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Manifesto pela presunção de ignorância em espaços públicos

Por favor, coloque placas! Indique locais! Indique atividades! Posicione alguém para responder dúvidas ou demandas! Presumir que alguém sabe tudo é muito pretensioso. Presumir que alguém não saiba nada é muito respeitoso.

Há muito tempo gostaria de trabalhar esse tema aqui no blogue, mas tive grande dificuldade em conseguir conectá-lo com minhas experiências pessoais e com o que pude sentir no dia a dia. Hoje sinto segurança para trazê-lo em uma conversa mais próxima de um manifesto do que de uma discussão. É preciso presumir a ignorância nos espaços públicos.

Por onde passei, profissionalmente falando, você encontrará uma pegada muito clara: plaquinhas nas paredes com setas, indicativos, nomes de salas e setores. Pode visitar qualquer uma das instituições as quais passei trabalhando, é bem provável que elas ainda estejam lá. Isto porque uma vez acessível a informação, a falta dela gera inquietação.

Se fiz e faço isso por onde passo é por um único motivo: eu presumo a ignorância do outro porque gostaria que presumissem que eu também sou ignorante nos espaços públicos em que vou. Odeio chegar num espaço público qualquer e não ter indicativos do quê e onde estão as coisas. Por exemplo, banheiros. É desnecessário dizer que banheiro é essencial em qualquer espaço. O que custa ter plaquinhas indicando, com setas, em que lugar fica o banheiro?

Apesar de que você pode dizer: mas é só perguntar, ué! Sim, é só perguntar, mas não seria mais fácil entregar autonomia às pessoas, reduzindo assim a necessidade de contatar outrem? Não seria mais fácil usar a principal característica do cérebro humano que é o raciocínio e facilitar a nossa vida? É por isso que defendo que as coisas estejam escritas, sinalizadas, o mais claramente possíveis porque há uma pessoa ignorante e eu acho que não sou a única delas neste sentido.

Em outubro de 2019, tive a oportunidade de presidir uma comissão organizadora de um evento de ciência e tecnologia na entidade em que eu trabalhava. Para este evento esperávamos um público, ao longo da semana, de 500 pessoas. Como eu era o único funcionário CLT na comissão (os demais eram horistas), a execução e coordenação de equipe de voluntários ficou comigo.

Lembro-me que no levantamento de mão de obra necessária para realizar o levantamento, coloquei duas pessoas para fazer recepção em cada dia do evento, mesmo tendo espalhado com o apoio de uma estagiária cerca de 50 placas indicativas de atividades e locais. Além da informação escrita, é bom ter alguém que possa ajudar, que possa indicar, orientar, tirar dúvidas.

Naquele momento, nós havíamos presumido a ignorância não por desmerecer quem estaria ali, mas sim por respeitar as limitações e a autonomia de todos os presentes. E deu certo, terminamos o evento com zero reclamações de qualquer ordem. E se houve, não chegou até a comissão.

Por isso, você que tem alguma condição de exercer melhorias no espaço em que atua, por favor, coloque placas! Indique locais! Indique atividades! Posicione alguém para responder dúvidas ou demandas! Presumir que alguém sabe tudo é muito pretensioso. Presumir que alguém não saiba nada é muito respeitoso.

Capa: Pixabay/Reprodução

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