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Não mais o inédito e sim o extraordinário

Afinal, o homem de segunda mão, precisou se reerguer do zero novamente. Precisou traçar um plano de vida de novo. Ressignificar lugares, experiências e sentidos. Precisou aprender que o único coração que ele pode governar é o seu e que, no máximo, ele poderá liderar o da sua companheira rumo à missão e objetivo traçados de comum acordo.

Enquanto comia uma pizza após a nossa reunião semanal do grupo de homens numa noite fria de julho, conversávamos sobre nossos relacionamentos passados e chegamos a um consenso: éramos todos homens de segunda mão, isto é, já tínhamos passado por relacionamentos longos e intensos com outra pessoa e já tínhamos, se não pedido em casamento, pelo menos pensado e sonhado com isso. Lembrei-me de um texto do Murillo Leal, que reproduzo aqui, com alguns grifos, antes de continuar a reflexão:

Ser divorciado faz com que pessoas me perguntem as mesmas coisas.

A primeira pergunta é: “Mas você nunca mais achou outra pessoa?” Eu sempre respondo que existem pencas de pessoas no mundo, mas não encaro esta questão como se a vida amorosa fosse um caça-tesouros com bússolas, mapas e tudo mais.

Amar pessoas não é como achar um prêmio único, é sobre encontrar um abrigo seguro, um pouco de mantimento e uma convivência boa no outro, no meio do caos.

Tem mais a ver com se alegrar com a aventura em si do que encontrar segurança. É escolher estar. É não desconfiar do que a vida nos dá.

Nesse sentido, encontrar uma nova pessoa é mais que combinar gostos, ter afinidades inconfundíveis, se parecer em tudo, mas é deixar o outro invadir nosso quintal. Sem medo.

Eis o ponto fundamental que faz impossível “achar uma outra pessoa”: Não basta encontrar ela, é preciso ter uma permissão pra entrar. E esse passaporte precisa ser carimbado juntos.

A questão de “achar outro alguém” é como um dia acidental em que um detetive sai de casa pra tomar um café simples e acaba encontrando um caso.

A segunda pergunta que rodeia é: “Mas, você casaria-se novamente ou é daquele tipo traumatizado?”. Eu teria tudo pra blasfemar contra o revés do amor, mas escolher ser este segundo modelo de ranzinza vai matando a gente aos poucos.

Me arrependo zero da decisão de unir-me a alguém. A questão central aqui é: O que significam pra ambos a palavra união?

A vantagem de ser um homem de segunda mão é que temos um jeito maduro de ver as coisas. Quando você divide a vida com outra pessoa, você nunca mais consegue esconder quem você é.

Talvez seja por isso que não encontrei outra pessoa. Porque não sou mais capaz de sonegar o que aprendi, não sei fingir que a vida é dramática quando ela é demais.

O fato é que o homem completo não consegue mais jogar joguinhos de interesses e simular que não se importa, não consegue fingir demência proposital diante da possibilidade de um novo amor.

Talvez esteja matriculado na turma errada. O charme do homem de segunda mão talvez seja não entregar-se demasiadamente a amores mirins, enquanto devesse ignorar os que tremem diante da vida à dois.

Murillo Leal, publicado originalmente no Instagram

Os grifos feitos acima por mim são estruturalmente necessários para que possamos entender o que quero afirmar com este texto. E para isso, são necessárias devidas apresentações.

Primeiro, do autor do texto acima: Murillo Leal é jornalista e escreveu durante anos o blogue Casal do Blog. Mas um dia ele se divorciou. E seguiu. Eu era um dos leitores assíduos do blogue, que era minha inspiração para um futuro casamento, e o conheci através de textos compartilhados no site Minha Vida Cristã – que super recomendo para todo mundo que quer ter um relacionamento sadio, independente de crença. Curiosamente, eu passava por alguns perrengues relacionais também e chamei o Murillo no Facebook para falar sobre outra coisa e acabei falando por cima o que estava rolando. Trocamos algumas mensagens, coisa bem rápida. E agora, em 2020, voltamos a trocar algumas mensagens no Instagram. O que me encanta no Murillo e o coloca como uma das pessoas inspiradoras para a minha masculinidade é o fato de ele ser extremamente acessível, gente como a gente, independente de ser um TOP Voice no LinkedIn, talvez seja considerado a maior autoridade em storytelling textual no Brasil.

