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A diferença entre a melhor solução, a solução ótima e a solução fácil

Soluções ótimas ficam. As melhores soluções são autocentradas. E as soluções fáceis não nos preparam para o desfrute das conquistas. Que nas nossas vidas, prossigamos à busca das soluções ótimas fazendo o que dá para fazer.

Quando passei pela faculdade de Análise e Desenvolvimento de Sistemas aprendi um conceito na programação, graças a um de meus memoráveis professores e a um dos meus melhores amigos: solução ótima. Até então eu conhecia a melhor solução e a solução fácil, que nada têm a ver com o conceito matemático e que não precisa ir muito além do significado léxico para entendê-las.

As soluções

A solução ótima é uma solução básica factível (realizável) que minimiza ou maximiza dependendo da intenção. A solução ótima atende ao conceito de escalabilidade, ou seja, de que quando uma demanda aumentar, a solução pode acompanhar essa demanda. A solução ótima significa, apreendendo um exemplo real, dar carona a todos no rolê encontrando a melhor e mais segura rota, deixando todos na porta de casa, gastando o mínimo de combustível e sem incorrer em nenhuma infração. A solução ótima considera muitas variáveis para que seja encontrada. Pensar a solução ótima em casos breves pode ser fácil mentalmente. Em casos mais alongados, o apoio do papel ou da tela eletrônica se torna imprescindível.

Agora, partindo para outro prisma, quando consideramos uma solução a “melhor”, tratamos ela a partir de um ponto de vista. Portanto, a melhor solução para x pode não ser para y. Se a melhor solução para um dono de supermercado que todos os dias abre as portas com dezenas de mendigos que se abrigam debaixo da fachada da loja for instalar pedras impossibilitando que os mendigos durmam ali, pode não ser a melhor solução (e não é!) para o mendigo que também tem um problema (a falta de um lar) e este não está sendo resolvido. A melhor solução sempre privilegia um aspecto sem considerar a perda própria. Sem considerar ceder para fazer caber.

Já a solução fácil é, por padrão, a mais rápida, a mais próxima, é a considerada solução sem pensar. É aquela que tomamos por útil por já estar à nossa mão. Se temos fome ao meio-dia e temos condição financeira que nos permita escolher e estamos em uma praça de alimentação, podemos escolher entre comer um prato de comida convencional ou um fast food. Mas se temos fome ao meio-dia e só temos em casa uma bolacha recheada, e bolacha neutraliza a fome, escolhemos comer a bolacha porque é a solução fácil (a que está mais próxima) que atende à demanda (fome).

A busca pelos atalhos em discussão

Uma Coca-Cola à mesa, algumas broas e uma boa conversa com gente de verdade. Esse foi o cenário de uma das discussões mais relevantes que tive na semana passada. Estamos vendo uma geração – incluo-me nela – que assiste à conquista facilitada do sucesso: “arrasta pra cima”, “eu ganho 100 mil reais por mês”, “é só ter vontade”. E essa geração que abre seus negócios informais e lucra nos primeiros meses (quando lucra) acaba alcançando um patamar de frustração que, se não for considerado rapidamente, pode levar ao desencadeamento de atitudes no mínimo reprováveis.

Estamos todos os dias à busca de soluções fáceis. Lembro-me de uma amiga, Talita de Souza, jornalista e conteudista de mídias sociais, que compartilhou um post no Instagram há alguns meses: “fuja da sede por caminhos rápidos”. O argumento usado por ela era que os caminhos fáceis sempre escondiam algum tipo de easter egg, algum tipo de surpresa e que praticamente todos eles não nos preparavam para desfrutar da conquista.

Lembrei-me de um prazo pequeno de minha adolescência que jogava Need for Speed Underground 2 no meu computador e sentia extrema dificuldade em passar boa parte das fases do jogo porque dependiam de uma perspicácia maior que a que eu tinha, porque o computador apresentava alguns travamentos e também porque algumas fases pareciam ter sido feitas para não serem passadas. Mas aí existiam as “manhas”, os “moods”. E aí isso tornava o jogo mais fácil. Mas era sem graça. Em outro jogo, o Grand Theft Auto Vice City, os moods eram mais divertidos, mas ao mesmo tempo faziam com que eu perdesse o interesse pelo jogo porque a história não era seguida. As fases não eram completadas e logo eu cansava.

Retomando ao ambiente da conversa da semana passada, discutíamos como a geração que entrou agora no mercado de trabalho está fugindo dos caminhos mais demorados (ensino médio, técnico, superior, pós-graduação, etc…) e quer pular logo as etapas, onde o parâmetro é o recurso financeiro a ser conseguido para viver imediatamente e conseguir conquistar o que se quer do modo mais rápido e menos trabalhoso possível. Lembro-me que falamos sobre escolhas. Uma das pessoas na mesa lamentava que havia deixado a escola regular e, no ápice de sua adolescência, escolheu a labuta do campo que era mais rentável. Enquanto isso, um dos seus irmãos encontrou o caminho da educação formal. Hoje há disparidade financeira entre ambos. Claro que este caso não pode ser levado em modo genérico e aplicado de modo universal, mas é fato que a educação formal é um caminho muito importante para a conquista da autonomia financeira.

E aqui se encontra um outro atalho: ouço com frequência, por força de meu contato com adolescentes em fase de escolha de curso superior, alguns adolescentes dizendo que farão o curso superior e conseguirão um emprego que pague bem. A escola, a faculdade, o curso técnico não garantem nem podem garantir emprego. O que muitos pensam é que o mercado tem a sua vaga reservada e basta que você se apresente com o diploma e assuma a vaga. Errado! Empregar, o mercado emprega até gente sem diploma, e que, diga-se de passagem, às vezes faz com mais paixão, afinco e responsabilidade que quem arrota o diploma.

