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Precisamos conversar sobre rejeição – uma reflexão sobre “De quem é a culpa?”

Marília Mendonça, a cantora da sofrência, estabelece logo no final da música que o grande problema é que “me apaixonei pelo que inventei de você”. Idealizamos o outro, inclusive sua aprovação a nós. Imaginamos que ao gostar de alguém isto nos será recíproco. Nem sempre é.

Eu não sei você, mas eu tenho extrema dificuldade em lidar com rejeição. Tenho trabalhado isso, mas confesso que os avanços são poucos e virão só no futuro. Dificuldades em lidar com o fato de não sermos aprovados, queridos, bem-vindos, amados… Creio que não sou o único assim. Às vezes o problema da rejeição se camufla em outros problemas e atitudes, por isso acaba sendo difícil interpretá-lo e, consequentemente, tratá-lo.

Enquanto escrevo esse texto, ainda em maio de 2020, passo por um dos tantos processos de rejeição a que somos submetidos na vida. Um processo relativamente simples, mas que como toda dor, dói. E essa é uma primeira constatação que precisamos fazer: queiramos ou não, a rejeição fará parte de nossas vidas. Ou aprenderemos a lidar com ela ou estaremos fadados a um ciclo vicioso. Ninguém está no mundo para fazer a sua vontade. O mundo não é “você-cêntrico” nem “eucêntrico”. As coisas não giram em torno de nós.

“De quem é a culpa?” é uma música que, entre tantas coisas, fala sobre rejeição. Marília Mendonça, a cantora da sofrência, estabelece logo no final da música que o grande problema é que “me apaixonei pelo que inventei de você”. Idealizamos o outro, inclusive sua aprovação a nós. Imaginamos que ao gostar de alguém isto nos será recíproco. Nem sempre é. E quando se trata de relacionamentos, quase nunca é nesse mundo de relações líquidas, como cravou Bauman.

Mas não saber lidar com a rejeição nos coloca em posição de humilhação. Ela repete, em duas estrofes: “não finja que eu não estou falando com você”. Você já foi ignorado por alguém? Seja os dois tiques azuis do WhatsApp, seja uma palavra não respondida, seja uma pergunta não respondida. Dói. Porém, precisamos começar a entender que o ato de ignorar acaba por ser uma resposta – não imediata, claro – para o que requereu do outro: não há importância dos seus questionamentos para a minha vida, portanto, não me faça mais questionamentos, não me mande mais mensagem, não me conte mais nada.

O problema é que não saber lidar com a rejeição também nos faz acostumar com migalhas. E, acredite, não é por você merecer mais do que isso que não devas aceitar, é porque migalhas é resto e você vive para a abundância, não para os restos. “Sobrevivo de olhares e alguns abraços que me deu”. Talvez você pense: ah, mas ninguém se apaixona por outra pessoa perdidamente sem antes ter beijado ou transado, a ponto de dizer que talvez isso pareça “um vício que não tem mais cura”. Vai por mim, apaixona sim. Há pessoas que se entregam perdidamente de início e isso é uma característica delas. Isto não as faz melhores ou piores que ninguém. Apenas as mantêm num estado de autodestruição quando encontram alguém que não é recíproco.

Se equilíbrio é uma palavra bonita, na prática é muito difícil exercê-la. Os trechos “exagerado sim / sou mais você que eu”, “e o que vai ser de mim?” e “eu tô parado no meio da rua / eu tô entrando no meio dos carros / sem você a vida não continua” nos mostram que há um desespero absoluto instalado. Aqui o dano começa a ser mais visível. A rejeição que levara à humilhação agora leva à abnegação do eu e ao sacrifício da vida. Neste ponto, procurar um profissional de Psicologia já é um imperativo.

Por fim, quero te sensibilizar para duas situações. A primeira é “minha cabeça não ajuda, loucura, tortura”. O trecho demonstra que há clara confusão mental e que não adianta mais aquele papo de “esquece e parte pra outra”. Há necessidade de um tratamento adequado. A segunda é “ninguém entende o que estou passando / quem é você que eu não conheço mais”. Há um hiato de reconhecimento sobre as dores do outro. Isso tem a ver também com quem sofre que, de tanto se abnegar, não se conhece mais e, portanto, não conhece mais ao outro. É um estado deprimente, deplorável e danoso. É triste saber que milhões de nós estão assim e não têm condições de acessar um tratamento adequado.

Eu mencionei acima que estou lidando, no momento em que escrevo, com um processo de rejeição. Eu teria abreviado praticamente 100% das minhas dores se eu tivesse me atentado a um sinal: o de que a outra pessoa não tinha qualquer sentimento por mim. Ela havia deixado claro. Eu resolvi ignorar. E nessa ignorância, acabei sofrendo. Mas como nada é perdido e tudo é aprendizado, hoje posso contar com tranquilidade. Não tenho dúvida de que não vá passar – já passei por coisas piores em outro momento – e também de que da próxima vez terei mais cuidado e estarei mais atento.

Fique com a canção de Marília Mendonça em sua versão ao vivo, muito emocionante, por sinal:

“De quem é a culpa?” – Marília Mendonça (Fonte: Youtube/Reprodução)

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