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Sobre importância no século XXI

A importância é um juízo de valor, e como a maioria de todos os juízos que fazemos, eles são individuais, intransferíveis e mutáveis. Importância, portanto, não é sobre funcionar, é sobre ser melhor que o necessário. Importar também tem a ver com a sua raiz óbvia da palavra: “trazer para dentro”.

Dedico algum tempo da minha vida à análise de relações sociais desde a minha infância. Sempre fui orientado pela minha família a estabelecer laços cuidadosos com estranhos, em contrapartida, a confiar demasiadamente nos consanguíneos apenas por serem parentes. O resultado é que tive dificuldades de formar laços duradouros com amigos e, pela proximidade e invasão comuns do ambiente familiar, dificuldade em ter laços profundos com familiares.

Todavia, tudo muda quando eu começo a faculdade em outra cidade, mesmo morando na mesma em que cresci. Em outro ambiente, distante de familiares, as relações com estranhos precisavam ter algum grau de proximidade. E eu tive mais ou menos um ano de construção de alguns conceitos pessoais e, talvez, o mais forte tenha sido o da importância. É sobre isso que quero falar hoje.

Já escrevi aqui no blogue sobre confiança no século XXI, o século da liquidez relacional e do virtual como plataforma para a maioria das relações. Confiar é o primeiro passo para se definir o que é importância. Não existe importância sem algum nível de confiança. Quando dizemos que algo ou alguém nos é importante, precisamos deliberadamente, fornecer algum nível de confiança, algumas das chaves da nossa vida, para esse alguém ou para essa coisa.

A importância é um juízo de valor, e como a maioria de todos os juízos que fazemos, eles são individuais, intransferíveis e mutáveis. É possível atribuirmos valor e importância a algo ou alguém cujo, dentro do círculo social que você vive, é considerado desprezível. É possível que mesmo pessoas gêmeas, com a mesma formação familiar, os mesmos trajetos educacionais e até mesmo as mesmas posições e gostos culturais possam atribuir importâncias diferentes a coisas ou pessoas. E é possível que a importância mude ao longo do tempo, todavia o movimento de mudança da importância advém da frustração, da constatação do real em contraposição ao imaginário ou da mudança interior dos elementos que compõem a decisão de valor.

Naturalmente, tendemos à mudança. Por isso muitas pessoas que eram quase que insubstituíveis há cinco anos hoje podem ser incontestavelmente dispensáveis ou distantes em nossa vida. Isso versa sobre a liquidez relacional. Mas versa também sobre a mudança geográfica, comportamental, ao amadurecimento emocional e ao grau de relacionamento. Por isso, reforço aqui: não há insubstituíveis.

E é somente quando percebemos que não somos insubstituíveis em lugar ou relação nenhuma é que podemos enxergar a nossa importância em completude. Há lugares pelos quais passamos todos os dias e não somos ali importantes. Apenas desempenhamos funções necessárias, que poderiam ser facilmente desempenhadas por outra pessoa – e o são, por exemplo, quando você falta, seja por motivo de saúde, vontade própria ou outro qualquer. Só somos importantes quando a nossa presença em um determinado local não somente é uma função necessária, mas também tem um quê a mais. Fica fácil entender isso quando alguém diz: “sem fulano funciona, mas com fulano funciona melhor”.

Importância, portanto, não é sobre funcionar, é sobre ser melhor que o necessário. Importar também tem a ver com a sua raiz óbvia da palavra: “trazer para dentro”. Aquilo que nos importa levamos conosco, por isso, algumas vezes veremos nossa importância para outrem sendo despejada numa lata de lixo e também faremos isto com outras coisas e pessoas. Somos tragados pela necessidade da reavaliação da importância de tempos em tempos e do descarte, quando necessário.

Para uma vida mais leve, levamos apenas o que importa dentro da nossa mochila. E o que nos importa é sempre único. Tem valor. Tem preço. Quando se trata de relacionamentos interpessoais, levamos para dentro de nós apenas aqueles relacionamentos que nos trazem algo bom. Podem não fornecer nenhum tipo de benfeitoria física, emocional ou material, mas despertam em nós algo bom e isto já é suficiente para que possamos classificar como importante.

Dentre as amizades, a importância costuma variar muito de acordo com o grau de proximidade que temos. No entanto, nem sempre a proximidade emocional é fator decisivo na importância. Por exemplo, tenho ex-professores que hoje são amigos. Um deles, por exemplo, não tem um grau de proximidade tão grande comigo, mas tem um grau de importância majoritário. Por outro lado, há pessoas extremamente próximas (amigos provenientes do trabalho, da faculdade, entre outros espaços que frequentamos) que não são tão importantes para nós, mas o são para outras pessoas. E essa é a graça da vida: sermos importantes para pelo menos uma pessoa. Viver na memória de pelo menos uma pessoa.