Nesse caminho onde não é só sobre buscar educação formal, mas sim encontrar razão na sua própria vida e direcioná-la a partir disso, encontramos gente perdida. Muito perdida. Gente que continua fazendo o que sempre fez somente porque não se atualizou e se acha muito descontinuado para mudar de carreira, de rumo, agora. Também encontramos gente sabe-tudo. Confesso que já fui e tento todos os dias evitar ser assim. Essa gente é ditadora do conhecimento, autoritária, são pessoas imprescindivelmente chatas e, no fim, só enrolam e nada entregam. E é também neste caminho que encontramos pessoas que já encontraram o caminho. Elas não têm pressa porque sabem para onde vão. Muitas delas já escolheram a desistência ou trancamento de uma faculdade ou de um curso técnico por não se encontrarem na área para a qual se formavam. Muitas dessas pessoas estão a um passo do sucesso profissional desenhado como ideal pelo senso comum da atualidade, mas elas experimentam o tempo do “ainda não”.

Em busca de soluções

Eu sou quase sempre convocado em situações de caos nas instituições as quais presto meus serviços. Seja em comunicação para gerenciamento de crises, seja para reformas urgentes na estrutura administrativa, seja para abraçar um projeto que necessita de emergente execução. Um dos meus melhores amigos, a quem faço deferência no início deste texto por ter me ajudado a entender o que era uma solução ótima, me apelidou de “chama caos”. Antes eu me culpava muito por isso, hoje tento lidar apenas.

Na busca de qualquer solução, há um elemento-chave: a informação. A informação é inevitavelmente necessária. Sem informação, não há tomada de decisão. Observação é uma das ferramentas que permitem a obtenção de informação para tomada de decisão. Audição dos atores imersos no problema contribui demais também. Mas imersão, ah a imersão… Essa é uma forma muito evoluída de chegar a soluções. Porque é sentindo o que o outro sente, é observando pelo prisma do outro que se pode chegar às soluções ótimas. Nem às melhores nem às fáceis.

Quando assessoro alguém que tem conhecimento técnico e que apenas me contratou porque não tem tempo para executar eu preciso ser um pouco mais detalhista sobre o caminho que escolhi para depois não ouvir: “mas por que você escolheu ir por aqui?”. Então geralmente mostro: temos as seguintes soluções na mesa, os prós e contras de cada uma estão aqui e preferi essa por causa disso. Cada uma pessoa tem uma forma de atuação e deixar claro a escolha é importante para planificar a informação.

Recentemente fui contratado para uma assessoria técnica no terceiro setor. O desafio é gigante: implantar ferramentas administrativas básicas numa equipe com média de 20 a 30 anos de mercado, ou seja, com bastante capacidade técnica, mas pouca atualização em torno das ferramentas de gestão e execução de tarefas. A entidade para a qual presto serviço tem mais de 20 anos de atuação, enfrenta um período de ascensão quanto à credibilidade de seu papel social, mas de descrédito quanto à sua ausência de transparência – o que acaba sendo uma exigência não somente da comunidade, mas da própria legislação após o Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil, conquista do período dilmista de governo.

A solução fácil seria implantar, logo após o diagnóstico inicial (que durou 15 dias de imersão, observação, reuniões e audição dos atores principais da entidade), um plano de trabalho básico. Monta-se a estrutura administrativa e faz com que as pessoas se encaixem a tempo e hora nesta estrutura sem dó nem piedade. Solução rápida, barata e me daria condições de dizer: “estamos transformando a entidade com 30 dias de trabalho”. Seria bonito, mas de que adianta a assessoria terminar e as mudanças implementadas a ferro e fogo serem desfeitas? Logo, fiquei tentado a achar a melhor solução.

A melhor solução seria trabalhar uma parte da instituição como projeto piloto e esperar que esse piloto fizesse sentido para as demais áreas da instituição. No entanto, a interdependência das áreas da instituição iriam aprofundar o vácuo de informação que existe entre os departamentos. Um núcleo separado iria segmentar e prejudicar os usuários, embora seria louvável para os funcionários e para a diretoria.

Mas a solução ótima, que eu continuo buscando, passa por alguns fatores: o clima organizacional e a regulação do humor funcional, a planificação das informações, a inclusão da comunidade (parte interessada na organização) nas discussões da entidade, a aproximação da diretoria, uma reforma administrativa que leve em consideração a manutenção de todos os empregos e a regularização das situações percebidas, bem como a digitalização e simplificação de processos e serviços. Qual é a solução? Não sei. Já fez um mês que estou trabalhando para encontrar esta solução e até agora não achei. Mas estou fazendo o que dá pra fazer.

E aprendi com isso que ao fugir das soluções fáceis, nos deparamos com nosso egoísmo e redução de uso da energia, a melhor solução. Mas se tentarmos mais um pouco podemos prosseguir (e não achar!) à busca da solução ótima. Por que no fim, a solução ótima é básica, porém factível, e escalável.

Soluções ótimas ficam. As melhores soluções são autocentradas. E as soluções fáceis não nos preparam para o desfrute das conquistas. Que nas nossas vidas, prossigamos à busca das soluções ótimas fazendo o que dá para fazer. Um abraço a você. Feliz 2021.

Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

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