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A iminente dor de cura através do amor

Uma vez administrado, o amor pode doer, pode incomodar e arder. O amor, sim o amor (sic), pode despertar o pior de nós durante o processo de tratamento. Mas o amor cura.

Era uma noite maravilhosa. Chovia. Eu vinha de dois anos de um longo processo de luto emocional somado à várias experiências negativas em relação à afetividade. Após uma massagem em uma pessoa, deitei-me ao seu lado, no chão, e perguntei como ela se sentia. “Bem, estou bem” e completou com uma das frases que respondeu uma pergunta jamais escrita, mas que ecoava todos dias desde o início da minha vida amorosa: “assim como tem pessoas tóxicas, existem pessoas que curam, e você é uma pessoa curativa”. Essa frase permite várias interpretações e me dedico a tentar falar sobre isso, materializando em palavras a potência vocabular dos meus sentimentos.

Antes de proceder com as interpretações, é necessário conceituar a palavra “curativa”. Ela pode significar “aquilo que desenvolve a cura” ou “objeto que tampa um ferimento”. São distintos conceitos e muito divergentes. Enquanto o primeiro diz sobre algo permanente, que cicatriza e encerra um ciclo de tratamento determinando a cura como estado final, o segundo conceito é utilitarista, temporário, mero instrumento de manutenção de um ferimento através de sua ocultação, portanto, neste sentido, o curativo não é o estado final.

Eu não me considero uma pessoa curativa em nenhum dos conceitos. Na verdade, tenho dificuldade em aceitar que alguém que não seja um profissional possa curar o outro de qualquer coisa que seja. Ademais, sou contraditório: acredito que a palavra tem o poder de estabelecer laços e promover restauração.

Mas considerando as propriedades curativas do amor – seja ele desenvolvido na linguagem do toque, da palavra, do afeto, do serviço ou da compreensão -, pude perceber que há verdade nisto. Eu fui e talvez ainda seja uma pessoa tóxica. Fui, dentro de um relacionamento amoroso longo, abusivo, manifestando possessividade, controle e extremo ciúme, levando a outra pessoa a ser intoxicada com minhas atitudes. Hoje, melhorei um pouco. Por isso tenho um pouco de facilidade em reconhecer quando estou sendo mais tóxico do que curativo.

Para o conceito curativo temporário, não há muito o que dizer. A ferramenta é necessária. O curativo auxilia, protege contra impurezas e bactérias que podem contaminar o ferimento pelo ar. O curativo serve, embora não seja determinante para a cura. E muitas vezes, o curativo promove a desaceleração da cura, pois impede que a exposição direta ao ar e ao sol possam agilizar o processo de cicatrização. É necessário ter cuidado quando somos curativos temporários. E mais ainda quando precisamos usar esses curativos. Ouso a dizer que, talvez, a melhor maneira de enfrentar a dor e o processo de cicatrização é ao ar livre, com exposição, inclusive às bactérias. Outrossim, não é indevido o uso do curativo.

Todavia, no conceito curativo permanente, de ação e estado final de cura, a figura da cura passa a ser dolorosa. E talvez seja exatamente este o grande ponto que respondeu à minha pergunta interna relatada no início do texto: por que pessoas extremamente boas e bem relacionadas com outros despertam o pior de si quando se relacionam comigo?

Sem querer, mas já o fazendo, invoco o poder do iodo para esta conversa. Pra quem não sabe, o iodo é aquele elemento amarelinho que deixa a gente manchado e que sempre está recipientes plásticos grandes nos hospitais, para uso em ferimentos. O iodo é um elemento químico. Está no sal que usamos na cozinha. O iodo é fundamental para nossa subsistência imunológica, desde que em quantidade adequada. Se além do que o corpo necessita, trará problemas que, sem tratamento adequado, podem levar à amputação de membros.

O iodo tem propriedades curativas, mas sua administração dói. Arde. Tende a ser gelado. Tende a ser muito incômodo. Tende a deixar marcas. Mas o iodo prepara o ferimento para sua fase de cicatrização. O iodo desperta gritos desesperados de ardor, lágrimas de dor, muitas vezes o iodo pode até ser a causa de vários chiliques infantis na cama cirúrgica. Mas o iodo precisa, necessita, tem que ser administrado. O iodo é parte do processo.

É neste, e somente neste ponto, que encontro as respostas mais convincentes sobre o porquê de gente que entreguei detalhes da minha vida e de como funciono me trataram como estranho ou como criminoso, tendo se afastado vertiginosamente, em outras palavras: gente que amei e que, sabendo ou sem saber, me machucaram profundamente. Antes, achava eu, que era a bagunça da minha vida. E de fato é uma resposta aceitável, todavia, vai além. E encontro resposta na propriedade curativa do amor.

Uma vez administrado, o amor pode doer, pode incomodar e arder. O amor, sim o amor (sic), pode despertar o pior de nós durante o processo de tratamento. Mas o amor cura.

Que o Amor, o genuíno amor em pessoa, a divindade de Jesus Cristo, nos cure de nossas feridas emocionais e nos traga a paz. Amém.

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