Segundo, do autor deste texto: eu. Namorei uma única vez na vida até aqui. Contando desde a paquera inicial dela até o último término (sim, foi tenso e tivemos vários ao longo do caminho) foram quase quatro anos. Desses quatro anos turbulentos – sobretudo para ela que sofreu as garras de um relacionamento abusivo da minha parte – um ano e cinco meses foram estáveis. Neste tempo houve pedido em casamento, simulação e até entrega de documentação para financiar uma quitinete, viagens, aprofundamento de laços familiares e sociais, bem como até mesmo responsabilidades financeiras compartilhadas. Mas teve fim. Nós não começamos pensando sequer que um dia poderia acabar e, apesar de escolhas, decisões e atitudes erradas, em maioria da minha parte, não gostaríamos que tivesse acabado, mas acabou. E doeu pra caramba, nós dois ficamos mal, precisamos enfrentar o luto emocional por praticamente um ano, mas nós dois seguimos em frente. Eu estou solteiro, ela namorando. Temos profundo respeito um pelo outro quando, eventualmente, conversamos sobre aspectos técnicos e profissionais – por sermos da área de comunicação.

Retornando à conversa que tínhamos em grupo: nós todos estávamos lúcidos e concordamos que não há como mais viver ineditismos. Esse é o ponto ruim de tudo. Porque parece, numa visão mais ampla, que parcela da opinião comum da sociedade não aceita que o homem possa ter sonhos afetivos, como por exemplo, levar a namorada para comer uma maçã do amor em cima de uma roda gigante. Mas o fato é que temos. E geralmente fazemos essas coisas que são os sonhos no nosso primeiro namoro: tudo é inédito, tudo é novo. E acaba adquirindo um significado muito especial. E como lidar com isso?

O primeiro passo é reconhecer que não viveremos mais ineditismos. Reconhecida essa limitação, é possível ressignificar o que foi e encontrar alegria e contentamento com o que passou ao invés da sensação de perda. O segundo passo é transformar o que já foi vivido em experiência de segurança e maturidade. Um caminho cujo foi percorrido uma vez é mais seguro, na nossa visão, do que aquele que ainda não conhecemos. Dar essa segurança para quem está do nosso lado, sem impor autoridade ou mesmo superioridade ao outro, é bacana.

E a boa notícia é que, apesar de não vivermos mais ineditismos, é possível viver o extraordinário. Confesso que guardo para mim alguns “sonhos de amor” não realizados – alguns tão próximos e baratos que me fazem até me perguntar: será que aguardar é tão necessário assim? Bom, alguns ineditismos fazem bem. Mas o que importa mesmo é que, mesmo que não seja inédito, seja extraordinário.

E pra viver o extraordinário, creio, há um componente que nós, que quebramos a cara alguma vez, temos de sobra: coragem. Há quem passe ao largo de falar em relacionamento sério, casamento e essas coisas todas de compromisso. E não que todo mundo deva casar, eu não acho isso. Mas eu acho que, quem quer, não deve ser contaminado por esse bando de gente mal amada ou com experiências mal vividas ou com ciclos não fechados que se dedica a fazer dos compromissos sérios o grande bode expiatório do coração.

Porque veja, existem apenas duas condições: ou o homem de segunda mão está lhe propondo ou aceitando algo sério porque realmente gosta de você e vislumbra um futuro com você ou porque ele é um tremendo de um sacana. E aqui vai um conselho para as meninas que querem descobrir esse cara: procure pelos frutos desse cara, não pelo que ele fala. Falar é fácil. E eu já vi gente iludindo outra pessoa com papo de casamento só pra ganhar o que estava difícil. O negócio é ver se as palavras condizem com as ações. Se há seriedade no homem. E se houver, saiba que o caminho de um homem de segunda mão é mais seguro.

Afinal, o homem de segunda mão, precisou se reerguer do zero novamente. Precisou traçar um plano de vida de novo. Ressignificar lugares, experiências e sentidos. Precisou aprender que o único coração que ele pode governar é o seu e que, no máximo, ele poderá liderar o da sua companheira rumo à missão e objetivo traçados de comum acordo. O homem de segunda mão tem um plano e ele te convidará a fazer parte desse plano. Tudo que ele quer é que você assuma o seu lugar. Não é o lugar de outra pessoa que agora é seu, é o lugar seu. Porque quando o homem de segunda mão escolhe alguém de novo é provável que nunca mais ele escolha ninguém.

Que nós, os homens que algum dia foram vilões e se redimiram dos seus erros ou mesmo que foram vítimas de relacionamentos malsucedidos, encontremos na força do amor genuíno capacidade, disposição, coragem e discernimento para recomeçar. Do zero, se for necessário. Viveremos o extraordinário.

Capa: Pixabay.com/Reprodução

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