Recentemente, visitei um casal de amigos que havia acabado de se casar. Eu não pude estar no casamento deles. Mas meu peito apertava porque eu precisava vê-los e parabenizá-los. O amigo, uma pessoa muito próxima e muito importante pra minha vida. A amiga, uma pessoa também importante, mas não muito próxima. Em outro caso, recente, visitei um amigo que manifestara verbalmente minha importância à ele. Compartilhei de dores e situações que estava passando. Ele fez o mesmo. Naquele momento, após quase cinco horas seguidas de conversas intensas, próximas e muito importantes, eu verbalizei com algum nível de dificuldade o quanto ele era importante para mim.

E é na verbalização que encontramos outra característica fundamental da importância. Quando classificamos alguém ou algo como importante, é bom que se verbalize, mas melhor e mais necessário ainda é que se aja conforme este nível de importância declarado. Eu sou um pouco afoito a velórios, mas já visitei amigos em velórios de parentes seus apenas para abraçá-los e ir embora. Certamente eles não precisavam daquele abraço, mas fora importante para mim demonstrar isso. Das coisas que gosto, uma delas é colação de grau. É um momento chato que muita gente não gosta, mas eu realmente gosto. Até hoje não há uma colação de grau para qual eu fui convidado e não tinha um evento previamente agendado que eu não tenha ido. Na última que participei, pude ver o brilho nos olhos da pessoa que estava se formando por me ver ali. Eu não era próximo dessa pessoa, mas ela era importante. Eu acho legal quando a manifestação da importância se dá em ações.

Em relacionamentos amorosos, o conceito de importância é tão ou mais desnudado que em outras relações interpessoais. E a manifestação da importância por meio de ações é uma linguagem muito clara no amor. Todavia, por acreditar na monogamia como forma bacana de se relacionar, vejo que há muita dificuldade de saber exatamente em qual parte do caminho deveríamos estabelecer a importância do outro. Porque as chances da frustração acontecer ou do conhecimento real sobrepor-se à ilusão inicial de uma paixão são grandes. E geralmente não dá para definir a importância de alguém somente após muito tempo de relacionamento. Na minha realidade, a importância do outro é definida ainda no momento da paquera. No momento em que já se conhece o suficiente para expressar uma sentença se aquela pessoa serve ou não para estar ao meu lado.

Em todas as minhas últimas experiências amorosas não consolidadas, definir o grau de importância da pessoa foi fundamental para saber se eu deveria ou não fazer determinadas movimentações. Porque é o grau de importância que nos dá o limite de ação. Se alguém é muito importante para nós, tememos perdê-lo. Afinal, você se lembra que importar é trazer pra dentro? Se alguém muito nos importa, muito está em nós, passamos a nos acostumar com essa pessoa dentro de nós e qualquer possibilidade de que essa pessoa possa não estar mais conosco nos assusta. Por isso há dificuldade em dispensar quando não há reciprocidade nesta importância. Esses dias falei sobre dispensação psicológica por aqui.

O caminho para a desimportância, portanto, é o mesmo da importância: o juízo de valor. Se o fizermos embriagados pela paixão ou pela raiva, corremos seríssimo risco de errar. Mas se insistirmos em não fazê-lo, em manter desimportante todos e apenas nós como importantes, nossa vida é pobre, e ouso: inútil. Eu tenho pessoas que carrego comigo todos os dias, dentre essas pessoas algumas que amo e outras que apenas gosto, cada qual com seu grau de importância. Quando alguém ou algo deixa de ser importante, o processo de desligamento dessa pessoa ou coisa costuma ser demorado, dolorido, mas sempre reserva uma importantíssima conclusão ao final do processo. Não deixamos de amar ou gostar, mas a importância se esvai.

O que eu desejo para você é que tenha pessoas importantes em sua vida, que manifeste isso à elas e que saiba reconhecer onde e para quem você é importante. Quando houver o menor sinal de importância, corresponda com um peito aberto, pois aos importantes não requeremos nada como contrapartida. Entretanto, quando ela vem, há afago no coração. Que você mantenha gente importante ao seu lado, pelo máximo de tempo possível. Porque no fim de tudo, quando a coisa aperta a gente não leva nada que é desimportante, levamos apenas o que nos importa.

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