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As dúvidas das crianças e o que podemos aprender com elas

Aprendiz de jornalista, como sou, gostaria muito de ter uma capacidade de síntese como a da criança. A criança pergunta imediatamente o que quer saber, sem rodeios, sem escolher palavras bonitas ou sutis, ela pergunta o óbvio não perguntado.

Num domingo qualquer, peguei minha bicicleta e fui pedalar por uma trilha desconhecida. Quando acabei a trilha, com muita fome, fui até um mercado próximo e comprei um refrigerante e algumas mexericas para consumir junto da bolacha que eu tinha enquanto descansava. Sozinho, numa praça até movimentada, era questão de tempo para encontrar alguém. O que eu não previa é que apareceria uma criança de dez anos e o resto é uma história que merece ser contada.

João Gabriel, dez anos de idade, natural de Brasília-DF, skatista há um ano, estava na praça sem consentimento da mãe. Após fazer algumas manobras na minha frente com seu skate já bastante surrado, ele me deu um “oi”. Consenti que ali seria o primeiro ponto da nossa conversa, o ofereci do que comia e, apesar de recusar a mexerica por não gostar, aceitou a bolacha recheada e o refrigerante.

Sentado ao meu lado, ele fez algumas perguntas. “Por que você estava pedalando?” foi a primeira delas. Bem, a minha resposta de pronto, foi “eu costumo pedalar”. Mas permaneci mais algum tempo ali e comecei a pensar sobre isso. Qual é a razão de eu pedalar? Pegar uma bike, rodar vários quilômetros e voltar ao ponto inicial. Fazer esforço físico, correr perigo, passar por caminhos desconhecidos, acompanhado ou sozinho, pra quê?

Tal reflexão me levou a uma íntima reação: o constrangimento da dúvida. A dúvida é uma condicionante para nós, os inseguros. Ora, não há constrangimento maior que não saber a resposta. Entretanto, não precisou de muito para que eu lembrasse os motivos pelos quais pedalo: eu amo pedalar, isso me basta. Não é necessário racionalizar os benefícios nem expressar os sentimentos que tenho em cima de uma bike nem tampouco estabelecer condicionantes que possam fazer ao outro perceber que o risco que corro na bike é semelhante ao que corro tanto num carro quanto sentado sedentariamente num sofá.

Entretanto, como gosto das conversas com as crianças, continuei. Questionei-o sobre a prática do skate. E ele começou a contar detalhes de como começou, dos traumas que sua mãe tem (e por isso ele estava ali sem o consentimento dela), contou também que era a primeira vez que estava ali naquela praça. Curiosamente, tive a oportunidade de ser a primeira pessoa para quem ele demonstrasse as suas manobras. E olha que ele me mostrou três distintas. Também contou que pratica parkour, e perguntei se ele não achava perigoso. A resposta dele foi, com coragem, um pulo sobre a rampa de skate caindo de joelhos no chão e me dando um joinha logo em seguida.

Apesar de haver poucos minutos que eu havia conhecido aquela criança, a tonicidade das suas perguntas e, consequentemente, a clareza delas me deixava instigado. Aprendiz de jornalista, como sou, gostaria muito de ter uma capacidade de síntese como a da criança. A criança pergunta imediatamente o que quer saber, sem rodeios, sem escolher palavras bonitas ou sutis, ela pergunta o óbvio não perguntado. É incrível.

Ao pensar que a pior das dúvidas é aquela que não pode ser respondida, volto-me a lembrar dos meus tempos de criança, quando buscava respostas para as minhas perguntas. Hoje, por incrível que pareça, preciso fazer alguns caminhos inversos buscando perguntas para minhas respostas. Nem tampouco longos pedais conseguem satisfazer essa necessidade intrínseca do meu ser. Acho que, talvez, a grande certeza que temos é justamente a dúvida. E cabe a nós, aprendendo com as crianças, perguntá-las, buscar as respostas, ainda que elas não venham.

Que possamos usar a capacidade de síntese e objetividade das perguntas infantis em nossos relacionamentos e, talvez, obtermos mais respostas.

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

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