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Reciprocidade e vulnerabilidade – uma reflexão sobre “Sinceramente”

Reciprocidade é sobre ter do outro uma troca similar ao que está sendo oferecido. Vulnerabilidade é sobre ser humano e demonstrar fraquezas e fortalezas perante o outro sem medo de que este faça mau uso desse acesso.

A primeira vez que saí com uma garota a qual estava conhecendo há alguns meses ela colocou “Pra você guardei o amor” de Nando Reis para tocar na playlist. Na segunda vez que saí essa mesma garota, ela colocou “Sinceramente”, de Cachorro Grande, para tocar no seu celular.

Na primeira vez, eu fiquei tão envolvido pelo momento que pedi a ela para me deixar em silêncio curtindo o momento – é uma música super romântica e fofa. Na segunda vez, eu fiz questão de mencionar para ela que nunca antes havia conhecido ninguém que gostasse ou conhecesse a banda Cachorro Grande e que havia sido marcante ela colocar exatamente a minha música preferida da banda naquele momento. Ambas as músicas falam sobre reciprocidade, porém a letra dos roqueiros é mais realista.

A música fala sobre se abrir com o outro, sobre honestidade, sobre sorte em encontrar uma boa pessoa, enfim, sobre reciprocidade e vulnerabilidade. Nós temos dificuldade em encontrar pessoas com quem nos conectamos com sucesso de alma e corpo – nesta ordem. Não é sobre pensar igual, é sobre ter algo tão estranho e maravilhoso no outro que não conseguimos decifrar, só deixamos acontecer e nos abrimos com esse outro alguém.

Reciprocidade é sobre ter do outro uma troca similar ao que está sendo oferecido. Vulnerabilidade é sobre ser humano e demonstrar fraquezas e fortalezas perante o outro sem medo de que este faça mau uso desse acesso. Ambas as características parecem ser raras, mas na verdade, só precisamos de um pouquinho de esforço para conseguirmos encontrar isso em nós e estabelecer isso em nossos relacionamentos de qualquer espécie, os tornando mais saudáveis.

Eu já escrevi aqui que nós somos uma casa e tem alguns cômodos que só entregamos a cópia das chaves para quem realmente confiamos. Cachorro Grande, em maestria, crava que diante dessa vulnerabilidade, “nada é em vão”. A confiança, ora estabelecida para se abrir com o outro, vem muito antes do “charme”, do “groove”, do “papo” e do “perfume”. Parece louco e fora de ordem, mas sim, a música está trazendo uma ordem com a qual me identifico muito. Não sei me relacionar em profundidade com alguém sem me tornar amigo antes ou pelo menos sobre contar detalhes sobre mim que julgo importantes. Tenho uma amiga que diz que não conseguimos namorar em longa data com amigos – eu discordo dela, mas a ideia por ela defendida segue tendo validade até o momento.

O bonito de uma relação que funciona é aquela linda e maravilhosa conexão que, com um toque ou um olhar, o outro já sabe exatamente o que se quer ser dito ou o que se quer ser ouvido. Neste aspecto, a música traz “eu sei a palavra que você deseja escutar”. E complementa: “você é o mistério que eu vou desvendar”. Sim, é tão contraditório quanto nós somos. É relativamente fácil aprender o outro quando os dois estão dispostos, mas ainda assim cada um de nós é um mistério que, dia após dia, vai sendo desvendado. E vai por mim, é um processo bom demais!

Acho que você já está convencido de que essa é uma música que vale escutar, né? Pois é. Meu pai e meu irmão estão convencidos de que essa música me representa, tanto pela voz do vocalista principal, tanto pelo conteúdo. Eu espero que ela entre na sua playlist, se você gostar. Fique com a música:

Capa: Letras.mus.br/Reprodução

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