Categorias
Relacionamentos

Sem correspondência, ir até o fim é dor sobre dor

Creio que boa parte de nós já foi até o fim em algum relacionamento consolidado. Mas uma parte pequena de nós vai até o fim quando é uma paixão não correspondida ou um sentimento aparentemente inviável… É aqui que mora a somatória de dores sobre dores.

Desde que aprendi a fazer cartas que nunca serão entregues e geralmente são rasgadas ou queimadas após algum tempo, isso tem me conectado mais ainda com minhas emoções e me permitido conhecer um pouco melhor de como eu funciono quando o assunto é sentimento.

Por algumas vezes, nós que nos entregamos rapidamente, somos pouco criteriosos e jogamos fora essas regras tolas do modelo de paquera e conquista do século XXI onde sumir, fazer joguinho e se mostrar desinteressado causa… interesse (?). O problema em si, de acordo com o conceito de autossuficiência humana, é que a gente vai até o fim.

E ir até o fim é algo que nos leva a dores sobre dores. E existe uma linha bastante tênue entre estar no fundo do poço e continuar cavando (algo danoso) e entre tentar todas as formas até esgotar a energia ou as possibilidades (algo também danoso). Mas é nessa linha tênue onde nos dois polos há perdas, é necessário escolher que tipo de perda ter.

Portanto, ir até o fim é, sim, acumular dores sobre dores. Estabelecer os limites pode ser importante, mas nem sempre é útil porque como Verônica Shoffstal, com texto atribuído erroneamente a Shakespeare, escreveu: “você percebe que pode ir mais longe depois de pensar que não se pode mais”. Muitas vezes ultrapassamos nossos próprios limites.

Dependendo do seu nível de maturidade emocional e autoestima, você não precisa ler daqui em diante. Mas se você é como eu, que tem autoestima pouco elevada e um nível lastimável de maturidade emocional, é hora de pensar que o que fazemos quando não somos correspondidos em nosso amor oferecido ou em nossa presteza oferecida é um simples crime contra nós mesmos, mas ao mesmo tempo uma afirmação conveniente e confortável de nossa personalidade e de nosso ideal.

Pra muita gente, é caro demais uma frustração. Para alguns ainda, isto se soma a tantas outras coisas que acontecem e viram uma verdadeira tempestade. Fica difícil resistir. É por isso que há alguns instrumentos de dispensação psicóloga que podem ajudar a passar por esse processo, no meu caso, fiz narrações de situações baseadas em imaginação real e escrevi cartas.

Creio que boa parte de nós já foi até o fim em algum relacionamento consolidado. Mas uma parte pequena de nós vai até o fim quando é uma paixão não correspondida ou um sentimento aparentemente inviável… É aqui que mora a somatória de dores sobre dores. Numa dessas de 2020, um ano que fui tragado por uma paixão súbita e que, felizmente, desfechou em um distanciamento necessário, também encontrei, meses após o trauma do encantamento súbito, um recanto de sossego numa paixão que tinha tudo para funcionar, desde a compatibilidade até o nível de envolvimento mútuo. Todavia, o desfecho que poderia ser bom acabou em outro golpe fatal naquilo que ainda restava de estoque de esperança e devoção. A não correspondência novamente se apresentou e, como sempre, fez da separação, do distanciamento e da saudade, a principal das ferramentas para matar aquela paixão outrora esperançosa.

Quando entrar 2021, ainda tentarei algumas vezes, mesmo após sucessivas tentativas. Textão e poemas que abriam o coração, tentei um carinho virtual com mensagens positivistas, tentei um contato corriqueiro após passar duas semanas com o peito apertadíssimo. Mas o segredo que não te contam quando você está apaixonado é que não importa o que você faça, a outra pessoa não vai gostar de você. Pode parecer difícil entender isso e reservo um parágrafo para defender minha visão sobre isto.

Acostumamos com a ideia de que nossas atitudes encantam o outro e isto até pode ser verdade, mas para aquelas pessoas que são dominantemente heterossexuais, as atitudes valem muito pouco no processo de “apaixonamento”. Isso explica, muitas vezes, pessoas muito gentis que se juntam a gente babaca e, simplesmente, não sabemos como isso acontece. Mas vai além: somos capazes de nos apaixonar por quem realmente não tem nada a nos oferecer somente porque gostamos de como essa pessoa é fisicamente. Se por um lado isso é perfeito, pois gostamos por gostar de uma característica física da pessoa, sem interesses escusos, fica prejudicado um dos elementos que formam o tripé do amor: a afinidade intelectual, ou seja, como processamos, enxergamos o mundo e para onde estamos indo com essa leitura que fazemos. E aí, retomo aquele conselho dos casais mais velhos: beleza passa.

Por isso, para os predominantemente heterossexuais, se não há identificação com o biotipo da pessoa, não há caminho que se faça para inverter isso. Se a moça gosta dos gordinhos, o magrelo pode ser infinitamente mais fofo, educado, bem portado, decidido e romântico, ele não fará ela mudar dentro de si o seu padrão de escolha. Se o moço curte as loiras com abdômen definido, não adianta a morena de cabelos encaracolados e uns pneuzinhos se dedicar inteiramente e se jogar com presença, presentes, apoio e muita disposição em se relacionar, simplesmente não vai rolar.

