacionais e das minhas primeiras conquistas enquanto pessoa.

Comecei a estabelecer uma linha do tempo mental e perceber quantas pessoas legais eu havia conhecido até hoje e quantas delas são minhas amigas. Companheiros de jornada que foram aparecendo à medida que passei por cada lugar. Lembrei-me do meu primeiro curso técnico, depois da faculdade em Paracatu-MG, logo em seguida lembrei-me do outro curso técnico, voltei a lembrar-me do meu ensino básico, da igreja que eu passei, da faculdade atual, dos eventos que fui em Goiás, dos amigos que se tornaram melhores amigos, dos companheiros de pedal que se tornaram amigos, dos chefes que se tornaram quase que segundos pais, enfim, tanta gente legal que eu vejo agregadas a mim ao longo do tempo. Algumas pessoas, inclusive, permanecem.

Comecei a ser grato a Deus (este é o meu Poder Superior, não sei como denomina o seu) por tudo isso. Por cada etapa que passei na minha vida. Pelos anos de desgraça e de “deserto” que me ensinaram a ser um pouco menos arrogante, menos egoísta, menos mimado e mais responsável. E também comecei a perceber que meu 2020 foi e está sendo uma loucura. E que é tão incerto o que pode acontecer no segundo semestre que eu só posso continuar seguindo diligentemente o que tenho proposto a fazer.

Esse momento reflexivo, memorial, revisional, enfim, foi importante para que eu notasse que minha bolha expandiu. Talvez você tenha uma concepção diferente de mim, mas eu não creio em pessoas fora de bolhas. A gente acaba tendo a nossa, cujas limitações são os nossos pensamentos, crenças e conceitos. Ao perceber que nos poucos anos que vivi tive a oportunidade de me tornar menos preconceituoso e mais aberto a ouvir o diferente, também percebi o quanto falta para deixar as bordas da minha bolha cada dia mais longe do ponto de origem, consequentemente, expandindo-a.

Talvez esse momento tão sensacional que vivi, sozinho, se iguale a alguns outros que já vivi nos meus fins de tarde de domingos nas fazendas dos meus então avós, na infância e, sobretudo, na adolescência. Sozinho, muitas vezes no curso do rio ou no meio do cerrado, eu pensava em voz alta ou ficava encarando o nada e pensando em tudo. Esse exercício sempre me fora muito positivo e sempre me levou à tomada de várias decisões.

Com minha juventude e com outras conjunturas, parei de ter esses momentos nestes locais em específico e passei a tê-los em outros lugares. Às vezes dentro de um carro, na imensidão de uma rodovia. Às vezes no meio de um trilha erma. Às vezes numa cachoeira, num rio qualquer ou numa serra. Às vezes, como aconteceu hoje, num ambiente mais urbano, barulhento e relativamente confuso.

Recentemente tive uma experiência muito boa de meditação, também na igreja em que estou congregando, e isso me fez lembrar dos efeitos positivos desses momentos à sós que carregamos. Eu já vinha fazendo-os há bastante tempo, mas intensifiquei-os. E os resultados têm sido positivos demais, pois a dinâmica de viver um dia de cada vez, de dar um passo com certeza ao invés de vários sem pensar, requer de nós um momento de quietude e solitude.

Apesar de parecer estranho, também dá para fazer isso junto de outra pessoa. Dá para ter quietude e solitude perto de outra pessoa. Desde que a outra pessoa entenda isso. É um modo bacana, inclusive, de não se sentir tão sozinho – presencialmente – depois que a reflexão acaba. Mas requer sensibilidade, silêncio e, sobretudo, respeito.

Esse é um dos motivos para eu ter escrito na série #Masculinidade sobre a necessidade de nós homens termos espaços de discussão e de escuta ativa. Somos tão silenciosos quanto às nossas emoções que isso vai causando danos irreversíveis no longo prazo. Ou quebramos isso, ou nossa geração vai continuar gerando homens com as mesmas falhas que nós.

Hoje foi dia de constatar e autoreafirmar que meu coração está se alinhando, devagar, e com muita certeza de que há um caminho gigante para ser trilhado. Avante!

Foto: Pixabay.com/Reprodução

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