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A generosidade é o princípio da fartura

Somos apenas mordomos. É quando entendemos que nada nos pertence, apenas nossas decisões, que transformamos a ideia de “nosso” para “que está comigo”, tendendo, então, a fazer o melhor uso possível do que está sob nosso controle.

Parece positivismo barato, charlatanismo beneficente para angariar doações ou uma frase de um coach para mudar seu “mindset” de pobre e te transformar em rico em uma sessão de uma hora e meia. Mas prometo que, lendo até o final, você entenderá que não é nada disso e estará vacinado contra a interpretação rasa de uma frase tão profunda.

Antes de tudo, é necessário conceituar o que é generosidade. Essa palavra bonita de se falar é, na verdade, muito difícil de se praticar. Ser generoso não é dar por dar, é ser, tem a ver com o que gera a tomada de decisão e não com a decisão em si. Generosidade tem a ver com o que motiva tomar a decisão de doar e não com a doação, produto ou serviço, em si. De acordo com o dicionário Priberam, as duas palavras que são atreladas como sinônimas de generosidade são liberalidade e magnanimidade.

Enquanto liberalidade é sobre liberdade e doação, magnanimidade é sobre grandeza de ânimo. Mais vai além, a palavra “generoso” atrelada ao vinho vai considerar que uma bebida generosa é aquela “fortificada”, com “alto teor alcoólico”. Fora do vinho, generoso é adjetivo para o que é da melhor qualidade, franco, nobre e que “há” ou que “tem” generosidade. Portanto, até aqui já deu pra perceber que generosidade é sobre ser e não sobre fazer.

E como ser generoso? Já falei aqui que somos naturalmente ruins, tendemos a fazer o mal e a sermos egocêntricos. Porém somos dotados de inteligência e capacidade crítica sobre nossos atos, em resumo: podemos tomar decisões a partir do que entendemos sobre nós mesmos. Decidir pela generosidade não é fácil. Decidir pela doação não é fácil. Porque, de algum modo, por algum motivo, aquilo que conquistamos é “nosso” e foi difícil conseguir, portanto, tendemos a ter uma ligação afetiva com as coisas, momentos e pessoas que conquistamos.

No entanto, a quem interessa a generosidade, senão a nós mesmos? Como seria a Terra se a generosidade não tivesse seu lugar? Como seria a vida dos mendigos, das pessoas em situação de rua ou de privação de liberdade? Como seria a vida dos famintos? Se não houvesse generosidade, a morte de tantos seria acelerada. E o mundo, que já anda bastante desgraçado, seria ainda pior. Portanto, a generosidade interessa sim a nós porque estamos diretamente ligados aos resultados dela.

Se há resultados, podemos pensar a generosidade como uma forma de depositar uma boa ação e receber outra em outro momento? Não, definitivamente não. Isto seria uma troca. Seria dar esperando algo. E a generosidade é sobre dar liberalmente, sem necessidade alguma de retribuição e, preferencialmente, que não haja retribuição nem direta nem indireta. Há pessoas que são muito generosas, isto é, desenvolveram essa característica com mais facilidade. Mas ainda assim, é sempre necessário tomar cuidado para verificar dentro de si mesmo o que te move a doar. Quando há um interesse escuso, é melhor recuar.

Generosidade é aquela que resolve ou que ajuda o outro. Isto precisa ser claro. A generosidade não está para nós e sim para o outro. O foco passa a ser, completa e inteiramente, o outro, por aquele período específico de tempo. É para resolver o problema do outro que a generosidade atua como mediadora do processo. Generosidade conecta pessoas dispostas a ajudar com pessoas que necessitam e aceitam ajuda. Generosidade não invade, mas insiste. Generosidade constrange, muitas vezes, mas nunca humilha. Generosidade faz com que emoções sejam afloradas porque, por mais que na hora do aperto a gente sempre pense “poxa, alguém podia me ajudar”, não cremos que a ajuda chegará. Generosidade traduz um “eu te amo” com muita facilidade.

Existem dois tipos básicos de mentalidade: a de escassez e a de fartura. Diante da necessidade de alguém, a de escassez pensa: eu até tenho o que essa pessoa precisa, mas se eu der pode ser que falte para mim amanhã. A de fartura pensa: eu até tenho o que essa pessoa precisa, então vou dar. Note que não tem a ver com ter: as duas mentalidades têm o que a pessoa precisa, mas a tomada de decisão é diferente em cada uma das duas.

A mentalidade de escassez, com frequência, produz em nós frutos como: ansiedade, desesperança, insegurança, perda de itens materiais por falta de manutenção (o acúmulo produz a falsa sensação de que parado não vai estragar, mas estraga), incapacidade de uso dos bens materiais ou serviços quando realmente são necessários (novamente, o acúmulo produz confusão).

Enquanto a mentalidade de fartura tende a produzir desejo de fazer mais, de manter o que te serve, de não acumular, de comprar apenas o necessário e de viver conforme o nível de vida lhe permite. A mentalidade de fartura nunca teve a ver com esbanjar ou com se hospedar nos melhores hotéis e comer pratos caríssimos. Mas sim sobre, numa casa de telha não haver goteira, sobre o quintal estar asseado e quando a família precisar de um lugar pra aconchegar os parentes, as pessoas queiram escolher aquele lugar. Tem a ver sobre usar um celular fora de linha, mas que serve a todos no rolê com ligações, internet e disponibilidade. Tem a ver com utilidade e não com status.

Mas não há como nutrir uma mentalidade de fartura sem buscar praticar a generosidade. É porque em algum ponto da história dessa convergência de pensamento parece que tomamos consciência exata de que nada, absolutamente nada – nem mesmo nosso corpo -, é nosso, apenas nos foi confiado.

Na verdade, somos mordomos, cuidadores, somos como o seu João da portaria, a tia Joana da cantina, o seu José da jardinagem, a dona Marta da limpeza. Cuidamos de negócios, de famílias, de nossos corpos, de nossos pensamentos. Mas somos apenas e tão somente… Mordomos. É quando entendemos que nada nos pertence, apenas nossas decisões, que transformamos a ideia de “nosso” para “que está comigo”. Tendemos, assim, a fazer o melhor uso possível. E se o outro precisa mais do que eu, então ele merece fazer o melhor uso possível do que está comigo. E se eu preciso muito agora, a vida costuma mandar alguém que vira e fala: olha, você vai fazer um bom uso, toma.

A generosidade é o princípio da fartura. Talvez você tenha lido isso como “a generosidade é o começo da fartura”, mas na verdade, poderia ser assim a frase: “a fartura requer o princípio da generosidade”. Porque a generosidade está no início, mas além disso, é um princípio para que exista a fartura. Em palavras finais, não há fartura sem generosidade.

Que possamos, todos os dias, escolher sermos generosos. E quando não formos, que sejamos tragados pelo constrangimento da necessidade de tornarmos a ser. Que comece de mim. Amém.

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