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O tempo do “ainda não”

No fim, você nem eu temos receita, a não ser passar pelo tempo do “ainda não” para, finalmente, chegar no tempo do “agora sim”!

O tempo da espera é doloroso e muito longo para quem espera. Com a frieza do tic tac do relógio, quem espera por algo queima em ansiedade. Há quem lide melhor com isso, mas os ansiosos talvez sejam os que pior experimentam esse tempo.

Numa das noites mais belas que já presenciei, o espetáculo da Lua cheia me convidava a sair de casa. Por incrível que pareça, não havia muito barulho na rua embora fosse um sábado.

Em contrapartida naquela noite bela, casais se beijavam e, entre amassos quentes, curtiam aquela noite. Para eu, solteiro há cerca de dois anos, aquelas cenas eram um gatilho e, obviamente desviei da calçada em que os atos aconteciam até porque, possivelmente por uma silhueta percebida, teria uma má sorte de encontrar alguém conhecido ali e aprofundar ainda mais a minha triste incursão pela depressão pós-frustração amorosa.

E eu tinha algum texto já rascunhado na minha cabeça, mas ainda nada no papel. Eu vivia o tempo do “ainda não” em praticamente todas as áreas da minha vida.

Eu ainda não havia me formado, mas estava no caminho. Eu ainda não havia pago minhas dívidas, mas estava no caminho. Eu ainda não havia tido condições de mobiliar totalmente o apê em que eu morava, mas estava no caminho. Eu ainda não tinha uma nova namorada, mas estava no caminho para qualquer relacionamento. Eu ainda não tinha me curado totalmente da minha última frustração amorosa, mas já havia conseguido me desligar emocionalmente em partes da pessoa. Eu ainda não tinha uma sólida participação no mercado de trabalho, mas caminhava para ter uma carreira longa. Eu ainda não tinha conseguido ajudar meus pais como precisava, mas estava certo de que estaria lá quando precisassem. Eu ainda não era ninguém conforme os padrões da sociedade média do século XXI, mas estava no caminho para ter alguma importância na vida de algumas pessoas e instituições.

O tempo do “ainda não” é o tempo da espera. É o tempo que não dá para fazer mais que o que já estamos fazendo. Aliás, constantemente o tempo do “ainda não” é um tempo que precisamos evitar correr e acelerar os processos porque tendemos a não ter precisão dos nossos rumos e nem segurança de nossas possíveis fortalezas. Tudo neste tempo é incerto, volátil e tênue. É, talvez, o tempo da impermanência e das tempestades de mudança de mentalidade.

Retomo novamente o assunto da dor da espera. Algumas pessoas tentam remediar isso em nós, fazendo sugestões absurdas ou improváveis. São todas dispensáveis. O tempo da espera não pode ser acelerado, senão pelo ato de abraçar completamente o processo, permitir-se quebrar a cara, o coração, reverter todo orgulho e preconceito em face de novas experiências, novas pessoas e um mergulho profundo em nossa existência.

A minha característica pessoal do romantismo me faz enxergar o período da espera com ulterior desânimo. Por isso a terapia foi uma aliada no enfrentamento diário da ansiedade, tanto a provocada pelo tempo da espera, tanto aquela iminente para os comprovadamente transtornados por esse mal. Hoje sou esperançoso, mas bastante realista. Por vezes, duro comigo mesmo. Tanto que algumas decepções e frustrações passaram a ser rota de passagem e não mais fim. Já chego sabendo que vai acabar em tristeza. Isso aconteceu recentemente quando assinei um contrato sabendo que os meses daquele contrato seriam estressantes e frustrantes.

Ainda assim, há espaço para o choro, para o lamento e principalmente para as incompreensões. Viver o tempo do “ainda não” é algo que requer coragem, mas para além disso, paciência e autocontrole, coisas que andam em falta por aqui. No fim, você nem eu temos receita, a não ser passar pelo tempo do “ainda não” para, finalmente, chegar no tempo do “agora sim”!

Há uma música que reflete bem o que eu disse e, com uma edição que encontrei no Youtube que mescla partes do filme romântico “À prova de fogo”, não há como não reproduzi-lo abaixo. Delicie-se e deixa rolar!

Fonte: Youtube/Reprodução

Foto de capa: Pixabay/Reprodução

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