Para quem é um pouco mais demissexual, a coisa complica e facilita. Nosso filtro passa pela atitude, como exceção à regra. Mas também fica condicionada a características biológicas, no entanto, menos ligadas à beleza e mais ligadas à admiração pelo corpo da pessoa admirada. A atitude, o toque, a fala, o olhar, todas estas coisas não factíveis e pouco explicáveis contribuem para a tomada de decisão quando o assunto é apaixonar-se. Porém, muitas vezes, e muitas vezes mesmo, pessoas com predominância demissexual acabarão se apaixonando por pessoas com predominância heterossexual. Em resumo, um se apaixonará pela forma como a pessoa tomou uma determinada decisão em sua vida (coisa corriqueira, consta-se!) e a outra se apaixonará porque gostou do conjunto da obra física. O resultado, quase sempre, é trágico: eles quase nunca se apaixonam um pelo outro.

E para fim, transcrevo aqui, com a devida supressão de itens que exponham nominalmente qualquer pessoa, uma das minhas cartas que acaba sendo similar a várias outras quando o assunto é não correspondência (não é a maior, mas certamente uma daquelas que marca o início de uma fase de repulsa total ao sentimento por qualquer mulher até que a cura se estabeleça e o hiato de relação, que já caminha por dois anos, aumente vertiginosamente). Fique com as emoções aqui transcritas e transcreva sua emoção ou sua experiência nos comentários, se quiser!

[…]

Meu querido […], acabou o meu caderno. Nele escrevi praticamente todas as cartas da minha vida ao longo da última década. Você foi a destinatária de algumas e, da última, que sequer sei se você leu. Seu silêncio me mata. Eu demonstrei, falei e me coloquei em posição de amar-te, mas tudo isso agora é sem sentido algum. Me culpo por muita coisa, eu sempre penso na minha parcela de culpa e sei que desta vez eu também tive meus erros. Mas engraçado que mesmo “parecendo que saí de um filme” como você afirmou certa vez, eu não fui suficiente. E isso dói. E como dói.
Eu juro que tentei com todas as minhas forças fazer dar certo. Eu realmente amava cada detalhe seu, até seus vários trejeitos. Eu tentei ser amigo e ir com calma. Eu tentei ser presente, disponível e o caralho a quatro pra você. E agora? Agora estou eu aqui, como sempre sozinho. Escrevo-lhe enquanto minhas lágrimas sujam as folhas. É como choro de infância. E por mais que esteja doendo pra caralho, eu ainda me orgulho de estar derramando elas por você, sabe? Eu te acho tão pura, tão menina e acho que você merece todo amor do mundo. Seu coração é bom e você é uma filha amada do Pai, do nosso Pai.
Esses dias eu te vi na rua. Eu gosto tanto de seu corpo, da sua silhueta, dos seus cabelos ondulados e brilhosos, das suas bochechas, dos seus olhos… Mas eu não posso ouvir mais nem a sua voz. E dói isso. Como eu amava seus áudios! Eu ainda ouço sua voz em pensamento. Aquela voz grave. Que tanto escutei repetidas vezes! Ah, como era bom tantas mensagens suas… Aquelas fotos espontâneas! Tão linda, suada. E quando você mandou uma foto fazendo skin care?! Eu amei.
Agora, eu entro no seu número de contato no WhatsApp e vejo o “online” entrando e saindo, o chat vazio mesmo com as notificações personalizadas ativadas, a foto de perfil indisponível porque você também apagou meu contato. Sabendo que você talvez não se lembre mais de mim, penso: como eu fui capaz de chegar a esse ponto? Pessoa super compatível que conversava comigo todos os dias e que eu sonhei em apresentar pra minha família. Acho que desde 2016 nunca tinha passado por algo tão igual porque você era além do que eu queria e esperava. Mas agora você está cada vez mais distante.
Quantas vezes quis te mandar mensagem, te ligar ou te visitar, mas o meu senso diz que não há razão. De vez em quando quebro meu orgulho e falo com você, mas o vácuo e o desinteresse vem como marca imediata. Eu queria ser alguém que valesse a pena pra você, queria ser uma das suas companhias numa das noites que sai. Eu queria ser digno do seu amor, aquele amor que você disse querer dar e nunca mais voltar atrás… Mas você me chamava de ‘mô’, ‘anjo’ e ‘flor’ e isso não significava nada.
Queria ser o namorado que você conta as coisas da escola, da faculdade, e que planeja fins de semana com ele. Mas… Eu sou um nada pra ti. Descartável. Porra, eu queria entender de primeira que quando você disse que não queria nada agora, não queria nada comigo. Eu sei, no fim, que a culpa de tudo isto é minha.
Sabe, eu sei que logo vou te ver namorando outro alguém. Pois é assim que as coisas funcionam para quem é alvo de minha paixão. Te desejo sorte e distância de mim porque eu fico muito ácido até superar. Mas vai dar certo. Estou reservando meu 2021 pra lidar com mais esse luto emocional e não me envolver com ninguém.
Te desejo que passe no seu vestibular, como sonha, ou que busque uma faculdade dentro de sua vocação inata. Em qualquer destes caminhos, serei seu apoiador sem ressalvas. Você merece ser feliz! Eu ainda te amo e te espero, mas estou decidido que preciso escolher a minha vida porque estou morrendo a cada segundo que me devoto inteiramente a você e amargando derrotas de todo tipo.
Adeus!

Carta de dispensação psicológica de sentimentos por paixão não correspondida

Foto de capa: Pixabay/Reprodução

Comente! Aqui é o lugar!

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.