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Espiritualidade

Eu creio no amor que constrange

Não o que faz passar vergonha, não o que faz o outro se sentir mal, não o que julga, mas um amor que causa constrangimentos por sua profundidade.

Prefácio

Eu creio no amor que constrange. Não o que faz passar vergonha, não o que faz o outro se sentir mal, não o que julga, mas um amor que causa constrangimentos por sua profundidade.

Penso que Deus, na sua mais infinita bondade, nos concede segundas chances diuturnamente. E se isso não é um ato de genuíno amor, não há o que se dizer sobre a forma que Ele faz isso.

Ele é um Deus de liberdade. De espaço. De cuidado. Mas é um Deus que abraça. Nos abraça enquanto estamos sujos. Nos abraça como estamos. Não nos faz pedidos nem tampouco pede que façamos concessões. Apenas nos abraça.

Entretanto, para o abraço amoroso de Deus, precisamos dar um passo porque Ele, sendo um Deus de liberdade, não nos invade. Apenas um. Porque “estando ainda longe, o Pai o vê e cheio de compaixão, correu (…), abraçou e o beijou” (Lucas 15:20, adaptado). Ele corre porque tem compaixão, ele abraça porque é bondoso e, indistintamente, nos espera porque é paciente.

Nas minhas estradas pela vida, tive uma caminhada religiosa, um tempo confuso, outro tempo intenso, um tempo afastado, e agora, creio, vivo um tempo de recomeços.

Devagarinho, com cautela, evitando cair nos equívocos de antes. Mas com certezas aplainadas pela experiência anterior. Nenhuma religião é 100% porque é um sistema humano.

E o Deus em que creio não existe, Ele É. “Pois nele vivemos, nos movemos e existimos” (Atos 17:28).

Também nas minhas estradas pela vida, descobri que há algo nesse amor divino que, embora não seja fácil, é possível de ser aplicado em qualquer relação, amorosa ou não.

Há dois pilares no amor: paciência e bondade. E duas máximas: o amor não gera medo (1 João 4:18); o amor não tem a ver com quem o recebe, mas com quem o oferece (1 Coríntios 13:5).

Paciência permite entender que “há tempo pra tudo” (Eclesiastes 3). Bondade permite entender que “Deus sonda/esquadrinha os nossos corações” (Romanos 8:27), portanto, “se os olhos forem bons, todo o corpo será bom” (Mateus 6:23).

Que O Amor nos constranja. Todos os dias.

Filhos pródigos

A Bíblia possui uma história registrada, atribuída a Jesus Cristo, que é fundamentalmente importante para o cristianismo. É basilar a existência dela para compreender a atribuição da divindade cristã. É a história do filho pródigo.

Em resumo, um filho pede a seu pai a separação dos seus bens como herança e resolve sair de casa para desfrutar das suas riquezas. Ele gasta tudo, cai em desgraça e passa a sobreviver pedindo trabalho e comida, em regime de servidão, porém nem mesmo assim consegue. Então ele decide preparar um discurso de arrependimento e voltar para casa vislumbrando ser tratado não mais como filho, mas sim como escravo. Quando estava a caminho de casa, seu pai o vê, corre, o abraça, beija e faz uma festa, o restituindo o status de filho.

Eu quero te convidar a afastar o seu pai e sua mãe terrenos dessa história e a pensar na paternidade espiritual. Se você é cristão, talvez já tenha se perguntado o porquê a Bíblia traz muitos versículos sobre nossa paternidade terrena que, à luz de outros, precisam ser quebrados. Isso se dá porque nossos pais terrenos, como nós, são imperfeitos, humanos e pecadores. Alguns deles abusam, criticam ou manipulam os seus filhos para que suas vontades sejam realizadas. Portanto, se você realmente quiser entender a profundidade desse texto, precisará colocar nessa história o seu Pai espiritual. Um pai que o concede liberdade, antes de tudo.

Uma das minhas maiores dificuldades no início da minha vida adulta, na transição entre adolescência e a juventude, foi conseguir perceber que eu não poderia endeusar o meu pai terreno nem a minha mãe. Pelo contrário, deveria percebê-los como autoridade, mas em justa medida também como humanos que nem eu. Afastar-me da paternidade e maternidade terrena foi fundamental para que hoje eu tenha uma concepção mais íntima de quem Deus é na minha vida e de que nada pode guiar o meu coração com força de ser o meu deus, nem mesmo meus pais.

Creio que quando eu for pai, se assim o for, terei dificuldades também para lidar com meus filhos, entretanto quero me esforçar para que eles saibam que precisam amadurecer emocionalmente e se tornarem autônomos. Que, se em algum momento, eu manipulá-los eles devem agir para que essa manipulação não faça efeito e ainda trazer à luz, em amor, o meu erro. Também quero repassar à eles minhas crenças, mas de modo que eles próprios possam ter suas experiências íntimas, preferencialmente aquelas mais dolorosas e que ensinam pra nunca mais esquecermos.

Outra coisa interessante de se perceber é que, hoje, em pleno 2020, a década em que nos voltamos à preocupação com a saúde mental, ainda há uma grande disformidade sobre o papel do homem e da paternidade. Ainda se vê o homem pai como o bravo, o impaciente, o intolerante, o corretor, o justiceiro e o insensível. Entretanto, que Deus nos livre disso para sempre, porque o pai é amoroso, bondoso, sensível, tolerante e paciente. Gosto de perceber que tento cultivar a sensibilidade em mim, ainda que sob a forma de vulnerabilidade. Mas é uma característica necessária para me tornar melhor a cada dia.

Se o papel da paternidade anda invertido, o papel da maternidade também. Eu tive oportunidade de conhecer os dois mundos: uma maternidade apoiada nas características que originalmente seriam paternas e uma maternidade apoiada em suas próprias características socioemocionais. Não precisa sequer dizer o quanto as coisas fluem melhor quando os papéis são bem desenvolvidos, conforme as competências pessoais do indivíduo, né?

Acho que, talvez, seja por isso que amo trabalhar com mulheres me gerenciando – acho que elas estão no papel certo, executando e exercitando-se para a maternidade. Também amo conhecer mulheres que tomam decisões, são assertivas, um pouco autoritárias (no modo mais sensível de dizer) e que sabem se posicionar com clareza, afinal, tendo consciência do papel de cada um numa relação fica tudo mais fácil.

Então, já deu pra você perceber que esse assunto mexe comigo, mas antes de encerrar esse bloco, quero te fazer um convite. Eu participo de uma religião. Não sei você. Mas eu já tive momentos que estive fora do círculo religioso, entretanto, conectado com Deus por meio da oração e da leitura bíblica. Em outros, estava dentro do círculo religioso, mas apenas por praxe, sem conexão alguma. O meu convite é para que, caso você esteja desconectado com Deus, se reconecte.

E pra reconectar-se não tem muito segredo. É querer. Dar um passo. Porque Deus dá o resto. Pra dar esse passo, fale com Ele. Não tem fórmula, apenas fale com Ele. Ele te escuta. Porque Ele é.

Capa: Pixabay/Reprodução

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