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As tempestades da mudança de mentalidade

Toda mudança da forma como pensamos é uma mudança e tanto. E pode acreditar que a tempestade vai passar. E quando ela passar, o ideal é ficar com quem te abraçou lá no início dela e continua gostando de você como se tornou.

Metamorfose. Essa é a metáfora que poderá nos definir ao longo da vida, sobretudo quando tem a ver com nossa mentalidade, isto é, com o que pensamos, como agimos e o que cremos. Há quem diga que as três principais decisões que uma pessoa precisará tomar na sua vida será com quem irá se unir, qual profissão seguirá e qual crença em divindade irá exercer. Gosto, porém, de lembrar sempre que as pessoas mudam e com elas mudam também seus sonhos, aspirações e crenças.

Cada mudança traz em si um conjunto novo de informações. Se passamos a enxergar que beber cerveja não faz mal e dantes enxergávamos que sim, o seu cérebro começará a fazer uma série de ajustes, incluindo a forma como vê outros consumidores de bebida, o espaço que a compra de cervejas terá no seu orçamento bem como quem irá lhe acompanhar nessa nova jornada.

Usei o exemplo da cerveja porque somos um país muito amigo da cerveja e quase ninguém acha que cerveja faz mal. Se quiser ser mais radical, como por exemplo, adotar o veganismo, fique à vontade para fazer a comparação que desejar. Cada mudança de mentalidade traz uma nova lente sob a qual você verá o mundo.

Entretanto, para que possamos mudar a forma como pensamos é preciso um gatilho ou uma instrução mais detalhada, uma reeducação, talvez até mesmo uma “evangelização”. É isso que os coachs tentam fazer. É isso que os psicólogos nos ensinam a fazer, com autonomia.

Vencer crenças conflitantes, tomar decisões por vocação e análise crítica e não por conveniência e emoção, encontrar propósito na vida são algumas das tarefas humanas que todo mundo começou ou vai começar, porém nem todos terminarão. Muita gente desiste no processo porque a zona de conforto é, de fato, confortável e segura. E num mundo tão volátil e incerto, não está errado procurar segurança. Entretanto, para mim, aos 24 anos, vejo que ainda não está na hora de me aposentar das transformações.

Essas mudanças influenciam o modo como nos relacionamos com as outras pessoas. Mentes diferentes tendem a ter um choque, sobretudo quando o assunto é a imagem que temos de nós mesmos. Certa vez conheci uma moça muito bonita, inteligente, aventureira, educada, despojada e carinhosa. Ela era exatamente assim comigo quando saíamos. Quando eu falava que ela era tudo isso, ela jamais aceitara. Ela tinha uma autoimagem diferente daquela imagem que eu havia visto e tentado traduzir para ela.

O contraponto é que ela também me elogiara com vários adjetivos e quando perguntei quais os defeitos ela havia notado em mim, ela disse que ninguém vinha com defeito. Eu discordara, pois para mim, somos imperfeitos. Até hoje não sei qual de nós dois estávamos certos. Pode ser que tanto ela quanto eu estávamos certos, porque embora de ambos procediam verdades sobre como enxergávamos um ao outro, as nossas lentes não eram tão gentis quando olhávamos para nós mesmos.

Esse choque de informações que vai do externo para o interno pode ser comparado a uma tempestade. Não há tempestade que nunca acabe. Uma hora ou outra, paramos de nos ver pelos espelhos embaçados da vida e passamos a ter uma imagem mais coerente de nós mesmos, como diria um amigo pastor que me aconselhara e me acompanhara por anos nessa minha busca por uma autoimagem realista e coerente.

Não que eu julgue hoje me enxergar exatamente como sou, mas se olho para dois, cinco anos atrás, estou bastante diferente. Até que isso se consolidou, passei por várias crises de identidade, vislumbrei uma imagem errônea sobre mim mesmo e comprei uma imagem, por um tempo, que não era a minha. Essa foi a minha tempestade que acabou me deixando filosoficamente mais crível, emocionalmente mais vulnerável e, consequentemente, mais humano.

Toda mudança da forma como pensamos é uma mudança e tanto. Merece ser levada em consideração. Merece ser tratada com respeito. Mas vai além: merece ser entendida. E pode acreditar que a tempestade vai passar. E quando ela passar, o ideal é ficar com quem te abraçou lá no início dela e continua gostando de você como se tornou.

Porque acaba que, na vida, todos mudamos. E quem não muda, não está fazendo jus ao processo evolutivo nem tampouco à característica mais extraordinária plantada em nós: o raciocínio crítico. Te desejo que mude todos os dias para melhor!

Capa: Pixabay/Reprodução

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