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A dor é empática, a alegria alérgica

Não costumo acreditar que inveja tem efeito prático sobre pessoas, mas creio que quem realmente gosta da gente vai ficar feliz com uma conquista. E quem não ficar muito feliz vai se afastar. Naturalmente.

Sabe quando você olha para alguém, sente confiança nesse alguém e conta tudo de ruim que está acontecendo na sua vida, mostra suas dores e essa pessoa entende? Dá vontade de guardar essa pessoa num potinho. E quando ela te dá uma palavra de conforto – seja ela de ânimo, de calma ou de paz -, aí é que dá vontade de levar essa pessoa para sempre. A dor é empática, sim, e isso que eu acabei de relatar tem tudo a ver.

Depois que aprendi a falar, calar-me é difícil demais. Por isso, falo com muito mais propriedade e por muito mais tempo sobre minhas dores do que sobre minhas alegrias. E isso tem um porquê: a dor é empática. Ao manifestar a minha dor, consequentemente manifesto minha humanidade, e consequentemente posso me colocar de igual pra igual com o outro, afinal, qual de nós não sente dores?

Mas vai além. A dor é empática porque é no compartilhamento que cada um se permite manifestar o tamanho da sua dor sem relativizar a do outro. Na verdade, costuma-se ter uma ideia sempre de que a dor do outro é maior que a sua, ainda que não se meça dores como se mede uma parede. Certa vez, compartilhava a dor de um coração partido com uma pessoa que compartilhou a dor de ter sido rejeitada na infância. Imediatamente, aquela pessoa que tinha uma dor muito mais traumática que a minha, teve empatia para me entender e fornecer a mim uma das escutas mais ativas que já pude ter em minha vida. E foi nessa escuta ativa que também precisei me recolocar no meu lugar: a minha dor, por mais que eu sentisse muito naquela hora, era infinitamente menos traumática, o que não me permitia usar a dor como justificativa para atitudes impensadas.

Agora, por que a alegria é alérgica? Bem… Eu acredito que nossos melhores amigos estão conosco na hora de nossas dificuldades, mas são os tempos de bonança que separam os bons amigos dos melhores. Sabe aquele amigo que você liga para contar que vai se casar, que comprou um carro, que comprou uma casa, que vai se mudar de cidade, entre outras conquistas? Esses sim são os melhores. E se não forem, você descobrirá: por um sinal de alergia, os que não forem se afastarão. Isso nada tem a ver com inveja, mas sim com incapacidade de celebrar a alegria do outro.

De tempos em tempos, costumo fazer visitas a alguns amigos e a maioria, percebo, está muito melhor de vida que eu. Uma das competências que mais me orgulho de ter aprendido foi celebrar a alegria do outro e desfrutar dela como companhia para a amizade. Não costumo acreditar que inveja tem efeito prático sobre pessoas, mas creio que quem realmente gosta da gente vai ficar feliz com uma conquista. E quem não ficar muito feliz vai se afastar. Naturalmente.

Portanto, há dois grandes momentos na minha vida: o momento de chorar e o momento de sorrir. Consequentemente, ganho muitos amigos no momento de chorar, mas a manutenção de tais amizades fica por conta do momento do sorriso. E as amizades que sobrevivem às oscilações são as mais fortes. Então, da próxima vez que você quiser separar bem suas amizades, convide todos para uma festa na sua casa para compartilhar uma conquista – o intuito precisa ser apenas este – e poderás testar o que disse.

E se quiser aprofundar mais no assunto, veja esse trecho de fala do Leandro Karnal, professor e palestrante:

Por Bruno Cidadão

Comunicador | Pesquisador | Checador

2 respostas em “A dor é empática, a alegria alérgica”

Ótimo texto, Bruno! Me fez pensar sobre relações de “empatia” e “alegria” na cultura contemporânea, e também como esses sentimentos são parte de relações de “classe” que estabelecemos na vida. Apesar da humanidade (universal) na dor do outro, seriam os discursos da conquista (alegria), e do sofrimento (superação), também reflexos de vivermos a chamada “classe média”? Foram boas reflexões a partir do seu texto. Um abraço!

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